Uma política monetária apropriada para os países em desenvolvimento deve ser conduzida de forma discricionária tendo como metas operacionais a obtenção de uma taxa de inflação estável a médio e longo prazo e uma taxa de crescimento sustentável para o produto real[1]. Para a obtenção dessas metas operacionais a autoridade monetária deverá utilizar não apenas a taxa básica de juros como também instrumentos de natureza regulatória ou prudencial como os depósitos compulsórios, os controles de capitais e os requerimentos de capital próprio sobre os ativos mantidos pelos bancos comerciais. A utilização desses instrumentos de natureza prudencial tem por objetivo dar a autoridade monetária algum grau de controle sobre a taxa de crescimento das operações de crédito do setor bancário, de forma a evitar o surgimento e a propagação de bolhas especulativas, e o ingresso de capitais externos, com vistas a manter a estabilidade do câmbio nominal e controlar o endividamento externo do sistema financeiro.

A adoção de um comportamento discricionário por parte do Banco Central não leva necessariamente ao problema de inconsistência dinâmica apontado no artigo de Kydland e Prescott (1977). Segundo esses autores, a autoridade monetária teria incentivos para criar surpresas inflacionárias, as quais permitiriam um aumento temporário do nível de produção e de emprego. Esses incentivos tornam toda a política anti-inflacionária não crível, gerando assim uma taxa de inflação de equilíbrio maior do que a meta de inflação perseguida pela autoridade monetária. Para evitar o “viés inflacionário” da política monetária discricionária, o Banco Central deve seguir algum tipo de “regra impositiva” que impeça a geração de “surpresas inflacionárias”. O problema com essa argumentação, como bem ressalta Blinder (1999), é que Kydland e Prescott pressupõem que a autoridade monetária persegue uma meta de nível de produto real maior do que o nível de produto de equilíbrio da economia. Sendo assim, o “viés inflacionário” não resulta do comportamento discricionário per se, mas da inconsistência entre a meta perseguida pelo Banco Central e o nível de produto de equilíbrio da economia.

Deve-se ressaltar aqui que a autoridade monetária não deve utilizar regras de taxa de juros, como, por exemplo, a Regra de Taylor, para guiar a sua decisão a respeito do nível da taxa básica de juros, devendo agir de forma discricionária com vistas a obtenção das metas operacionais da política monetária. No caso específico da regra de Taylor a mesma é uma “função de reação” na qual a taxa de juros de curto-prazo fixada pela autoridade monetária depende da taxa de juros de equilíbrio, do desvio previsto da inflação com respeito a meta fixada pela autoridade monetária e do desvio do produto (ou da taxa de crescimento) com respeito ao produto potencial (ou taxa natural de crescimento). O uso dessa regra gera dois tipos de problemas para a condução da política monetária. Em primeiro lugar, a taxa de juros de equilíbrio ou “neutra” é muito difícil de ser calculada, pois a mesma pode variar de forma não previsível em função de mudanças na tecnologia (paradigma neoclássico) ou nas convenções e expectativas a respeito da taxa de juros tida como “segura” no longo-prazo (paradigma keynesiano). Em segundo lugar, o produto potencial e a taxa natural de crescimento são, em larga medida, endógenos, dependendo da evolução da demanda agregada ao longo do tempo. Dessa forma, o uso do “produto potencial” para guiar a condução futura da política monetária envolve um claro problema de histerese, uma vez que o produto potencial depende, ele próprio, do comportamento passado da política monetária. Nesse contexto, se a política monetária foi restritiva no passado, então a demanda agregada apresentará um histórico de baixo dinamismo, gerando um crescimento baixo para o produto potencial, o que levará a autoridade monetária a manter uma política monetária restritiva hoje para conter pressões inflacionárias vindas do lado da demanda agregada.

Os problemas de histerese envolvidos na utilização da “regra de Taylor” por parte do Banco Central do Brasil na operação do Regime de Metas de Inflação fazem com que os valores presente e futuro da taxa de juros Selic sejam extremamente dependentes do histórico da taxa em consideração. Nesse contexto, abre-se um espaço bastante considerável para a utilização de modelos econométricos com base em séries temporais os quais, a partir da análise das séries de tempo de um conjunto limitado e parcimonioso de variáveis macroeconômicas (incluindo a série de tempo da taxa Selic), possam prever a evolução da taxa de juros e outras variáveis de interesse – como, por exemplo, a taxa de câmbio – no curto-prazo. Trata-se de uma metodologia alternativa ao uso dos assim chamados “modelos macroeconométricos estruturais”, os quais se baseiam na especificação de uma série de equações comportamentais para as variáveis macroeconômicas, na estimação dos coeficientes dessas equações e na formulação de cenários alternativos a respeito da dinâmica das variáveis exógenas do modelo. Essa metodologia tem a desvantagem de envolver a construção de modelos macroeconométricos de larga escala, os quais podem contar com milhares de equações e variáveis dependentes. 

            O livro Modelos Monetários para a Previsão de Juros e Câmbio pelos Métodos VAR e BVAR, de autoria de Luciano Luiz Manarin D´Agostini, Doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Paraná, se insere precisamente no contexto dos modelos de previsão com base em séries de tempo.  Ao longo do livro, o autor apresenta uma série de modelos econométricos e suas respectivas especificações funcionais com o objetivo de auferir o grau no qual os modelos aqui propostos são capazes de prever o comportamento de curto-prazo da taxa de juros Selic e da taxa nominal de câmbio. O autor mostra que as previsões obtidas a partir dos modelos VAR e BVAR são bastante próximas da trajetória descrita pela taxa de juros e pela taxa de câmbio ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de um instrumental estatístico bastante poderoso para a realização de previsões de curto e médio-prazo a respeito do comportamento da taxa básica de juros e da taxa nominal de câmbio. Dessa forma, o livro O livro Modelos Monetários para a Previsão de Juros e Câmbio pelos Métodos VAR e BVAR é leitura obrigatória para todos os economistas que trabalham com a análise da conjuntura econômica brasileira.

