A dependência menor dos Estados Unidos e da União Europeia nas exportações traz uma falsa segurança ao Brasil diante dos desdobramentos da atual crise global. A principal razão disso está no fato de as elevadas cotações das commodities — produtos básicos com cotação internacional responsáveis pelo crescente superavit comercial do país — serem, em boa parte, sustentadas por especuladores. Uma eventual debandada desses operadoras para aplicações mais seguras, sobretudo títulos do Tesouro dos EUA, pode levar a uma forte queda nos preços internacionais das matérias-primas, atingindo em cheio o saldo comercial brasileiro.

O alerta, dado por economistas ouvidos pelo Correio, leva em conta também a avaliação de que o pânico mostrado pelas bolsas de valores nos últimos dias é exagerado. “As oscilações nos mercados passaram a refletir desde hoje (ontem) mais a economia real do que a irracionalidade deflagrada pelo rebaixamento da nota da dívida norte-americana”, comentou Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda.

Para ele, a agência de classificação de risco Standard & Poor”s (S&P), movida apenas pelo desejo de recuperar a credibilidade perdida por análises erradas na crise de 2008, agiu de forma “tresloucada” e “nada séria” ao retirar o triplo A dos EUA. Foi por isso que, na visão de Bresser-Pereira, o choque de realidade não demorou a voltar. “Logo que passaram a racionar com clareza, os investidores percebem que, apesar do rebaixamento, a base da economia mundial continua sendo os EUA, não porque o dólar é divisa universal, mas porque seus títulos são o refúgio mais seguro”, explica.

Dependência
O economista reconhece, contudo, que a maior economia do mundo chegou ao terceiro ano de estagnação, “confirmando uma crise superior a de 1929”. Mas Bresser-Pereira ressalta que medidas adotadas pela Casa Branca são as possíveis, incluindo a impressão de dólares para compra de papéis do Tesouro. “O Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) vai iniciar a terceira onda de emissões e as coisas se ajustam”, aposta ele, acrescentando que, “tempos anormais pedem medidas anormais”.

José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), pondera que boa parte da enxurrada de dólares emitidos nos últimos anos pelos Estados Unidos rumou para a especulação nos mercados futuros de commodities. “A valorização de soja, minério de ferro e outros produtos foi puxada pela procura crescente de países emergentes, mas também é um fenômeno financeiro”, avaliou.

O economista alerta que o recuo nas importações de países desenvolvidos foi compensada por essas cotações elevadas, embora reconheça que o comércio externo brasileiro tenha reduzido a dependência dos EUA e da Europa de 52,4% no primeiro semestre de 2000 para 31,6% em igual período deste ano. Nessa comparação, o mercado norte-americano representou o maior recuo: 24% para 10%.

James Zhang, analista de petróleo do Standard Bank, informou ontem que os preços do petróleo não deverão ser muito pressionados nas próximas semanas. A diferença principal entre os problemas atuais e os de 2008 parece ser o piso dos preços, que subiu, e a demanda internacional maior.

Menos petróleo
Devido a preocupações com a saúde das economias dos países desenvolvidos, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) revisou ligeiramente para baixo a previsão de demanda por petróleo este ano. O cartel estima que a demanda por petróleo será de cerca de 88,14 milhões de barris/dia, contra a previsão inicial de 88,18 milhões.

Link: https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/8/10/commodities-sao-a-maior-ameaca

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