Série “Nobel 2011” – Sentinelas da economia

Láurea de Economia vai para dois americanos que criaram métodos para antever o efeito de políticas financeiras sobre a economia
Reportagem Guilherme Magalhães
Edição Luan Galani
Sputnik/Flickr

Estátuas de animais símbolos da economia: boi e urso. Respectivamente, eles representam os altos e baixos do mercado mundial. Por causa das idéias criadas pelos laureados de 2011, essas oscilações podem ser previstas

Estátuas de animais símbolos da economia: boi e urso. Respectivamente, eles representam os altos e baixos do mercado mundial. Por causa das idéias criadas pelos laureados de 2011, essas oscilações podem ser previstas
Nobel/Divulgação

Os norte-americanos Thomas Sargent e Christopher Sims são os laureados com o Nobel de Economia 2011

Os norte-americanos Thomas Sargent e Christopher Sims são os laureados com o Nobel de Economia 2011

Encerrando os anúncios do Nobel de 2011, a Academia Real Sueca de Ciências concedeu o prêmio Nobel de Economia aos norte-americanos Thomas Sargent e Christopher Sims. Os trabalhos de ambos, na área de macroeconomia, foram feitos separadamente, mas, segundo o comitê do Nobel, são complementares.

O professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) José Luis da Costa Oreiro acredita que é justa a premiação dos dois economistas norte-americanos. “O trabalho do Sargent teve grande impacto nos anos 1980, ainda hoje tendo grandes contribuições. Já os estudos do Sims, sobre modelagem econométrica [ferramentas estatísticas que objetivam compreender a relação entre as variáveis econômicas, como PIB, juros, inflação e taxa de emprego], eu considero igualmente importantes”, afirma Oreiro.

A macroeconomia concentra-se no estudo do comportamento agregado de uma economia, ou seja, das principais tendências (a partir de processos da microeconomia) no que concerne à produção, geração de renda, uso de recursos, comportamento dos preços, e ao comércio exterior. Sargent nos ajudou a compreender os efeitos para a economia de sistemáticas mudanças políticas, enquanto Sims focou seu trabalho em como os choques espalham-se e afetam a economia. Um choque é um evento econômico imprevisível, como o preço do petróleo que sobe inesperadamente, uma taxa de juros definida pelo banco central impossível de se prever ou uma súbita queda no consumo.

Uma maneira de estudar os efeitos da política econômica seria a realização de experimentos controlados. Na prática, porém, diferentes políticas não podem ser designadas aleatoriamente para diferentes países. A pesquisa macroeconômica, portanto, é obrigada a usar dados históricos. De acordo com a Academia Real Sueca de Ciências, a contribuição mais importante dos laureados foi mostrar que relações macroeconômicas causais podem ser analisadas usando dados históricos, mesmo em casos de “relação de duas vias”. Esse tipo de relação mostra que as expectativas do setor privado quanto à política futura do governo afetam as decisões de hoje sobre salários, preços e investimentos. Por outro lado, decisões político-econômicas do governo são guiadas pelas expectativas no que concerne à evolução do setor privado.

Thomas Sargent Ele nasceu na Califórnia em 1943. Hoje, com 68 anos, Sargent é formado pela renomada Universidade da Califórnia, em Berkeley. Obteve seu PhD na Universidade de Harvard e se especializou em macroeconomia, economia monetária e econometria de séries temporais. Atualmente, ele é professor na Universidade de Nova York.

A pesquisa premiada de Sargent gira em torno de métodos matemáticos que utilizam dados históricos para entender como as mudanças sistemáticas na política econômica afetam a economia com o passar do tempo. Muito de seu trabalho vem da hipótese da formação das expectativas racionais.

Como explica o economista da UnB, essa hipótese pressupõe que os agentes econômicos utilizam toda a informação disponível sobre o atual comportamento da economia. “Com base nisso, os agentes racionais antecipam as atitudes e políticas futuras do governo, na forma de expectativas racionais”, diz.

