Com os países ricos atolados em dívidas monstruosas e rombos fiscais e com os emergentes lutando contra a inflação, imprevisibilidade da economia aumenta

Sílvio Ribas

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

José Luiz Oreiro vê colapso do sistema financeiro se a Grécia der calote

O cenário confuso da economia mundial está derrubando velhos tabus e tornando previsões de analistas mais incertas do que costumam ser. Os ricos Estados Unidos, União Europeia e Japão atravessam dificuldades históricas para sair da estagnação, agravada pelas turbulências de 2008 e 2009 e pelo rescaldo de pesados deficits fiscais. Ao mesmo tempo, grandes emergentes, como China, Brasil e Índia, usufruem como nunca benesses da ascensão material enquanto sofrem as dores desse mesmo crescimento, representadas por inflação em alta e infraestrutura saturada.

O avanço dos emergentes, por sinal, levou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a um ato traduzido pelos especialistas como “puro recalque”. Preocupado em minimizar o declínio político dos sete países mais ricos e enquadrar as pretensões das economias em desenvolvimento, Obama reconheceu o crescimento de China, Brasil e Índia, mas ressaltou que os EUA e a Europa continuam tendo peso decisivo. “Dizem que essas nações representam o futuro e que o tempo de nossa liderança já passou. Esse raciocínio está errado. O tempo para a nossa liderança é agora”, disse.

Independentemente da posição norte-americana, nesse mundo chamado por Paul Krugman, Nobel de Economia, de “louco e misturado” todos os países vivem crescente apreensão quanto aos próximos capítulos da surpreendente rearrumação internacional. As tensões atuais desafiam estudiosos, empresários e governantes, que tentam antever desfechos de graves temas colocados na mesa, como o estouro do teto da dívida norte-americana (US$ 14,3 trilhões), a forte oscilação dos preços das commodities (produtos básicos cotados internacionalmente) e o duro ajuste fiscal a ser feito pela Zona do Euro.

A soma de todos esses medos é a desordem cambial, cujos sintomas já são percebidos na valorização de moedas de emergentes, sobretudo o real, complicando políticas domésticas de juros. Com as economias cada vez mais interdependentes, o pior prognóstico é de que distorções resultantes de crises passadas levem a outras ainda mais devastadoras. “Conforme o desdobramento do colapso financeiro da Grécia, assistiremos à quebradeira geral de bancos, com riscos maiores que os da década passada”, alerta o economista José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB).

Na sua opinião, as consequências de um eurodesastre sobre a frágil retomada dos EUA podem ser ainda piores para os emergentes. “O Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano) deve exagerar na impressão de dólares, fortalecendo mais outras moedas. Com isso, o Brasil e outros pagariam a conta do ajuste dos países ricos”, ressalta o professor da UnB.

Para ele, o passivo federal não é o maior problema dos EUA, pois só reflete o embate entre governo (democratas) e oposição (republicanos) em torno do Orçamento ou da possibilidade de elevar o teto de endividamento. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida bruta do governo dos EUA saltou de 62% do PIB em 2007 para 99,5% em 2011, devendo chegar a 112% em 2016. No Japão, essa relação já é de 210%.

Poderio militar

Barry Eichengreen, professor da Universidade de Berkeley (Califórnia), avalia que razões estruturais emperram a maior economia do planeta. A primeira é a persistente desvalorização dos imóveis. A geração de empregos também é insuficiente. Outros entraves são as altas cotações do petróleo e o recuo do gasto público. “O maior desafio é ampliar a arrecadação federal”, diz.

Antonio Corrêa de Lacerda, professor de Economia da PUC-SP, acrescenta que, além do dólar, a Casa Branca têm outras armas poderosas para preservar a hegemonia norte-americana ao fim da atual guerra cambial e comercial no mundo. “Os EUA têm a seu favor um especial dinamismo na área de inovação e poder militar”, ressalta. A China, por seu turno, não tem o peso econômico suficiente para contrabalançar as recaídas dos países desenvolvidos, dos quais é dependente. Exposta às pressões inflacionárias, precisou segurar a sua política expansionista de crédito.

Lacerda explica que os confrontos de interesses de países estão cada vez mais explícitos, sobretudo em relação ao câmbio. E movimentos da economia atual são, por si só, contraditórios, como o fato de a queda das cotações de commodities reduzir o superavit da balança comercial do Brasil, mas ajudar a conter a inflação. “O crescimento acelerado dos emergentes tem provocado mudanças na forma como a expansão econômica é distribuída entre os países. Estamos vivendo um mundo realmente multipolar”, analisa Justin Yifu Lin, economista-chefe do Banco Mundial (Bird). Relatório da instituição afirma que Brasil, China, Índia, Rússia, Indonésia e Coreia do Sul vão responder por metade do crescimento mundial até 2025.

Link: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/6/5/uma-onda-de-incerteza-enlouquece-o-mundo

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