Brasil adota políticas tímidas diante da guerra cambial internacional e mantém relação política e econômica equivocadas com a China, aponta o economista José Luis Oreiro. Segundo ele, a guerra cambial pode causar desindustrialização e um déficit em conta-corrente da ordem de 7% do PIB, em 2014

Por: Patrícia Fachin

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“Essa ‘guerra cambial’ é uma repercussão da crise de 2008”, menciona José Luis Oreiro, à IHU On-Line. Em entrevista concedida por telefone, ele explica que o desaceleramento e a lenta recuperação da economia norte-americana são os fatores responsáveis pela desvalorização do dólar, que vem atrapalhando a competitividade de outras economias.

Na avaliação de Oreiro, três grupos fazem parte da guerra mundial: “EUA tenta desvalorizar o dólar frente às demais moedas, visando aumentar a competitividade das exportações americanas para, com isso, tentar sair da crise por intermédio de um aumento da demanda externa de seus produtos. Um segundo grupo de países: China, Suíça, Tailândia e outros tentam se defender dessa política norte-americana, adotando medidas no sentido de impedir ou reduzir a valorização de suas moedas frente ao dólar; e um terceiro grupo, incluindo os países da América Latina – inclusive o Brasil – e países africanos, têm sido passivos frente à desvalorização do dólar”.

Para o economista, o Brasil deve adotar políticas radicais diante dessa conjuntura e desvalorizar a moeda nacional “para voltar a uma situação de mais competitividade da economia brasileira”. Entre as medidas, propõe o controle na entrada de todos os capitais estrangeiros e a redução das taxas de juros. “O Brasil não pode, neste contexto internacional, ter uma taxa de juros que é até oito vezes maior do que o é que prevalecente no restante do mundo”.

José Luis Oreiro é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, possui mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia também pela UFRJ. Atualmente é professor nos cursos de graduação e pós-graduação em economia da FACE/UNB. Organizou Agenda Brasil: políticas econômicas para o crescimento com estabilidade de preços (São Paulo: Monole, 2003) e Sistema financeiro: uma análise do setor bancário brasileiro (Rio de Janeiro: Campus, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode explicar o que é e o que significa a “guerra cambial”? Como países emergentes e desenvolvidos estão se comportando?

José Luis Oreiro – Essa “guerra cambial” é uma repercussão da crise de 2008. Os EUA, no ano passado, estavam apresentando uma trajetória bastante razoável de recuperação da crise. Aparentemente, a economia americana, entre os países desenvolvidos, seria a primeira a sair da recessão e teria, no ano de 2010, uma trajetória de crescimento razoável. O problema é que essas expectativas se frustraram e, este ano, o ritmo de crescimento da economia americana está desacelerando. Esperava-se que ela fechasse o ano com um crescimento de 4%, mas é provável que feche com um crescimento de 1,3%, basicamente por conta da contribuição negativa do setor externo. O fato é que o déficit comercial americano continua aumentando e isso tem reduzido a demanda por produtos norte-americanos e atrapalhado a velocidade de recuperação da economia.
Em função desse cenário de recuperação lenta da economia dos EUA, o Federal Reserve System – FED teve que continuar a política de relaxamento quantitativo. Essa é uma política na qual o Banco Central dos EUA adquire títulos públicos e privados por intermédio da emissão de moeda; é uma política monetária não-convencional. A política monetária convencional consiste em utilizar as chamadas operações de mercado aberto, em que se reduz a taxa de juros com o objetivo de estimular a economia. O problema é que a taxa de juros básica da economia americana se encontra no seu mínimo, próxima de 0%; não é possível reduzi-la ainda mais. Então, o FED está imprimindo dinheiro para comprar títulos públicos e privados.

O que está acontecendo nos EUA, nos últimos meses, é um aumento gigantesco da quantidade de moeda em circulação. Esse dólar não é absorvido pelos bancos porque eles estão emprestando dinheiro; os bancos norte-americanos têm bastante reserva, ou seja, estão “sentados” numa montanha de liquidez. Esse dinheiro não tem aplicação rentável dentro dos EUA e sai para outras partes do mundo na busca de maior rentabilidade.