Oreiro comenta que essa formulação também favorece a mínima intervenção do Estado na economia. “Indiretamente, é claro, pode-se dizer que os estudos de formação de expectativas racionais levaram ao descontrole do mercado que gerou a crise financeira global de 2008”, assegura Oreiro.

Christopher Sims O economista tem 69 anos e nasceu em Washington. Também possui PhD pela Universidade de Harvard e atualmente leciona na Universidade de Princeton. Em um artigo de 1980, introduziu uma nova maneira de analisar dados macroeconômicos. Ele também concordou com Sargent na ênfase da importância das expectativas.

Em sua pesquisa laureada, Sims enfoca as distinções entre alterações inesperadas nas variáveis (os choques), como o preço do petróleo ou a taxa de juros, e mudanças esperadas, a fim de rastrear os seus efeitos sobre importantes variáveis macroeconômicas. Em entrevista por telefone à Academia Real Sueca de Ciências, Sims reconheceu que a complexidade dos métodos usados por ele e Sargent não é capaz de fornecer respostas simples para sair da crise mundial atual. “Se eu tivesse uma resposta simples, eu a espalharia pelo mundo, mas acredito que os métodos que utilizo e que o Tom (Sargent) desenvolveu são essenciais na pesquisa de um meio para que a gente saia deste marasmo”, declarou.

O prêmio

Concedido desde 1969 e financiado pelo Banco Central da Suécia, o Nobel de Economia fecha a temporada de láureas da Academia sueca e é o único do rol não previsto no testamento de Alfred Nobel, magnata sueco da dinamite.

Assim como nos outros prêmios, os laureados recebem uma doação no valor de 1,08 milhão de euros (cerca de 2,58 milhões de reais), a ser dividida igualmente entre os vencedores. Os prêmios serão entregues em Estocolmo no dia 10 de dezembro, data de aniversário da morte de Alfred Nobel.

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Comentário sobre a entrevista: Acredito que muitos dos meus leitores podem ficar perplexos com o fato de eu, um pós-keynesiano declarado, afirmar publicamente que o Nobel de 2011 para Sargent e Sims foi justo. Muitos de meus colegas heterodoxos certamente vão torcer o nariz para a escolha, dizendo que o prêmio não foi merecido. Eu não concordo com essa posição. Aqui temos que esclarecer o sentido da palavra “justiça”. Ser justo significa “dar a cada um aquilo que é seu”. Concorde eu ou não com o trabalho de Sargent, o fato inegável é que o mesmo teve grande impacto no mundo acadêmico mundial. O desenvolvimento da hipótese de expectativas racionais foi importante, inclusive, para pós-keynesianos, pois nos permitiu ter uma noção mais precisa das condições de validade da hipótese de incerteza Knight-Keynes. De fato, hoje em dia os pós-keynesianos sabem que a incerteza forte é decorrência da não-ergodicidade dos processos estocásticos (Vejam os artigos de Paul Davidson públicados no JPKE em 1982 e no CJE em 1988), cuja condição suficiente de existência é a não-estacionariedade das séries de tempo, algo aliás intimamente relacionado com o trabalho de Sims. Nesse contexto, o aprendizado é impossível e a economia nunca irá convergir para um equilíbrio com expectativas racionais.

Está claro que o trabalho de Sargent (não o de Sims) tem implicações ideológicas. Durante os anos 70 e 80, as expectativas racionais foram usadas como argumento para se justificar a ineficácia das políticas anti-cíclicas. Hoje sabemos que a  hipótese de expectativas racionais não é condição suficiente para a obtenção desse resultado. É necessário também que os preços e os salários nominais sejam totalmente flexíveis, algo que não ocorre no mundo real, independentemente da elegância (ou não) da hipótese de menu-costs.

O conhecimento científico avançou muito em função dos trabalhos de Sargent e Sims, tanto no campo ortodoxo como no campo heterodoxo. Isso é condição suficiente para a outorga do prêmio Nobel.   

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