Fenômeno, quando precoce, afeta o crescimento.

Desindustrialização no Brasil e suas causas

José Luis Oreiro, Cristiane Soares e Anderson Mutter
01/06/2011
 
Na literatura econômica o termo desindustrialização foi originalmente cunhado para denominar a perda relativa do emprego industrial nos países desenvolvidos verificada a partir da década de 1970. Mais recentemente, o conceito foi ampliado para indicar uma perda relativa tanto do emprego quanto do valor adicionado da indústria. 

Inicialmente, o processo de desindustrialização era visto como um fenômeno natural na dinâmica do desenvolvimento, pois à medida que os países aumentavam de forma consistente a sua renda per capita, a elasticidade renda da demanda por produtos industrializados se reduzia, o que levava a uma diminuição relativa da demanda por esses produtos. Além disso, o forte crescimento da produtividade no setor industrial, comparativamente aos demais setores, acarretaria uma queda nos preços relativos dos produtos manufaturados, levando assim a uma redução da participação do setor industrial no valor agregado e no emprego total. Atualmente, no entanto, sabe-se que a desindustrialização pode ser “precoce”, ou seja, pode se iniciar num patamar de renda per capita inferior ao registrado nos países desenvolvidos quando os mesmos iniciaram o seu processo de desindustrialização; além do que pode ser causada por falhas de mercado como a “doença holandesa”.

A desindustrialização, especialmente quando precoce, tem efeitos negativos sobre o potencial de crescimento dos países. Isso porque a indústria é o motor de crescimento de longo prazo dessas economias haja vista que é o setor em que prevalecem as economias estáticas e dinâmicas de escala, em que os efeitos de encadeamento para frente e para trás na cadeia produtiva são mais fortes, em que ocorre a recepção e difusão do progresso tecnológico e a elasticidade renda das exportações é mais elevada.

A análise da literatura brasileira recente sobre o tema da desindustrialização parece deixar pouca margem para a dúvida a respeito da ocorrência efetiva desse processo na economia Brasileira. Com efeito, uma vez aceita a definição ampliada de desindustrialização torna-se inquestionável que esse processo vem ocorrendo no Brasil, com maior ou menor intensidade, de forma linear ou não, desde o fim da década de 1980. O debate tem se concentrado mais sobre as causas desse processo e suas possíveis consequências sobre o crescimento de longo prazo, do que sobre a ocorrência histórica desse fenômeno.

Uma hipótese é que processo é similar ao ocorrido nos países desenvolvidos sendo, portanto, natural

Dessa forma, no debate brasileiro recente sobre o tema podemos identificar duas hipóteses em disputa. A primeira hipótese estabelece que o processo de desindustrialização no Brasil não é natural, mas resulta, em larga medida, da política macroeconômica adotada nos últimos 20 anos, a qual tem mantido uma taxa de câmbio sobrevalorizada, afetando negativamente as exportações de manufaturados e induzindo um processo de substituição de produção doméstica por importações. A segunda hipótese estabelece que o processo de desindustrialização brasileiro é similar ao ocorrido nos países desenvolvidos sendo, portanto, um processo natural e independente da gestão da política macroeconômica.

Os autores deste artigo realizaram recentemente um estudo sobre as causas do processo de desindustrialização da economia brasileira por intermédio de uma análise empírica dos determinantes desse processo no período compreendido entre 1996 e 2008. Para tanto, utilizamos a metodologia empregada por Rowthorn e Ramaswamy (1999) com o intuito de verificar se a perda relativa do emprego e do valor agregado na indústria pode ser explicada por fatores internos, como nos países desenvolvidos, ou por fatores externos como a globalização e a nova divisão internacional do trabalho. Algumas modificações foram introduzidas na metodologia em consideração para levar em conta, de um lado, a disponibilidade de estatísticas e, de outro, a influência de fatores como a apreciação cambial ao afetar direta e indiretamente o produto e emprego.

Com base na metodologia dos determinantes diretos e indiretos da desindustrialização, observamos algumas similaridades com os resultados obtidos por Rowthorn e Ramaswamy. Para eles, os fatores internos, representados pelo crescimento mais rápido da produtividade na indústria e, consequentemente, pela queda dos preços relativos, explicam em larga medida a redução do emprego no setor. No caso brasileiro, também se verificou uma relação positiva entre o crescimento do produto e o aumento da produtividade do trabalho na indústria. Além disso, verificamos que o crescimento da produtividade gerou uma queda expressiva dos preços relativos, contribuindo assim para a redução relativa do valor adicionado e do emprego da indústria.

Com relação aos efeitos das variáveis investimento e saldo comercial no produto e emprego relativos verificamos que ambas têm efeito positivo sobre as variáveis em consideração. Dessa forma, podemos afirmar que a queda da taxa de investimento e a deterioração do saldo da balança comercial a partir de meados da década de 1990 são causas importantes do processo de desindustrialização no Brasil, ambas relacionadas com a condução da política macroeconômica no período em questão.

Ao analisarmos os efeitos indiretos do câmbio sobre o saldo da balança comercial como proporção do PIB e a taxa de investimento, constatamos que, para a primeira variável, a relação é positiva e, para a segunda, negativa. Dessa forma, a tendência a sobrevalorização da taxa de câmbio observada no período 1996-2008 contribuiu para desestimular o investimento e, consequentemente, a participação relativa do emprego e do valor adicionado pelo setor industrial na economia brasileira. A partir dos valores encontrados das elasticidades do produto e de emprego relativos com respeito à taxa real de câmbio, podemos constatar, contudo, que a desvalorização cambial teria maior efeito sobre o produto do que sobre o emprego.

José Luis Oreiro é professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília. E-mail: joreiro@unb.br

Cristiane Soares é pós-graduanda em Economia da Universidade de Brasília. E-mail: csoares_rj@hotmail.com.

Anderson Mutter é professor do departamento de Economia da Universidade Federal de Goiás. E-mail: mutterteixeira@yahoo.com.br

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