Lehman foi apenas o estopim

Autor(es): » Sílvio Ribas » Victor Martins
Correio Braziliense – 15/09/2011
 

 

Três anos após a quebra do banco dos EUA, a economia global segue amedrontada pelo sistema financeiro e por gastos sem controle

A crescente incerteza sobre a economia global não é só um repique da crise financeira de 2008 e 2009. Analistas acreditam que a origem da atual estagnação dos países desenvolvidos, combinada com graves problemas fiscais, vem de longe — há exatos 10 anos, no fatídico 11 de setembro de 2001. A perda de confiança no sistema financeiro, que abusou de soluções “criativas”, e o descontrole dos gastos federais de grandes economias são prova disso. Ao se completar hoje o terceiro aniversário da quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, marco do começo da maior crise do capitalismo desde 1929, a percepção geral é que desequilíbrios econômicos advindos do ataque às torres gêmeas de Nova York jamais foram sanados.

Os economistas explicam que os alívios temporários ao longo de uma década de dificuldades, sobretudo nos Estados Unidos, acabaram gerando outros problemas, como a bolha imobiliária norte-americana, tida inicialmente como resultado da regulação frouxa dos mercados. Agora, enquanto a fragilidade das finanças globais, particularmente da Europa, fica cada vez mais evidente, também se esgota a capacidade de intervenção do setor público. “O resultado desse processo é a possibilidade de assistirmos a uma década perdida nos polos mais desenvolvidos”, comentou o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB).

O professor até acha ser possível uma correção de rumos, mas lamenta que o impasse político na União Europeia (UE) e nos EUA esteja deixando “a solução cada vez mais distante e mais cara”. Pior, está esgotando espaços de negociação. Para ele, o agravamento da crise deverá levar a mudanças de governos e, assim, de políticas econômicas. “A única chance seria mirar a consolidação fiscal em seis anos e expandir já a política fiscal. No atual contexto recessivo, é impossível falar em corte de gastos nos países ricos”, explicou.

Embrião de bolhas
O maior atentado terrorista da história disparou gastos pesados por parte do governo norte-americano, sobretudo militares. Com isso, o orçamento da Casa Branca saiu de superavit para um deficit de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas do país) em 2004. Em 2001, a máquina de guerra norte-americana consumia US$ 315 bilhões por ano. Oito anos depois, a conta seria de US$ 704 bilhões, o que impulsionou fortemente a deterioração fiscal do país. “Esse processo culminou nos recentes debates sobre o teto da dívida norte-americana”, observou Raphael Martello, da Tendências.

Dados da consultoria mostram que a participação dos EUA no PIB mundial encolheu desde então. De 2001 a 2009 passou de 23% para 19,8%. A retração se disseminou por outros segmentos. No comércio global, o país recuou de 16% de participação há 10 anos para 11%. “Após o 11 de setembro, ocorreu uma série de desregramentos no governo Bush que, na verdade, tornaram-se o embrião para as bolhas imobiliárias”, explicou Martello. Ele lembra que, de 2002 a 2007, os EUA tiveram forte expansão, ou “a grande moderação”, nas palavras dos especialistas.

A quebra do Lehman Brothers foi emblemática porque o banco estava mais exposto às hipotecas. Como era grande, causou efeito cascata por todo os sistema financeiro, quebrando outras instituições grandes. “Até hoje, pelo menos um banco quebra todos os dias nos EUA, mas eles são pequenos, regionais e de baixo risco para o sistema geral”, argumentou o analista da Tendências. Para Oreiro, o maior gargalo norte-americano está na tributação, que nas últimas décadas pesou menos para faixas elevadas de renda. “Se os EUA voltassem à carga tributária de 1980, haveria superavit. Nem a explosão das despesas com a máquina de guerra pós-2001 tiveram tamanha importância”, disse.

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