No período compreendido entre 1980 e 2005, a economia brasileira teve um crescimento médio anual de apenas 0,7% em termos per capita, valor bastante inferior daquele observado entre 1950 e 1980, situado em torno de 3%. O desempenho brasileiro também ficou abaixo da performance de outros países emergentes como a Coréia do Sul, China, México e Chile. Nos últimos quatro anos, contudo, observou-se uma aceleração do crescimento da economia brasileira com respeito ao comportamento observado desde 1988. Com efeito, a taxa média de crescimento no período 2004-2008 foi de 4,81% a.a, bastante superior as médias observadas nos períodos 2000-2003 (2,35% a.a), 1996-1999 (1,45% a.a), 1992-1995 (3,48%) e 1988-1991 (-0,05%). Considerando um crescimento populacional da ordem de 1,5% a.a, a manutenção dessa taxa de crescimento do PIB irá fazer com que a renda per-capita brasileira volte a crescer a taxa de 3% a.a, recuperando assim o desempenho observado no período 1950-1980.

No entanto, a boa performance que a economia brasileira vem apresentando desde 2004 deve-se a uma conjuntura internacional extremamente favorável, a qual se expressa pelo aumento sem precedentes no preço internacional das commodities, forte recuperação dos termos de troca, vigorosas taxas de expansão do comércio internacional e taxas de juros em níveis bastante baixos a nível mundial. Esse cenário internacional favorável permitiu um aumento vigoroso das exportações brasileiras em conjunto com uma forte recuperação dos termos de troca, contribuindo assim para o relaxamento da restrição externa ao crescimento da economia brasileira.

Essa combinação de elementos também permitiu que a economia brasileira apresentasse superávits em conta-corrente até 2007, os quais foram fundamentais para a redução da sua vulnerabilidade externa; ao mesmo tempo em que a taxa de câmbio apresentou uma forte apreciação, a qual foi um elemento importante no sentido de facilitar o processo de desinflação iniciado pelo Banco Central a partir de 2003, permitindo assim que o controle da taxa de inflação pudesse ser feito com taxas de juros gradativamente mais baixas, tanto em termos nominais como em termos reais. Dessa forma, o cenário internacional favorável teria sido o responsável direto tanto pelo relaxamento da restrição externa como pelo relaxamento da restrição interna ao crescimento econômico de longo-prazo.

O crescimento mais acelerado dos últimos quatro anos, contudo, não é sustentável a médio e longo-prazo. Em primeiro lugar, devemos destacar que a taxa de investimento, apesar da notável recuperação observada desde 2003, ainda permanece em patamares insuficientes para proporcionar um crescimento sustentado a longo-prazo num contexto de estabilidade de preços. Com efeito, a taxa de investimento se situa em torno de 18% do PIB, o que é compatível com um crescimento sustentado de apenas 4% a.a para o PIB.

Em segundo lugar, o crescimento observado nos últimos anos tem ocorrido num contexto de apreciação crônica da taxa real de câmbio. Essa dinâmica da taxa real de câmbio induziu não apenas o re-surgimento dos déficits em conta-corrente, como ainda tem causado uma forte re-primarização da pauta de exportações, somado a um movimento de queda da participação do valor adicionado da indústria no PIB. Em outras palavras, o crescimento recente da economia brasileira foi financiado com “poupança externa” – o que ressuscita temores quanto à fragilidade externa da economia brasileira – num contexto de mudança estrutural perversa, ou seja, num contexto de desindustrialização.

A desindustrialização é um processo que resulta numa redução do potencial crescimento de longo-prazo de uma economia, haja vista que: (i) os efeitos de encadeamento para frente e para trás na cadeia produtiva são mais fortes na indústria do que nos demais setores da economia; (ii) a indústria é caracterizada pela presença de economias estáticas e dinâmicas de escala, de tal forma que a produtividade na indústria é uma função crescente da produção industrial; (iii) a maior parte da mudança tecnológica ocorre na indústria e, além disso, boa parte do progresso tecnológico que ocorre no resto da economia é difundido a partir do setor manufatureiro; (iv) a elasticidade renda das importações de manufaturas é maior do que a elasticidade renda das importações de commodities e produtos primário, dessa forma, a “industrialização” é tida como necessária para aliviar a restrição de balanço de pagamentos ao crescimento de longo-prazo.

A sobre-valorização cambial impõe riscos de médio e longo-prazo para o crescimento da economia brasileira. O aumento progressivo e rápido do déficit em conta-corrente – o qual deve fechar o ano de 2010 em torno de 3% do PIB, ou seja, um aumento de 100% com respeito ao valor verificado em 2009 – é um alerta de que num prazo de dois ou três anos, o desequilíbrio externo pode ser insustentável, apesar da situação relativamente confortável que o Brasil desfruta atualmente em função do elevado nível de reservas internacionais. Com efeito, existem projeções no mercado financeiro de que o déficit em conta-corrente possa alcançar a marca de 10% do PIB em 2015! Muito antes do déficit em conta corrente chegar a esse nível, o Brasil terá passado por uma crise cambial, com efeitos desestabilizadores sobre a sua trajetória de crescimento, o que poderá levar a uma “nova década perdida”.

Um cenário alternativo consistiria numa situação em que o Brasil consegue financiar o crescimento do déficit em conta-corrente até a entrada dos recursos do Pré-Sal. Nesse caso, o aumento das exportações de petróleo poderá manter o déficit em conta-corrente sob controle por um prazo indefinidamente longo de tempo. Se isso ocorrer, contudo, o quadro de sobre-valorização cambial irá persistir indefinidamente, podendo até mesmo se agravar, caso o preço do petróleo volte aos patamares observados no primeiro semestre de 2008. Nesse caso, o processo de desindustrialização irá continuar a sua marcha, o que irá resultar numa redução “lenta, gradual e segura” do potencial de crescimento da economia brasileira. Se isso acontecer, o Brasil terá seguido o triste exemplo da Argentina no pós-segunda guerra, período no qual o nosso visinho do sul interrompeu seu processo de industrialização, o que condenou o país a um lento processo de decadência econômica e empobrecimento relativo.

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