Por Fernanda Pompeu, especial para o Yahoo! Brasil (link: http://br.eleicoes.yahoo.net/noticias/1901/desafios-do-proximo-presidente-economia-com-face-mais-humana)

Cenas inimagináveis para os menores de 20 anos: pacotes econômicos caindo na cabeça das pessoas; mudanças do nome da moeda (cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, real); corte de zeros; inflação homicida; engenheiros virando suco; salários virando pó; Ministério da Fazenda anunciando na TV o confisco da poupança dos brasileiros. Verdades que evaporaram: os economistas sabem tudo; quanto menos Estado melhor; o mercado tem resposta para tudo; as receitas dos países desenvolvidos são infalíveis; os Estados Unidos não entram em crise; crescer primeiro para depois repartir; só existe um caminho para o desenvolvimento; lucrar está acima de tudo. O que não deixou de ser verdade é que a economia faz a vida das pessoas, e a vida pessoas faz a economia. Assim como não mudou o tripé da economia dos sonhos: estabilidade, distribuição de renda, desenvolvimento. Tire uma dessas perninhas e a coisa toda desmonta. Também houve outras mudanças: as sociedades e suas economias estão cada vez mais complexas e interdependentes. Problemas com a safra de trigo na Rússia repercute na alta de preço da soja do outro lado do mundo. Desvalorização abrupta de ações de uma grande empresa põe um bocado de gente na rua. Para nós brasileiros, a grande novidade é que estas eleições de 2010 vão se dar em um cenário de estabilidade econômica. A inflação está controlada, o emprego com carteira assinada cresce, os banqueiros estão felizes, milhões de brasileiros deixaram a zona da miséria, o nível de consumo aumentou e muito mais gente virou classe média. Para adoçar ainda mais o otimismo, há o pré-sal – gigantesca jazida de petróleo em águas profundas. É certo que, mesmo antes de render uma gota, já faz muito barulho. Haja vista a disputa dos estados pelos royalties, cuja decisão final cairá no colo do novo presidente. Também aguando a festa, tem o temor dos ambientalistas e setores da população com a segurança dos mares, principalmente depois do desastroso vazamento de petróleo no Golfo do México, todavia não resolvido. Papel do Estado No plano externo, nossa economia também vai bem. Há várias empresas, entre elas a Petrobras, investindo em diversos mercados. Na América Latina, o modelo brasileiro tem sido inspirador. Nas palavras de Ricardo Paredes, professor de Economia da PUC do Chile, “o Brasil é muito importante como modelo de desenvolvimento. Na América Latina, temos duas visões de participação estatal na economia. Uma delas é representada pela Venezuela e Argentina, onde o Estado interfere diretamente na atividade produtiva e nos preços. A outra visão é representada pelo Brasil, onde o Estado tem um compromisso forte com os mais pobres. Vocês conseguiram uma mistura interessante do econômico com o social”. A boa saúde da economia também mudou a cara da propaganda eleitoral. A candidata da situação, Dilma Rousseff (PT), prega o continuísmo econômico do governo Lula, em uma espécie de “não se mexe em time que está ganhando”. Já José Serra (PSDB), candidato da oposição, reconhece o bom momento, mas diz que tem condições de melhorá-lo ainda mais. Marina Silva (PV) propõe que o país reflita acerca do desenvolvimento sustentável e do consumo consciente. Octávio de Barros, diretor de Pesquisa e Estudos Econômicos do Bradesco, afirma em artigo postado no site do banco que “o Brasil está experimentando um ciclo eleitoral maduro, no qual o mercado não identifica grandes alterações de rota com quem quer que venha a ser o vitorioso no pleito de outubro. Exacerba-se assim uma visão construtiva de um país de baixos riscos e excepcionais perspectivas”. Especialistas da área econômica são unânimes na afirmação de que caberá ao novo governo transformar estabilidade em desenvolvimento para todos os brasileiros. Desenvolvimento que instigue o empreendedorismo, a diversidade de serviços, o consumo de bens, mas também, e principalmente, moradia, saúde, educação, segurança de qualidade. A próxima equipe econômica terá que trabalhar com questões ligadas à balança cambial – que incide diretamente na relação exportação-importação, bem como influencia a poupança interna. A equipe deverá rever a taxa de juros, no momento uma das mais altas do mundo, e a carga de impostos, também um das mais altas. Outra missão será emplacar as reformas fiscal e da previdência – tão necessárias quanto difíceis de implementar. Outro problema é deter ou minimizar a desindustrialização da economia, tendência observada em países desenvolvidos e, segundo muitos economistas, também no Brasil. Para o professor do Departamento de Economia da UnB, José Luís Oreiro, “a apreciação da taxa de câmbio foi fundamental para explicar a redução da participação da indústria na formação do PIB nacional”. O professor acredita que os principais desafios do próximo presidente “são incrementar a industrialização e aumentar os investimentos de infraestrutura”. Educação Uma das características da área econômica é sua interface com todas as outras áreas da sociedade. Assim ela se conecta com a educação para a cidadania e para o trabalho. Já está faltando mão de obra qualificada no mercado brasileiro. Não se trata apenas de grandes especializações. Há problemas de formação básica. Formação que deveria ocorrer no ensino fundamental. Uma escola ruim joga no mercado pessoas despreparadas e com poucas oportunidades de aderir às variadas demandas do mundo do trabalho. No Brasil, ainda é altíssimo o número de analfabetos funcionais – aqueles que, apesar de alfabetizados, são incapazes de ler e interpretar informações um pouquinho mais complexas. Essa situação gera desigualdade de oportunidades e mata vocações e talentos ainda no nascedouro. Na visão da educadora Patrícia Costa, que organiza treinamentos em empresas, “há também problemas com pessoas de grau universitário, consequência da visão que reduz o conhecimento à mercadoria e é displicente com os princípios éticos”. Se o novo presidente e sua equipe tiverem sucesso na condução da política econômica, que abrange muito mais do que números e vantagens imediatas, novas maneiras de encarar o valor econômico vão se expandir. Entre elas, a chamada “Economia Criativa”, que aplica criatividade, imaginação, inovação em processos, relacionamentos, modelos de negócios e gestão, produtos e serviços. Enfim, uma economia inteligente, na qual o capital humano será central.

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