No próximo ano, Dilma assumirá o desafio de estimular o setor privado


Vicente Nunes

Luciano Pires

Publicação: 26/12/2010 08:15 Atualização: 26/12/2010 09:35

Na próxima semana, quando subir a rampa do Palácio Planalto, sustentada por 56 milhões de votos, a presidente Dilma Rousseff carregará sobre os ombros um enorme desafio — e sem o direito de errar. A partir de 2011 e pelos próximos 20 anos, o Brasil experimentará algumas das mais promissoras coincidências, que — bem combinadas — poderão alçá-lo ao seleto grupo dos países mais ricos e industrializados do mundo. No campo populacional, a massa de pessoas em idade produtiva, de 15 a 64 anos, superará a de dependentes (crianças e idosos), configurando o que os especialistas chamam de bônus demográfico. Neste período, o Brasil terá que construir riqueza suficiente para zerar a maior parte dos passivos que ainda o condenam ao atraso. Com Dilma no timão, o país decidirá se continuará na segunda divisão ou integrará a elite. Cada ano perdido aumentará as chances de derrota.

Os desafios para tirar proveito de seu auge produtivo — processo vivido pelos Estados Unidos no pós-guerra — são enormes. Eles não passam, porém, pelo aumento do tamanho do Estado. Muito pelo contrário. A máquina do crescimento será o setor privado, esse, sim, o motor da prosperidade. Os mais de 4 milhões de empresas — micros, pequenas, médias e grandes — empregam 33 milhões de brasileiros, quatro vezes mais do que o setor público, incluindo as estatais. São os empreendedores que geram R$ 2 de cada R$ 3 das riquezas produzidas no país. “Foram necessárias quase duas décadas de estabilização da economia, para que o Brasil realmente pudesse usufruir de todo o seu potencial”, afirma Cláudio Porto, presidente da Consultoria Macroplan.

Na área econômica, as perspectivas de crescimento são as melhores possíveis e as fronteiras estão escancaradas para uma enxurrada de investimentos públicos — esses, vitais —, privados e estrangeiros. Do ponto de vista político, a estabilidade democrática pavimenta o terreno para que decisões governamentais olhem para o horizonte e não para os pés. Com o relógio correndo a nosso favor, o Estado não poderá fugir da obrigação de criar um ambiente favorável aos empreendedores. Desde 2004, enquanto mais de mil reformas para incentivar a produção foram feitas nos países emergentes, com os quais o Brasil disputa recursos e mercados, aqui a burocracia continua infernal. Seu custo é quase quatro vezes maior do que a média internacional.

 

Para piorar, a legislação é confusa. São quase 180 mil leis, decretos e medidas provisórias que, muitas vezes, não conversam entre si. Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), 46 normas tributárias são editadas por dia no Brasil. Do total de 249 mil normativos baixados pela Receita Federal desde 1988, quando foi editada a atual Constituição do país, 18,4 mil ainda estão em vigor. A confusão é tanta que muitas companhias são obrigadas a destinar pelo menos 10% de seu quadro de pessoal para cuidar de papéis — mão de obra que poderia estar produzindo. “Esse é o país do atraso, que deve ser limado do mapa. Não é possível olhar para o futuro, projetar o país como a quinta maior economia do mundo e imaginar esse quadro perdurando”, diz o economista Felipe França, do Banco ABC Brasil.

Contagem regressiva
Portanto, aproveitar a janela de oportunidades que está escancarada é o que determinará a sorte ou o azar das próximas gerações. Foi assim no caso de países europeus, dos EUA e do Japão, que atravessaram períodos semelhantes e, sabidamente, lançaram mão de medidas baseadas na abertura comercial, no estímulo ao capital privado e na geração de emprego. Tudo com os dois olhos focados no incremento da infraestrutura — conforme lição seguida à risca nos dias de hoje pela China. Desperdiçar momento histórico tão especial será um erro imperdoável.

