CORREIO BRAZILIENSE (DF) • ECONOMIA • 6/3/2011 • PASTA ECONOMIA

Atividades que impulsionaram o maior crescimento da economia em 24 anos vão sofrer os efeitos das medidas tomadas pelo governo para esfriar o consumo e domar a inflação

Luciano Pires

No ano em que a economia brasileira crescerá pouco mais da metade do que em 2010, os setores responsáveis por movimentar o Produto Interno Bruto (PIB) avançarão, mas em marcha lenta e de forma bem menos intensa. Alvos principais do esfriamento provocado em boa parte pelo Banco Central, que baixou uma série de medidas anticonsumo e vem elevando a taxa básica de juros (Selic), as locomotivas da expansão desaceleram a olhos vistos. A mudança de cenário está no radar dos bancos, das consultorias e até do governo. Em janeiro e fevereiro, os primeiros sinais de desaquecimento ficaram claros na perda de apetite das famílias por consumir, no recuo dos gastos públicos — com direito a corte orçamentário recorde de R$ 50 bilhões — e nas baixas performances da indústria e do setor de serviços, que insistem em patinar em 2011. Apesar de todo otimismo que ronda as projeções de emprego e de renda, nem mesmo novos saltos no número de carteiras assinadas e o esperado aumento da massa salarial ao longo do ano serão capazes de reverter as expectativas.
À custa de crédito barato e de longos prazos de financiamento, os brasileiros gastaram 7% mais em 2010 do que em 2009 (R$ 2,2 trilhões no total). Itens como automóveis, eletrodomésticos e eletrônicos puxaram o novelo e, em 2011, tendem a continuar liderando as preferências. O consumo das famílias, no entanto, dará um salto mais tímido do que no ano passado: 4,6%. Baque semelhante ao verificado nas compras em geral atingirá as fábricas, que, nos últimos dois meses, praticamente estagnaram: o resultado da produção industrial em 2010, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi de 10,1% e, neste ano, despencará para 3,7%, segundo previsões de mercado. Já os serviços, que galoparam 5,4%, deverão avançar 4%.
José Luís Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a desaceleração será percebida de modo mais significativo a partir do segundo semestre. “A demanda vai desaquecer bastante. Acho que o PIB vai ficar mais para 4% do que para 4,5%”, prevê. O ciclo de elevação da Selic, comprometendo a expansão do investimento e pressionando a taxa de câmbio, produzirá outro efeito colateral sobre o crescimento, adverte Oreiro. “Teremos uma contribuição ainda negativa do setor externo. O fato de a indústria não arrancar é um sinal claro de que há substituição de produção doméstica por importação.”
A reboque
Apesar do resultado histórico de 7,5% na expansão do PIB em 2010, o maior em 24 anos, as compras externas cresceram muito mais do que as vendas em 2010 e isso “roubou” uma parcela importante do desempenho. Para muitos analistas, o fenômeno é sinônimo de desindustrialização e de pouca competitividade frente ao produto importado. Neste ano, quando a previsão é ver o PIB saltar 3,9%, segundo estimativas de mercado, ou 4,5%, conforme apostas do governo, as fábricas continuarão a reboque do consumo e dos serviços, o que, a longo prazo, não é bom para nenhuma economia.
Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), não há riscos de recessão e de desarticulação da atividade, mas as indústrias estão perdendo “grandes oportunidades” abertas pelo fabuloso crescimento da economia brasileira. Pior para os setores automotivo, de máquinas e equipamentos e da construção civil. As estrelas do PIB vão ao alto neste ano em produção e faturamento, mas, não fosse o freio no crédito, poderiam ir bem mais além. “Vamos ter de nos acostumar com um ritmo mais morno. Os melhores resultados serão vistos nos serviços e no consumo, mas nada parecido com o que houve em 2010”, diz Armando Castelar, do Instituto Brasileiro de economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Entre os economistas, o consenso é que 2010 foi um “ponto fora da curva”, patrocinado por políticas monetária e fiscal expansionistas que não vão se repetir. “Esses dois elementos também terão impacto nos resultados de 2011. A base maior de comparação deverá afetar principalmente a indústria no primeiro semestre. Isso fará com que os números do setor sejam bastante fracos nos próximos trimestres. Mas, novamente, o ponto central será a política”, resume Sérgio Vale, economista-chefe da MB CORREIO BRAZILIENSE (DF) • ECONOMIA • 6/3/2011 • PASTA ECONOMIA

Atividades que impulsionaram o maior crescimento da economia em 24 anos vão sofrer os efeitos das medidas tomadas pelo governo para esfriar o consumo e domar a inflação

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