O interessante artigo dos professores Pedro Ferreira e Renato Fregeli  publicado no Valor Econômico do dia 03 de setembro é uma oportunidade ímpar de retificar idéias equivocadas que alguns economistas tem a respeito da tese da desindustrialização. Com o respeito devido aos autores em consideração, irei utilizar trechos do seu artigo para tanto.

(i) “A despeito da celeuma recente sobre uma suposta desindustrialização no país, não há evidência forte de que isso venha ocorrendo. Ao contrário a indústria nacional tem crescido a taxas bastante altas”.

Essa afirmação contém dois equívocos. Um primeiro de ordem conceitual. Tal como argumentei no artigo “Desindustrialização: conceituação, causas, efeitos e o caso Brasileiro” escrito em co-autoria com a professora Carmem Feijó e publicado recentemente na Revista de Economia Política, a desindustrialização é definida como uma situação de perda de importância relativa da indústria na economia, o que pode ser medido tanto em termos da participação do emprego industrial no emprego total como em termos da participação do valor adicionado da indústria no PIB. Dessa forma, a simples constatatação de que a produção da indústria cresce a taxas “expressivas” não pode ser usada como prova contrária a tese da desindustrialização. Isso porque uma queda da participação do valor adicionado da indústria no PIB é compatível com um certo crescimento da produção industrial, bastando para isso que os demais setores estejam crescendo mais rapidamente do que a indústria. Em segundo lugar, o indicador relevante de “pujança” da indústria não é a produção física, mas o valor adicionado. Segundo dados do IPEADATA, o valor adicionado da indústria entre 2005 e 2009 cresceu as taxas de 2,08%; 2,21%, 5,27%, 4,44% e -5,51%. Essas taxas dificilmente poderiam ser consideradas “bastante altas”, ainda mais quando comparadas com as taxas de crescimento do PIB no mesmo período : 3,16%, 3,96%, 6,09%, 5,14%, -0,19%. Dessa forma, os números dos últimos 5 anos (ainda não temos os dados de 2010) mostram que o valor adicionado da indústria tem crescido sistemativamente menos do que o PIB … sintoma inequívoco de desindustrialização.

(ii) “Os efeitos presumidamente negativos das exportações de commodities sobre a economia brasileira carecem de base empírica e teórica, bem como agridem o bom senso”.

Se essa afirmação for verdadeira como então podemos explicar o fato histórico de que o período de maior crescimento sustentado da economia brasileira (1930-1980) foi justamente o período de industrialização, no qual o Brasil, grosso modo, deixou de ser uma fazenda de café e se tornou uma economia industrial, com uma progressiva redução da dependência das exportações de café para o equilíbrio do balanço de pagamentos e a geração interna de renda? Terá sido pura coincidência? Além disso, existem evidências empíricas bastante fortes, publicadas em revistas científicas no Brasil e no exterior, mostrando que países que possuem uma economia especializada em produtos primários tem uma taxa de crescimento compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos – a famosa “equação de Thirwall” – mais baixa do que países que possuem uma estrutura produtiva mais diversificada e, portanto, menos dependente da exportação de produtos primários. Recentemente, a dissertação de mestrado da Veridiana Carvalho da FEA/USP, orientada por Gilberto Tadeu Lima, pesquisador nivel I do CNPq, e que recebeu o prêmio BNDES de economia, mostrou que a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio no balanço de pagamentos no Brasil se reduziu em função das reformas liberalizantes da década de 1990, as quais diminuiram o grau de diversificação produtiva da economia brasileira, aumentando a nossa dependência com respeito a produtos básicos.

(iii) “A ênfase excessiva na industrialização ignora dois fatos importantes. O primeiro é que a inovação tecnológica não é prerrogativa do setor industrial”.

Nenhum defensor da tese de desindustrialização afirma que o progresso técnico só pode ocorrer na indústria, mas sim que a indústria é a principal fonte do progresso técnico !!!!  Acredito que a validade dessa afirmação é tão óbvia que não exige sequer esforço adicional de comprovação empírica. Se os autores do artigo em consideração pensam o contrário, cabe a eles o ônus da prova.

(iv) “O segundo fato ignorado é que, ao longo de suas trajetórias de crescimento, os países sofrem uma transformação estrutural em que o trabalho é inicialmente realocado da agricultura para a indústria (…) e, posteriormente, da indústria para os serviços”.

A exigência mínima indispensável para se criticar uma idéia é alguma familiariedade com os textos originais dos defensores da mesma. No Brasil o debate sobre desindustrialização tem como um dos seus textos fundacionais o artigo de Gabriel Palma apresentado em 2005 num seminário na FIESP (Palma, G. Quatro fontes de desindustrialização e um novo conceito de doença holandesa) . Nesse artigo o professor da Universidade de Cambridge (Reino Unido) apresenta o conceito de “desindustrialização precoce”, o qual consiste numa redução da participação do emprego industrial no emprego total a um nível de renda per-capita inferior ao observado nos países desenvolvidos quando os mesmos começaram o processo de transferência de mão-de-obra da indústria para o setor de serviços. Segundo os dados apresentados pelo professor Palma, o Brasil é um caso típico de “desindustrialização precoce” causada por “doença holandesa”, ou seja, pela importância dos produtos básicos e intensivos em recursos naturais para a geração de saldos comerciais.

Ao que tudo indica Ferreira e Fragelli ignoram o conceito de “desindustrialização precoce” ao afirmarem que o nosso processo de desindustrialização (interessante observar que no início do artigo aqui considerado, os autores afirmavam que não havia evidências fortes sobre desindustrialização, mas na metade do artigo esquecem isso) é similar a dos países desenvolvidos. Essa afirmação carece de fundamentação: segundo dados do professor Palma, a desindustrialização no Brasil se inicia com um nível de renda per-capita bastante inferior ao observado nos países desenvolvidos quando os mesmos iniciaram a sua própria desindustrialização !!! Nossa desindustrialização é diferente da desindustrialização da Bélgica : neste último país a mão-de-obra foi, em parte, transferida para o setor de serviços de alta produtividade (mas a outra parte foi transferida para o setor “desemprego”); ao passo que no Brasil os empregos perdidos pela indústria nos anos 1990 ajudaram a aumentar o contigente de lojas de 1,99 nas grandes cidades brasileiras, quando não de camelôs !!! Grande exemplo de mudança estrututal progressiva …

 No final do artigo os professores Ferreira e Frageli afirmam que o Brasil precisa se preocupar não com a indústria, mas com a baixa produtividade do setor de serviços. Os professores da FGV deveriam se perguntar se a baixa produtividade do setor de serviços  em comparação com a observada nos países desenvolvidos não seria a prova contundente de que no Brasil a indústria ainda não cumpriu o seu papel histórico de modernização da estrutura produtiva, de tal forma que a redução da sua importância na economia brasileira não só é precoce, como principalmente negativa. Essas questões, no entanto, exigem mais leitura e mais reflexão por parte dos professores Ferreira e Frageli.

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