É aí que começa a guerra cambial: alguns países como China, Suíça, Tailândia têm adotado medidas fortes no sentido de impedir a valorização de suas moedas frente ao dólar porque esses países sabem que, caso as suas moedas se valorizarem, eles perderão competitividade nas exportações e, portanto, o desemprego americano será exportado para seus próprios países. A Suíça tem comprado bastante reservas; a China tem mantido a sua moeda atrelada à moeda americana. Os países estão tentando se defender da valorização do dólar frente às  suas moedas. Outro grupo de países, entre os quais se inclui o Brasil, têm aplicado medidas tímidas. Eles têm arcado com o custo de uma valorização maior frente ao dólar.

Resumindo, a situação é a seguinte: EUA tenta desvalorizar o dólar frente às demais moedas, visando aumentar a competitividade das exportações americanas e, com isso, tentar sair da crise por intermédio de um aumento da demanda externa de seus produtos. Um segundo grupo de países: China, Suíça, Tailândia e outros tentam se defender dessa política norte-americana, adotando medidas no sentido de impedir ou reduzir a valorização de suas moedas frente ao dólar; e um terceiro grupo de países, incluindo os da América Latina, Brasil, e países africanos, têm sido passivos frente à desvalorização do dólar.
IHU On-Line – Como o Brasil deve se posicionar diante desta guerra cambial?

José Luis Oreiro – O Brasil tem de se posicionar de uma forma muito agressiva. O governo brasileiro tem optado por uma estratégia gradualista: primeiro aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras – IOF de 2 para 4%, nas operações de renda física, depois elevou novamente. A estratégia brasileira tem sido de “tatear no escuro”, ou seja, aumentar gradualmente os controles de capitais para ver em que ponto se consegue deter a valorização do real frente ao dólar. Essa medida é equivocada por uma série de motivos. Em primeiro lugar porque não se trata apenas, no caso brasileiro, de acabar com a valorização do real frente ao dólar; precisa fazer uma desvalorização do real. Alguns estudos, entre os quais o que eu fiz com a professora Eliane Araujo , cujos resultados publicamos no jornal Valor Econômico, em 18-10-2010, mostra que o real encontra-se sobrevalorizado em 20% com respeito a outras moedas. A questão não é simplesmente impedir novas valorizações do real, mas desvalorizá-lo para voltar a uma situação de mais competitividade da economia brasileira e, portanto, de mais tranquilidade do ponto de vista das contas externas. 

Há uma segunda razão pela qual penso que essa estratégia é equivocada: os controles de capitais são importantes, mas quando se tem diferencial de juros grande, tal como ocorre no Brasil hoje, ou seja, taxa de juro básica brasileira a 10,65% ao ano – nos países desenvolvidos ela é menos de 2% -, o incentivo que se cria para os investidores internacionais burlarem os controles de capitais é gigantesco. A legislação brasileira ainda permite isso. Por exemplo, embora o ministro Mantega tenha aumentado o IOF sob as aplicações de renda fixa, não aumentou o imposto para as aplicações de renda variável. Isso é um erro porque o sistema financeiro pode descobrir formas criativas de disfarçar aplicações em renda fixa como se fossem aplicações da bolsa de valores.

Por isso, o governo deve, rapidamente, instituir um controle de capitais abrangente e simplificado, ou seja, o mesmo tipo de controle para toda e qualquer entrada de capitais na economia brasileira. A segunda medida absolutamente necessária é reduzir o diferencial de taxas de juros, isto é, o Brasil não pode, neste contexto internacional, ter uma taxa de juros que é até oito vezes maior do que a média prevalecente no restante do mundo.

HU On-Line – Então é possível controlar o câmbio?

