País cresce e padrão de vida evolui pouco

 

Gabriel Caprioli

Publicação: 18/10/2010 08:07 Atualização: 18/10/2010 09:37

Para Oreiro, desenvolvimento de 7% por muito tempo é sonho - (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)  
Para Oreiro, desenvolvimento de 7% por muito tempo é sonho

No último ano de sua gestão, a equipe econômica do governo Lula comemora a superação da crise financeira global e a expectativa de um crescimento sem precedentes nos últimos 25 anos. O nível de desenvolvimento, porém, ainda está muito aquém do encontrado em nações avançadas e, para deixar definitivamente a condição de país emergente, é necessário acelerar o ritmo sob pena de levar até 75 anos para o brasileiro ter o mesmo padrão desfrutado hoje pelos norte-americanos.

Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) médio na última década foi de 2,3%. Com essa taxa, o Brasil chegará aos US$ 46 mil equivalentes ao PIB per capita dos Estados Unidos apenas em 2085. Se o país cumprir nos próximos anos o que os economistas chamam de PIB potencial – nível em que a expansão é sustentável, entre 4% e 4,5% no caso do Brasil – esse prazo cai para 54 anos e, mantido o fôlego de 7,2% previsto e documentado na quarta revisão do orçamento deste ano, alcança-se a atual condição norte-americana em 30 anos.

A receita para encurtar esse caminho, garantem especialistas, começa com a resolução de questões mais imediatas, como a ampliação da taxa de investimento e a necessidade de diminuir o volume de recursos destinados aos gastos públicos, mas também inclui reformas estruturais no sistema previdenciário, desenvolvimento de tecnologia nacional e mudanças na oferta de educação básica.

“Manter uma taxa de 7% por vários anos, do jeito que estamos hoje, é sonho. No máximo conseguiremos sustentar um pouco mais de 4%”, dispara José Luis Oreiro, professor do Departamento Econômico da Universidade de Brasília (UNB). Para ele, a condição mínima para ampliar a capacidade de produção do país é aumentar em pelo menos cinco pontos percentuais a taxa de investimento, dos atuais 18%, para 23% do PIB. O salto, no entanto, só será possível com o saneamento das contas públicas. “É preciso mudar o perfil das despesas. Quando você destina menos dinheiro aos gastos da máquina e mais aos investimentos, os gargalos de infraestrutura são resolvidos naturalmente”, analisa.

Os investimentos totais do governo somaram R$ 28 bilhões nos primeiros oito meses do ano, conforme divulgou o Tesouro Nacional. O valor é 62% superior ao registrado no mesmo período de 2009, mas ainda representa menos de 2% do PIB.

Obstáculos à frente
A economista-chefe da corretora Icap Brasil, Inês Filipa, também lista a melhoria da infraestrutura como premissa para turbinar os motores do país. Inclui ainda outros três fatores: educação, tecnologia e demanda externa aquecida. “Parece um pouco bobo colocar esses fatores, mas não há escapatória. É isso que move e sustenta uma economia no longo prazo”, explica. No ciclo imaginado pela economista, o incremento nos sistemas de ensino favorece a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias. O mercado internacional recuperado, por sua vez, estimularia a expansão da produção.

Somado às altas despesas mantidas atualmente pelo governo, Inês lembra que outro obstáculo ao crescimento é a baixa participação do setor privado nas grandes obras (estradas, portos, aeroportos) ainda é fruto de pouco estímulo. “Faltam garantias e incentivos para os empresários. Não há sequer a certeza de retorno, então o setor privado não entra nessas empreitadas”, pondera.

Além da deficiência logística, outro entrave ao crescimento é a falta de poupança interna, que joga o país na dependência do financiamento externo para bancar seus gastos. “A China só consegue crescer a 10% ao ano, sem parar e sem gerar uma explosão na inflação porque tem uma das maiores poupanças internas do mundo”, ressalta o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal. O economista diz-se contrário à linha de pensamento que defende que o investimento gera poupança (ao aumentar a produção de riquezas). “Não concordo, acho que um país que se propõe a investir mais do que a poupar acaba reforçando o deficit externo”, afirma.

Educação é chave
O Brasil tende a perpetuar o crescimento a passos de tartaruga, enquanto mantiver a educação básica relegada ao segundo plano no que diz respeito ao planejamento de políticas públicas, garantem os economistas. Sem melhora na estrutura de ensino dos primeiros anos da carreira escolar, o país tende a perder o pouco do protagonismo internacional conquistado após a crise.

O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal, aponta essa como uma das chaves para o aumento da produtividade das empresas instaladas no mercado doméstico. “A falta de qualificação é um dos maiores empecilhos para a indústria nacional”, lamenta. Leal lembra que a escassez de tecnologia e maquinário dos parques produtivos pode ser rapidamente preenchida com a importação de bens de capital e insumos, solução que não se aplica à mão de obra.

Na avaliação do economista, há pouco tempo para se dedicar ao tema, uma vez que vivemos atualmente em um “bônus demográfico”, no qual há uma parcela maior da população em idade produtiva. “Essa janela, no entanto, deve se fechar por volta de 2020, então é preciso correr. A Coreia passou por essa situação na década de 70 e aproveitou. Hoje eles são o que são. Agarrar esse bônus é como nadar a favor da corrente”, aponta.

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