Correio Braziliense – 21/08/2011
 
 

 

Quase três anos após a megaoperação de salvamento de conglomerados financeiros nos Estados Unidos e na Europa, instituições atacam aqueles que as socorreram
Victor Martins

Apesar de imprescindíveis a qualquer economia, sobretudo às mais dinâmicas e maduras, os bancos não são instituições que mereçam a benevolência governamental a qualquer preço, especialmente em tempos de crise. Os dias atuais, em que o planeta flerta com a recessão, são prova disso. Quase três anos depois da crise que levou governos a acudirem grandes conglomerados financeiros nos Estados Unidos e na Europa, a fim de evitar um mergulho global numa depressão profunda, agora são os países quebrados por dívidas impagáveis que recebem o troco amargo. Em dificuldades, os bancos não querem saber de carregar os títulos soberanos, os europeus principalmente, por não considerar esses papéis um ativo lucrativo.

Quando o banco norte-americano Lehman Brothers foi à lona em 2008, com o estouro da bolha imobiliária, o gigante havia perdido a capacidade de honrar pagamentos e, em um efeito dominó, atingiu, mundo afora, instituições financeiras que tinham em caixa títulos da dívida do grupo ou de bancos a ele ligados. O alto endividamento das famílias, somado a instituições sem condições de financiar seus clientes, impulsionou uma sequência de calotes e de desemprego nos EUA. Não fosse a benevolência dos governos da maior economia do mundo e da Europa, muitas instituições teriam quebrado. Para evitar o pior, os países emitiram títulos públicos em uma velocidade sem precedentes e as dívidas dispararam, superando, em alguns casos, 100% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas em um ano.

“Agora, o mesmo sistema que pediu socorro, apoiado pelas agências de classificação de risco — como a Standard & Poor”s (S&P), que errou ao manter o triplo A para o Lehman pouco antes da quebra do banco —, está com o dedo em riste contra os governos que o socorreu”, diz o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB). O mercado é unânime em classificar os problemas atuais como sendo exclusivamente da esfera estatal, esquecendo-se de que foram decorrentes da irresponsabilidade dos bancos. Mas, para os especialistas que fazem coro com o presidente francês Nicolas Sarkosy, a fatura precisa ser dividida com quem está do outro lado do balcão. Se os países passam por uma crise de solvência é porque, antes, eles se viram obrigados a gastar entre US$ 5 trilhões e US$ 7 trilhões para socorrer instituições que lucravam com operações arriscadíssimas.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, foi claro na primeira vez em que se pronunciou publicamente sobre a nova onda da crise: “Essa situação fiscal é uma consequência de 2008”. Antes do estouro da bolha imobiliária nos EUA, o mundo vinha do período mais longo de crescimento em mais de 30 anos. Os juros nas economias desenvolvidas estavam no chão e sobrava dinheiro para os financiamentos. O resultado foi um endividamento descontrolado de consumidores, empresas e instituições financeiras. Tudo sob as barbas das autoridades governamentais, que haviam limado uma série de amarras impostas ao sistema financeiro, sobretudo nos Estados Unidos, depois da quebra dos mercados em 1929.

Descontrole
“A coisa chegou a tal ponto que, nos EUA e na Europa, a dívida do setor privado e das famílias hoje é quatro vezes maior do que a púbica”, calcula Oreiro. Para ele, o rebaixamento da nota soberana dos EUA pela S&P foi mais uma amostra do despreparo das agências de avaliação de risco, visto que a decisão provocou o efeito contrário: no lugar de correrem dos títulos norte-americanos, os investidores se refugiaram neles. “Os dados fiscais dos EUA não são ruins. A crise fiscal do país é política. Do ponto de vista econômico, pode ser debelada em três tempos”, sustenta o professor da UnB.

Oreiro pondera que são grandes as chances de o mundo entrar em uma recessão, principalmente devido aos problemas na Zona do Euro — criados, ressalte-se, pelas estripulias dos bancos. A seu ver, a grande barreira para equacionar os problemas no Velho Continente reside na forma como foi constituída a união entre os países, cheia de fissuras. “A solução é dar mais poder para a união e federalizar as dívidas, semelhante ao que fez o Brasil no governo de Fernando Henrique Cardoso. O Banco Central Europeu (BCE) tem de atuar também como um emprestador de última instância”, argumenta. “Isso resolveria a questão de solvência dos países e aumentaria a liquidez do sistema financeiro”, sustenta.

Para Reinaldo Gonçalves, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o mercado é responsável por boa parte de todo o estrago provocado na economia global — endividamento excessivo dos governo, desemprego em alta e recessão. “Os bancos criaram as bolhas por meio da especulação. Agora, os contribuintes estão pagando a fatura criada essencialmente pelas instituições”, diz. Com um sistema financeiro sólido, o Brasil pode aproveitar brechas deixadas pelas economias em dificuldades, avalia Haroldo Mota, professor da Fundação Dom Cabral. Mas há um risco: “A arrogância não pode deixar que achemos que todos  os nossos problemas estão resolvidos”, alerta.

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