José Luis Oreiro – É possível controlar o câmbio, mas é necessário fazer mudanças significativas: política de controle de capitais, de juros e na política fiscal para que se possa operacionalizar o fundo soberano. A política de atuação de reservas é cara porque nossa taxa de juros é mais alta do que a taxa de juros que prevalece no resto do mundo. Então, para que o fundo soberano possa comprar reservas sem comprometer a solvência das contas do governo, é necessário aprofundar o ajuste fiscal para sinalizar claramente que a política de intervenção na taxa de câmbio é sustentável.

IHU On-Line – Quais as implicações, para a economia brasileira, da valorização e da desvalorização da moeda chinesa? Para o Brasil é mais vantajoso o yuan valorizado ou desvalorizado?

José Luis Oreiro – Para a economia brasileira seria melhor se a moeda chinesa estivesse valorizada. O Brasil já está perdendo muitos mercados no exterior para a China, além do que, o mercado interno nacional está sendo invadido – há algum tempo – por produtos chineses.

Se observarmos a atitude recente do governo chinês, não podemos esperar que medidas de valorização cambial sejam feitas de forma voluntária.
Apoiar a desvalorização da moeda chinesa é o mesmo que dar um tiro no pé. Seria bom para o Brasil que a China valorizasse a sua moeda em relação ao dólar, porque isso implicaria em uma valorização do yuan frente ao real e, com isso, aumentaria a competitividade das exportações brasileiras frente à China.

IHU On-Line – Brasil e China articulam a possibilidade de desenvolver um sistema de câmbio direto entre real e yuan, sem passar pelas cotações do dólar e do euro. É vantajoso para o Brasil?

José Luis Oreiro – Essa é uma maneira de economizar custos de transação, ou seja, custos no uso de moeda norte-americana. Sinceramente, não vejo nenhum ganho significativo para o Brasil porque a valorização do real frente ao dólar não se deve a razões de balança comercial. Pelo contrário, os dados da balança comercial brasileira estão se deteriorando rapidamente. A valorização do real frente ao dólar e outras moedas deve-se ao fato de que está entrando muito dinheiro no Brasil. Então, esse tipo de mudança de tecnologia de transação não ajuda o problema cambial brasileiro.

IHU On-Line – Como avalia a relação cambial e o alinhamento político entre Brasil e China?

José Luis Oreiro – O Brasil cometeu uma série de erros no passado com respeito à China. Um deles foi ter reconhecido o país como economia de mercado. Se isso não tivesse acontecido, hoje o Brasil poderia utilizar uma série de instrumentos, entre os quais, taxas comerciais para reduzir a importação de produtos chineses, dado que, obviamente, a China está manipulando o câmbio no sentido de produzir um câmbio subvalorizado. A política brasileira em relação à China tem sido essencialmente errada.

IHU On-Line – Quais as implicações da guerra cambial para os trabalhadores e para programas sociais brasileiros?

José Luis Oreiro – A repercussão a curto prazo é favorável porque eles irão constatar aumento salarial e os produtos importados ficarão mais baratos e acessíveis. A médio e longo prazos, a repercussão é negativa porque, caso continue esse processo de valorização do real frente às diversas moedas, em particular ao dólar e o yuan, se terá um movimento crescente de desindustrialização, com isso, um aumento do desemprego no estrato de trabalhadores mais qualificados e uma redução de salários.

Programas sociais

O efeito sobre os programas sociais é incerto porque a receita do pré-sal deve entrar em 2013 ou 2014. Então, com essa receita é possível que o governo compense a perda de arrecadação com a desindustrialização. Realmente estou preocupado com os efeitos disso sobre a indústria e, particularmente, sobre a geração de emprego de boa qualidade.
IHU On-Line – Há risco de desindustrialização?

José Luis Oreiro – Com certeza. Essa é a grande implicação negativa que a guerra cambial tem para o Brasil, sem contar o efeito sobre o saldo em conta-corrente no balanço de pagamentos. As projeções que fiz com a professora Eliane Araujo mostram que o Brasil pode chegar a um déficit em conta-corrente da ordem de 7% do PIB, em 2014. Um déficit desse tamanho não é financiável e implica em uma crise de balanço de pagamentos por volta da metade do mandato do próximo presidente da República.

