Segundo matéria publicada no Valor Econômico de hoje (“PIB pode crescer abaixo de 3% neste ano e em 2012, afirma economista), a economia brasileira pode crescer abaixo de 3% em 2011 e 2012. Se essa projeção se concretizar, a economia brasileira crescerá abaixo do seu potencial pelos próximos dois anos. Qual a razão dessa desaceleração de crescimento?

A meu ver a explicação fundamental para isso se encontra no comportamento da produção da indústria de transformação. Com efeito, segundo dados do IPEADATA, a produção física da indústria de transformação (índice dessasonalizado) acumulou uma alta de apenas 2,92% entre janeiro de 2010 e julho de 2011, o que significa uma taxa de crescimento da produção física de aproximadamente 1,9% em termos anualizados. Esses números mostram que a produção física da indústria brasileira de transformação está estagnada a quase 18 meses !!!!

A estagnação da produção industrial não pode ser atribuída ao recente recrudescimento da crise econômica mundial. Com efeito, a produção física da indústria de transformação está patinando pelo menos desde o segundo semestre de 2010, ao passo que os problemas mais graves na Europa e nos Estados Unidos surgiram no final do primeiro semestre de 2011.

O comportamento pífio da produção industrial pode ser atribuído, ao menos em parte, a apreciação da taxa real de câmbio verificada no período em consideração. Com efeito, se olharmos para a taxa real efetiva de câmbio (INPC-Exportações-Manufaturados) iremos constatar que ocorreu uma apreciação de 9,39% entre janeiro de 2010 e julho de 2011. Se calcularmos o coeficiente de correlação entre a taxa real efetiva de câmbio e o crescimento mensal da produção física da indústria de transformação, chegamos a um valor igual a 0,128, um valor baixo, mas ainda assim significativo.

Supondo que o câmbio é a variável exógena e a produção física da indústria é a variável endógena, então a apreciação da taxa real de câmbio foi responsável por uma redução do crescimento da produção industrial de 1,2% no período em consideração, isto é, a apreciação do câmbio real reduziu o crescimento da indústria de transformação em cerca de 30% com respeito ao valor que poderia ter sido observado caso a apreciação cambial não tivesse ocorrido.

Nesse contexto é inexplicável a atitude recente do governo brasileiro em permitir a re-apreciação da taxa nominal de câmbio, após a mesmo ter chegado a quase R$ 1,95 em função do aumento da aversão global ao risco em função do recrudescimento da crise na Europa. Se o governo deseja, de fato, estimular o crescimento da economia brasileira então a atitude sensata a fazer é estimular a competitividade da indústria de transformação, a qual é a fonte, por excelência, de retornos crescentes de escala, condição necessária para a sustentação do crescimento no longo-prazo. Mas para isso o governo precisa desvalorizar a taxa real de câmbio. Para minimizar o impacto inflacionário da desvalorização cambial é necessário mudar o mix de política econômica. Mas isso é outra estória ….

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