O candidato à Presidência da República do PSDB, José Serra, passou a fazer críticas abertas e mais agressivas à política econômica implementada no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de dizer que o BC não era a Santa Sé, em entrevista à CBN em maio, Serra vinha demonstrando contenção nos questionamentos sobre a taxa de juro real, o investimento público e o real sobrevalorizado. Na segunda-feira, em sabatina promovida pelo Grupo Estado, o candidato tucano fez uma espécie de resgate do pensamento desenvolvimentista. Economista de formação com passagem pela Cepal nos anos 70 e depois, professor da Unicamp, Serra ultrapassou qualquer tipo de censura em relação ao que pensa na área. Criticou o sistema de metas de inflação louvado pelo mercado financeiro e felicitou os economistas ortodoxos de outros tempos. “Viva os ortodoxos do passado, que eram todos bons economistas. Seriam considerados hoje inflacionistas e desenvolvimentistas”, disse. Para o candidato, o Brasil está em franco processo de desindustrialização devido ao câmbio sobrevalorizado, que estimula a expansão das importações de bens industrializados para sustentar a demanda interna. “O câmbio no Brasil é flutuante? É uma ova. Só flutua para baixo, não flutua para cima. Na hora que flutua para cima, aumenta o juro”, disse. Serra usou os questionamentos para desqualificar a rival, a candidata do PT, Dilma Rousseff, também economista. Para o tucano, o próximo presidente terá um “desafio imenso” na área econômica, onde Dilma, segundo ele, revela “seus pontos mais frágeis”. Preocupado com o déficit em conta corrente, Serra disse que a adversária do PT avaliou mal ao atribuir a alta das importações ao aumento dos investimentos em bens de capital. “É óbvio ululante que não é assim. Qualquer análise mostra que estamos importando para o consumo. É uma dessubstituição de importações”, afirmou. A redução de juros teria papel importante em seu eventual governo face ao peso do pagamento de juros da dívida pública sobre os gastos. “O Brasil é um caso único porque é o único país onde as metas de inflação estão atreladas à questão das contas fiscais”, disse Serra, para quem os juros são “tão siderais” que fala-se em aumento de juros de três a cinco pontos. “São coisas assim, inteiramente anômalas do ponto de vista do funcionamento das economias pelo mundo afora. Então tem uma relação direta com o déficit fiscal “, afirmou. Para Serra, que divergia da política monetarista encampada por Pedro Malan na Fazenda quando foi ministro do Planejamento no governo FHC, o atual governo carece de uma equipe “harmônica”. O tucano defendeu o alinhamento de BC, Fazenda e Planejamento com “políticas de juros, câmbio, gastos e receitas diferentes”. Segundo o tucano, o Brasil opera à base de um tripé “complicadíssimo”. Tem a maior carga tributária dos países em desenvolvimento, a maior taxa de juro real do mundo e a segunda menor participação do investimento do governo sobre o PIB, atrás apenas do Turcomenistão. “O próximo presidente vai ter que enfrentar tudo isso. O próximo presidente tem que ter noções de economia.” O candidato afirmou não ter objeções ao uso de recursos do Tesouro Nacional nos empréstimos do BNDES desde que o dinheiro seja aprovado no Orçamento da União. “É legítimo dar subsídio, qualquer economia faz isso, mas de maneira controlada, para que possa ser avaliado”, disse. Ontem, Serra esteve na feira de produtos e serviços religiosos Expocristã, na zona Norte de São Paulo, onde cantou acompanhado por um grupo Gospel. Em meio à quebra de sigilo fiscal de sua filha, Veronica, e de pessoas ligadas ao PSDB, pediu ” verdade e Justiça” na política. “Vai dar tudo certo se a gente colocar a fé em Deus”, dizia o canto Gospel que o candidato acompanhou.

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