 

Referências:

BARBOSA-FILHO, N.H. (2009). “Inflation Targeting in Brazil: 1999-2006” In: Epstein, G; Yeldan, A.E (orgs.). Beyond Inflation Targeting. Edward Elgar: Aldershot.

BLINDER, A. (1999). Bancos Centrais: teoria e prática. Edições 34: São Paulo

KYDLAND; F.E; PRESCOTT, E.  (1977). “Rules rather than discretion: the inconsistency of optimal plans”. Journal of Political Economy, Vol. 85, pp. 473-492.


[1] Entende-se aqui por taxa de crescimento sustentável aquela taxa de crescimento do PIB real que é compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos. O conceito de “produto potencial” não deve desempenhar nenhum papel na definição das metas da política monetária uma vez que o mesmo é endógeno, sendo, portanto, dependente do histórico de crescimento registrado pela economia (Barbosa-Filho, 2009, p. 154).

SOBRE O AUTOR

Luciano Luiz Manarin D’Agostini, 35 anos, é economista, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela UFPR (2006-2010). Foi também aluno visitante do doutorado em Métodos Numéricos Aplicado à Estatística pela UFPR(2006-2010). Além de economista pratica natação rotineiramente há 23 anos. Nascido em Curitiba, Paraná, aos 12 anos começou a nadar no Clube do Golfinho (1988), para se recuperar de um acidente de trânsito. Três anos mais tarde (1991), começou a treinar e competir nas categorias de base com o Prof. Daniel Wolokita. Aos 15 anos começou a treinar no Clube Curitibano, onde passou grande parte da sua carreira como nadador. Pelo Clube Curitibano, obteve suas principais vitórias em equipe e individuais. Nadou com o Prof. Paulo Bento (1992 a 1995), com o Prof. Marcos Chaiben (1997 a 1999) e com o Prof. Christian Carvalho (2003 a 2007).

            De 1994 a 2007, nadou Troféu Brasil e/ou Troféu José Finkel, quase que ininterruptamente, juntamente com grandes atletas da natação brasileira. Em 2004, aliando os treinamentos, estudos e trabalho na área econômica, começou também a participar de competições internacionais de natação masters nas Américas, Europa e Oceania. E não parou mais! Movido pelo espírito “Master para o presente, master para a Vida” e “Saúdável, esportivo e jovem  (Fit, Fun and Forever Young)”, de 2004 a 2011, participou de 4 campeonatos mundiais de natação master, promovidos pela Federação Internacional de Natação Amadora (FINA) e de 2 World Mastes Games (Jogos Mundiais Masters), promovidos pela International Masters Games Association (IGMA). Nestes anos de carreira como nadador acumulou na bagagem títulos pessoais importantes como a figuração entre os 10 melhores atletas do mundo na categoria master, pelo ranking mundial TOP 10 FINA (temporadas 2004 a 2008) nas provas de nado costas e revezamentos. Nos campeonatos mundiais FINA Masters conseguiu o bronze no Mundial de Rimini-Itália (2004), a prata em Perth-Austrália (2008), 5º. Lugar no Mundial de Gotemburgo–Suécia (2010) e no Mundial de São Francisco-Estados Unidos (2006). Igualemnte vitorioso, no World Masters Games (Jogos Mundiais Masters) obteve 11 medalhas em 2 edições: Sidney-Austrália (2009) e Edmonton-Canadá (2005), sendo 1 de ouro, 6 de prata e 3 de bronze.

             Como economista foi colaborador e escritor da Revista de Economia & Tecnologia da UFPR, área de macroeconomia e conjuntura. A área de pesquisa concentra-se em macroeconomia, política monetária, finanças, estatística e séries temporais. Tem experiência no mercado financeiro, atuando como consultor nos seguintes temas: gestão de carteiras, política monetária, taxas de juros, taxa de câmbio, inflação, investimentos em renda fixa e variável;

•          É co-autor do Livro Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação (FGV, 2010);

•          Ganhou o Prêmio Paraná de Economia (2005)/CORECON/PR, categoria Artigo de Economia;

•          Ganhou o Prêmio Brasil de Economia (2010)/ COFECON, categoria Livro de Economia;

•          Professor de Estatística do curso preparatório para a ANPEC (CORECON/PR);

•          Professor dos cursos de MBA’s  em Finanças, Engenharia Econômica e Controladoria do IBPEX/PR  e FACSUL, onde leciona eventualmente as disciplinas de política monetária, mercado financeiro internacional, câmbio, mercado de renda fixa e variável, mercado a termo, mercado futuros e swaps;

•          Experiência com previsão estatística de variáveis macroeconômicas, características de produtos financeiros, formação de carteira de investimentos em renda fixa e variável, gestão de risco e liquidez bancária, planejamento financeiro de empresas e famílias, análise de crédito pessoa física e jurídica, pesquisa em economia e relatórios macroeconômicos.

•          Possui artigos macroeconômicos e econométricos publicados em revista científica, livro de economia, reportagens em jornais e revistas de grande circulação como Valor Econômico e Revista Veja.  

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