IHU On-Line – Serra tem anunciado em sua campanha eleitoral que irá aumentar o salário mínimo para R$ 600,00 caso seja eleito. Na atual conjuntura, é possível fazer esse reajuste?

José Luis Oreiro – É possível ter um aumento do salário mínimo para R$ 600,00 desde que se tenha uma elevação correspondente de impostos. Vale lembrar que, em 2008, a CPMF foi extinta e esse é um imposto que gera uma arrecadação de 40 bilhões de reais por ano. Então, vejo como possível ter o aumento do salário mínimo se tiver a reintrodução da CPMF. Não vejo como irresponsabilidade o anúncio feito pelo candidato José Serra. É obvio que também terão de ser reduzidos gastos em outras áreas como a racionalização do gasto público, redução dos ministérios.

IHU On-Line – O que diferencia a política econômica de Serra e Dilma, especialmente no que se refere à política cambial?

José Luis Oreiro – O discurso da Dilma é a continuação do atual modelo de política macroeconômica, o qual foi herdado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ou seja, o tripé superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante.

A política econômica anunciada por José Serra é uma reforma desse tripé, a qual consiste em um aumento do peso da política fiscal no sentido de que se teria um aumento da meta de superávit primário, mas, ao mesmo tempo em que se reforçaria a parte fiscal, se aumentaria o grau de intervenção do governo na flutuação da taxa de câmbio com o objetivo de ter um câmbio mais competitivo a médio e longo prazos. Além disso, flexibilizaria o regime de metas de inflação, por exemplo, alongando o prazo de convergência da meta, fazendo uma maior coordenação entre a política fiscal e a política monetária. Enfim, será um tripé com uma ênfase maior no lado fiscal, o que dá ao governo um grau de liberdade maior para mexer com os juros e o câmbio.

IHU On-Line – É interessante adotar um regime de câmbio flutuante ou seria preferível ter um câmbio fixo?

José Luis Oreiro – O modelo do regime não é tão importante; a questão é saber se o câmbio está alinhado ou desalinhado. No momento atual, o câmbio está desalinhado, com uma forte sobrevalorização. Então, gostaria que o próximo governo alinhasse o câmbio, ou seja, valorização entre 20 a 30% da taxa cambial; isso é fundamental. Óbvio que para fazer isso é preciso um regime mais administrado da taxa cambial do que se tem hoje. Ou seja, se perde grau de liberdade em termos de flutuação. Não acredito que Serra adotará um regime de câmbio fixo, mas, certamente, será um regime com mais intervenção do governo.

IHU On-Line – Dependendo do resultado das eleições, como será conduzida a política externa brasileira?

José Luis Oreiro – Se Dilma for eleita, a política externa continuará sendo conduzida do jeito que é hoje, com alinhamento ideológico, feito por considerações como, por exemplo, ser contra os interesses imperialistas norte-americanos. Vejo com maus olhos a aproximação do governo brasileiro com os governos de Cuba, Irã e Venezuela.
Se José Serra for eleito, a política externa brasileira voltará a ser conduzida de acordo com os interesses brasileiros, o que significa dizer que, quando for de interesse brasileiro ser contra os EUA, nós seremos; quando for de interesse brasileiro ser a favor dos norte-americanos, nós seremos. Porque política externa tem de ser conduzida com base em interesses e não em considerações ideológicas, como tem sido feito nos últimos oito anos.
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Leia Mais…

>> José Luis Oreiro já concedeu entrevistas para a IHU On-Line. O material está disponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br).

• A atual política cambial é absolutamente perversa quanto ao PIB. Entrevista publicada na edição 338, de 09-08-2010, intitulada Economia brasileira. Desafios e perspectivas

• Projeto Ômega e desindustrialização, publicada em 12-7-2010, nas Notícias do Dia

• Crise econômico-financeira. Projeções para 2009. Entrevista publicada em 19-11-2008, nas Notícias do Dia

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