“Para continuar crescendo e alcançar níveis semelhantes aos de países ricos, o Brasil não pode errar em áreas como formação de mão de obra, investimento em infraestrutura e eficiência tributária (a carga de impostos já consome quase 37% de todas as riquezas produzidas por ano no país)”, alerta Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Em 2022, no auge do bônus demográfico, a pirâmide populacional será formada por uma massa de 156 milhões de cidadãos maduros e aptos a trabalhar — e com uma louca vontade de consumir. O aumento da renda e do emprego levará a uma demanda impressionante por lazer e turismo, por produtos de higiene, limpeza, beleza e alta tecnologia, como mostrará uma série de reportagens que serão publicadas a partir de hoje pelo Correio. O setor da construção civil terá de atender a 1,7 milhão de casais que se formarão por ano nas próximas décadas. Ciente de que o Estado não poderá suprir todas as suas necessidades, os cidadãos buscarão o sistema privado de educação e planos complementares de aposentadoria, fundamentais devido ao aumento da idade média dos brasileiros, dos atuais 29 para 38 anos. Todos esses segmentos tenderão a crescer o dobro do Produto Interno Bruto (PIB), cuja expansão deve variar entre 4,5% e 5% ao ano.

Os obstáculos, contudo, são muitos. Desafiando o discurso desenvolvimentista encampado pelo governo Dilma Rousseff, estão os gastos públicos elevados e as ineficientes políticas de formação de pessoal. Em curto prazo, a inflação, os juros altos e o real supervalorizado despontam como ameaças. Ou seja, todos os avanços sociais conquistados nos últimos tempos, que tiraram mais de 20 milhões de pessoas da miséria e engrossaram a classe média em 30 milhões de habitantes ainda mostram um futuro melhor construído pela metade. “Para avançar, é preciso melhorar a gestão dos gastos públicos. Com isso, será possível manter a inflação sob controle e tirar do Brasil o título nada agradável de campeão mundial dos juros altos”, ressalta Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A seu ver, também as reformas estruturais tão discutidas e tão relegadas terão de entrar no mapa das realizações. “Não podemos acreditar, por exemplo, que, sem a modernização do sistema trabalhista, vamos alcançar os resultados que queremos”, diz Skaf. Ao Brasil, que hoje detém 3% do PIB do mundo, caberá uma fatia de 4% em 2050 se pouca coisa for feita, e de 6%, na melhor das hipóteses, se os projetos e reformas que estão no papel emergirem. O ingresso no clube dos ricos depende de quanto o país está disposto a gastar em áreas estratégicas.

No entender de José Luís Oreiro, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), o Brasil de 2020, 2030 e 2040 depende das escolhas que forem feitas ao longo dos próximos quatro anos — no governo Dilma. “Queremos ser uma economia industrial dinâmica, caminhando para um setor de serviços intensivo em tecnologia, ou uma economia primária exportadora?”, indaga. Adotando um tom otimista, mas cauteloso, Oreiro diz que existe o risco não desprezível de o país se tornar grande exportador de petróleo, soja e minério de ferro, com um setor de serviços vinculado e de baixa tecnologia, importando muito e financiando-se com as receitas do pré-sal. Mas esse não é o futuro que a maioria deseja. Sendo assim, mãos à obra. A contagem regressiva começou.

Habitantes por faixa etária

Idade – 2010 – 2022 *

0-5 – 18.692.240 – 15.117.882
6-12 – 24.066.846 – 19.010.465
13-18 – 19.795.674 – 19.070.241
19-25 – 24.116.789 – 23.835.572
26-35 – 32.493.149 – 32.935.494
36-45 – 26.916.126 – 32.956.072
46-55 – 21.679.636 – 26.300.278
56-65 – 13.318.213 – 21.084.517
66-75 – 7.711.672 – 12.042.601
mais de 75 – 4.462.259 – 7.027.209

(*) Estimativa

Total – 193.252.604 – 209.380.311

Fonte: IBGE.

Tags: celular

 

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