Nos últimos dias temos presenciado uma forte valorização do dólar sobre o real, o qual está sendo cotado hoje a R$1,88, uma valorização de 12,57% da moeda norte-americana em poucas semanas. A valorização do dólar é um fenômeno que está ocorrendo em diversos países, decorrência da incerteza crescente quando a situação econômica da Europa, onde é cada vez maior o risco de calote da dívida soberana da Grécia, o que terá um forte efeito de contágio sobre outras economias da Europa, como Portugal, Espanha e Itália. Essa incerteza está produzindo um movimento de fuga de ativos denominados em euros em direção a ativos denominados em dólar, daí a valorização do dólar frente ao euro. Em momentos de incerteza como o que estamos vivendo agora, os investidores internacionais também fogem de aplicações tidas como mais arriscadas como, por exemplo, títulos soberanos e ações de países emergentes. Esse movimento de “fuga para a qualidade” se reflete, no Brasil, em queda da cotação do IBOVESPA e desvalorização do real frente ao dólar à medida que os investidores estrangeiros retiram suas aplicações do Brasil e as remetem para os Estados Unidos. Daqui se segue que a desvalorização do Real frente ao dólar não reflete uma desconfiança quanto a solidez da economia brasileira, mas é apenas o reflexo de um movimento global de recomposição do portfólio dos investidores internacionais num ambiente de crescente aversão ao risco em função das incertezas crescentes sobre o futuro da União Monetária Européia.
 
Essa desvalorização do Real frente ao Dólar traz riscos, mas também oportunidades, para a indústria e para a economia brasileira. Aquelas empresas brasileiras que tiverem exposição ao risco cambial, seja porque tem dívida denominadas em dólar seja porque tem exposição a derivativos de câmbio poderão enfrentar problemas similares aos que empresas como Sadia, Votorantim e Aracruz passaram no final de 2008 com a forte desvalorização cambial após a falência do Lehman Brothers. Neste momento é aconselhável que as empresas brasileiras reduzam ao máximo sua exposição cambial, para evitar esse tipo de problema. Um outro risco importante é a aceleração da inflação. A inflação acumulada nos últimos 12 meses está em 7,33% e o governo já se comprometeu com um aumento de 14% para o salário mínimo em 2012. Nesse contexto, uma forte desvalorização cambial poderá acelerar ainda mais a inflação, pondo em risco todo o trabalho de estabilização monetária feito nos últimos 17 anos. Para evitar esse risco, é imperativo que o governo federal promova um forte ajuste fiscal, cortando despesas de consumo e de custeio, promovendo um aumento da eficiência da administração pública, mas preservando os necessários investimentos públicos em infra-estrutura, essenciais para a redução do Custo Brasil. A política de redução da taxa de juros, no entanto, deverá ser continuada e, até mesmo, acelerada. Para tanto, o governo deve promover uma coordenação estreita entre a política monetária e fiscal, apertando a política fiscal para dar espaço para o Banco Central reduzir mais rapidamente a taxa de juros.
 
A oportunidade que a crise coloca para a inddústria e a economia brasileira é a possibilidade de realizar um ajuste permanente da taxa de câmbio. É público e notório que nos últimos anos a indústria brasileira vinha sendo massacrada pela concorrência externa, principalmente Chinesa, devido fundamentalmente a sobre-valorização cambial. Por uma série de razões o governo brasileiro decidiu não promover um ajuste da taxa de câmbio, priorizando outros objetivos de política  econômica. A crise atual está fazendo pela indústria o que o governo não quiz fazer com os seus instrumentos de política econômica.  Assim que o câmbio atingir um patamar razoável, que dê condições de competitividade para a indústria brasileira ( o que estimamos que ocorra com uma taxa de câmbio entre R$2,20 e R$ 2,30), o Banco Central deverá atuar no mercado de câmbio, por intermédio da venda de reservas internacionais em larga escala, para impedir um over-shooting da taxa de câmbio, a qual seria noçiva para a economia brasileira.
 
Por fim, é imperativo que o governo brasileiro não desperdice a oportunidade que a crise internacional está proporcionando para fazer um ajuste permanente da taxa de câmbio. Na crise de 2008, o câmbio havia sido ajustado “pelo mercado”, mas após alguns meses retornou a trajetória de apreciação , elimando assim o efeito positivo que a crise tinha tido sobre o Brasil. Esse erro não pode ser cometido de novo. O Banco Central do Brasil, a semelhança do Banco Nacional da Suiça, deve instituir um piso para a taxa de câmbio, de maneira a evitar que, passado o pânico momentâneo, o dólar volte a se desvalorizar frente ao real.
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