Banco Central deve anunciar altas na taxa básica da economia nesta terça

 

Gabriel Caprioli

Publicação: 19/01/2011 08:25 Atualização:

O Banco Central anunciará hoje, ao fim da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o primeiro arrocho do governo Dilma Rousseff. No mínimo, o aumento deverá ficar em 0,5 ponto percentual — visão da maioria dos analistas —, o que elevaria a taxa básica (Selic) atual de 10,75% para 11,25% ao ano. A missão do BC, agora sob o comando de Alexandre Tombini, é domar a inflação que corrói o bolso do brasileiro — o índice oficial terminou 2010 perto dos 6%. A decisão sobre a necessidade de um aperto monetário foi premeditada pela instituição em dezembro, em seu relatório de inflação.

Ciente disso, o mercado não espera surpresas, mas ainda diverge sobre o tamanho da primeira alta de juros.

A média das instituições consultadas semanalmente pelo BC apontava, até sexta-feira, que o avanço que será anunciado hoje para a Selic será de 0,5 ponto percentual, retirando a taxa do patamar no qual está estacionada (10,75%) há seis meses. Alguns analistas, entretanto, ressaltam que o Copom poderia optar por uma decisão mais drástica — alta de 0,75 ponto percentual — nas próximas quatro reuniões. “Acredito que o ajuste total deve ficar entre 2 e 3 pontos percentuais. A incógnita, no entanto, é a velocidade em que isso será feito. Se escolher chegar aos 13,75% rapidamente, o BC precisará começar com 0,75 ponto percentual amanhã (hoje) mesmo”, opinou o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro.

Ajuste diário
O mais provável, entretanto, é que o colegiado adote uma estratégia gradualista. “Nesse caso, se começar com o ciclo (de ajuste monetário) com 0,5 ponto percentual, o Copom deve observar a inflação e, dependendo de sua evolução, reduzir o ritmo de aperto nas próximas reuniões ou até mesmo interrompê-lo”, acrescentou.

Para o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio e ex-diretor do BC, Carlos Thadeu de Freitas, a autoridade monetária sinalizou a disposição em fazer um ajuste rápido na taxa de juros quando realizou as operações derivativas conhecidas como swap cambial reverso (negociações no mercado futuro nas quais o mercado aposta no aumento de juros enquanto o BC estima a alta do dólar). As taxas utilizadas nesses contratos têm ajuste diário e, quanto maior a incerteza em torno da alta da Selic, mais os investidores especulam de forma a elevar essas cotações e a trazer prejuízos ao BC. “Se ele fez essa operação, espera que os juros lá na frente diminuam e uma forma dele reduzir essa pressão é justamente fazendo um ciclo rápido de aumento na Selic. Para mim, a reunião do Copom começou no swap cambial reverso”, explicou.

Um ciclo monetário mais forte seria capaz de trazer a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta, de 4,5% ao ano, mais rapidamente. Essa, no entanto, não deve ser a preocupação central do BC, na visão de Oreiro. “O mais importante é ele (BC) mostrar que não está omisso em relação à aceleração de preços e que tomará as medidas necessárias, porém em um horizonte de tempo maior.” A sinalização de que a instituição está de olho nos rumos da inflação poderia estabilizar as expectativas para o IPCA em 2011. Até sexta-feira passada, elas estavam em 5,42%, bem acima do centro da meta.

Dois dias de debate
O encontro periódico que define quanto de juros os consumidores e as empresas brasileiras pagam por empréstimos e financiamentos é marcado por trocas de olhares, extensas apresentações técnicas e debates acalorados sobre macroeconomia. Seis diretores e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, iniciaram ontem uma jornada que termina hoje, com a definição da taxa Selic — atualmente em 10,75% ao ano —, que vai vigorar pelos próximos 45 dias e influenciará decisões de investimento e de consumo.

O Comitê de Política Monetária (Copom) foi criado em junho de 1996 para definir, principalmente, os juros básicos. O ritual foi inspirado no que já ocorria no Federal Open Market Committee (Fomc), ligado ao Banco Central norte-americano (Fed). As reuniões, sempre realizadas em duas etapas (uma na terça-feira e outra na quarta-feira), são conduzidas a portas fechadas e cercadas de sigilo — fator fundamental para evitar ruídos com o mercado. Poucas vezes foi permitido que veículos de comunicação captassem até mesmo imagens do encontro. Ontem, no entanto, a reunião foi aberta a repórteres fotográficos.

A primeira parte da reunião do primeiro dia, iniciada normalmente por volta das 16h, começa com a exposição técnica conhecida como “reunião de mercado”, na qual representantes do Departamento de Operações Bancárias e Sistemas de Pagamentos (Deban) e do Departamento de Operações de Reservas Internacionais (Depin) fazem uma exposição das condições gerais do mercado e do sistema financeiro.

Nessa etapa do encontro, além dos diretores de Política Monetária, Política Econômica, Assuntos Internacionais, Normas e Organização do Sistema Financeiro, Fiscalização, Liquidações e Administração e do presidente do Banco Central, que ocupam a mesa principal, também participam os chefes de departamento da instituição — Departamento Econômico (Depec), Departamento de Operações das Reservas Internacionais (Depin), Departamento de Operações Bancárias e de Sistema de Pagamentos (Deban), Departamento de Operações do Mercado Aberto (Demab), Departamento de Estudos e Pesquisas (Depep). A função desses técnicos é apresentar argumentos que baseiam os votos dos diretores.

Ritual
O primeiro dia também é aberto ao gerente executivo de Relacionamento com Investidores, responsável diretamente pela comunicação entre o Banco Central e os agentes de mercado. A etapa que ocorre na terça-feira é subdivida entre a reunião de mercado e o que internamente se conhece como a “primeira parte do Copom”, que é um segundo momento, no qual os próprios diretores fazem apresentações referentes às suas áreas de competência.

Nesse momento, o diretor Carlos Hamilton de Araújo (Política Econômica) é o que tem prioridade, uma vez que, além da apresentação do cenário macroeconômico, também é de responsabilidade da sua diretoria a formulação e apresentação dos modelos econométricos que são utilizados para acompanhar os níveis de atividade e inflação. Os outros diretores e o próprio presidente podem intervir durante sua apresentação e questioná-lo sobre temas específicos.

As decisões divulgadas nas quartas-feiras começam a ser desenhadas no mesmo dia, no qual participam apenas os diretores, o presidente e o chefe do Depep.

O momento mais importante da segunda etapa da reunião é quando os diretores fazem as apresentações que justificam o seu voto e o concluem, definindo os rumos da taxa básica de juros. Durante as explanações, os demais presentes podem interpelar o palestrante. Todos votam, incluindo o presidente. Em caso de empate, Tombini define qual será o resultado.

A reunião é encerrada com a divulgação simultânea da nova taxa básica (ou a manutenção dela) para a imprensa e para o mercado por meio do Sistema do Banco Central (Sisbacen). O primeiro comunicado, disparado no término da reunião, antecede a ata do Copom, publicada sempre na quinta-feira da semana posterior com a justificativa técnica detalhada da decisão do colegiado. (GC)

Missão
Formalmente, os objetivos do Copom são “implementar a política monetária, definir a meta da Taxa Selic e seu eventual viés (de alta ou baixa), e analisar o Relatório de Inflação (publicado trimestralmente).” A taxa fixada é a meta para a Selic, que vigora por todo o período entre reuniões ordinárias do comitê. O Copom pode definir o viés, que é a prerrogativa dada ao presidente do Banco Central para alterar, na direção do viés, a meta da Selic a qualquer momento entre as reuniões ordinárias

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