Crescimento do Brasil é sustentável?
Apesar de o resultado do PIB no segundo trimestre ter sido modesto, entre 0,5% e 1%, ministro da Fazenda exalta desempenho anual, que pode atingir 7% de alta e modelo econômico que garantirá expansão nos próximos anos. Do outro lado, porém, presidente da
Patrícia Büll* – 30/8/2010 – 21h46
Michel Filho/AOG
Ex e atual ministros da Fazenda, Bresser-Pereira (dir.) e Guido Mantega, debatem condições econômicas atuais e futuras do Brasil em evento da FGV em São Paulo.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem em São Paulo, durante o 7º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deverá mostrar uma forte desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre deste ano, registrando crescimento entre 0,5% e 1% – muito abaixo da expansão de 2,7% dos primeiros três meses de 2010 sobre o quarto trimestre de 2009. Ele destacou, entretanto, que o resultado anualizado irá remeter para uma expansão entre 6,5% e 7% em 2010 na comparação com o ano passado. 

“Pela proximidade da divulgação (do PIB do segundo trimestre), prefiro não cravar um número de expectativa, mas deixar um intervalo entre 0,5% e 1%”, afirmou Mantega, lembrando que a divulgação oficial será realizada na próxima sexta-feira. Apesar da desaceleração, o ministro destacou que esta será a maior taxa de expansão do País nos últimos 24 anos. “Só em 1986 tivemos crescimento parecido.”

De acordo com Guido Mantega, o modelo econômico do governo dá condições para que, no período de 2011 a 2014, a economia brasileira cresça a uma taxa média anual próxima de 5,8%. Para 2011, a expectativa do ministro é a de uma alta de 5% em relação a 2010. “Nós acreditamos ter alcançado uma política econômica que permitirá um crescimento sustentado e com qualidade”, afirmou ele.

 O ministro rebateu a tese do atual presidente Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Steinbruch, que afirmou, no mesmo evento, que o Brasil passa por um processo de desindustrialização. Presidente também da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Steinbruch disse que o crescimento das exportações de combustíveis, grãos e minérios mascaram o déficit da indústria que, por conta da desvalorização do dólar em relação ao real, prefere importar peças e apenas finalizar o produto em território nacional.

Segundo ele, há riscos no modelo econômico com a moeda valorizada, “que vai nos custar caro em algum momento”; com os juros elevados, que fizeram com que muitos empregos deixassem de ser criados, e com “gastos públicos descontrolados”. “Estamos vivendo mais um modelo de desindustrialização que de industrialização”, afirmou, destacando o déficit na balança comercial de manufaturados. “Combustíveis, grãos e minério de ferro mascaram a balança”, disse.

Guido Mantega rebateu. “Com a crise internacional de 2008, houve uma redução das exportações de manufaturados, mas eu não chamo isso de desindustrialização, pois a queda se deu por conta da redução da demanda mundial.”

Prova disso, segundo o ministro, é que a produção industrial deverá fechar o ano com crescimento expressivo sobre 2009. “O presidente da Fiesp trabalha com a siderurgia, que perdeu espaço lá fora, é verdade. Mas está vendendo mais para a construção civil interna, que eu posso dizer que está realmente ‘bombando’.”

Mantega reconheceu, porém, que o déficit na conta corrente do País permanecerá pelo menos até 2011. Mas disse que haverá melhora na medida em que os efeitos da crise forem minimizados nos países desenvolvidos. (*Com AE)

Cenário externo ajudou melhora de indicadores

Apesar de reconhecer os avanços que o Brasil teve nos últimos anos – entre os quais estão o crescimento da economia e a melhora da dívida líquida do governo em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) –, o professor José Luiz Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB),  atribuiu essa performance mais à conjuntura internacional favorável do que à evolução das condições de renda e emprego no País.

“A estabilidade macroeconômica que teve início no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) permitiu o aumento da relação entre crédito e PIB no governo atual, o que estimulou o consumo. Por outro lado, o governo Lula tem fragilidades: baixa taxa de investimento, alto custo de produção, déficits em conta-corrente e uma política cambial que fez a indústria perder participação no PIB”, avaliou.

Por conta disso, o professor defende que seja efetuada uma mudança da política cambial de flutuante para flutuação controlada. No seu entendimento, isso traria um regime “sem meta estipulada, mas que garanta uma moeda competitiva”, conforme explicou.

Novo centro – Já o professor de economia da Fundação Getulio Vargas  (FGV) e ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Yoshiaki Nakano, disse que a crise financeira de 2008 criou um novo centro dinâmico na economia global. Ele teria se deslocado dos Estados Unidos para a China, Índia e outros países asiáticos, que demandam muitas commodities – o que apreciou a taxa de câmbio e criou nos países exportadores de produtos primários uma regressão da estrutura produtiva.

“Criou-se a armadilha da desindustrialização, ou melhor, da especialização regressiva, onde o País exporta produtos primários e de menor valor, no lugar de manufaturados. Isso contribui para o aumento do déficit em conta-corrente”. avaliou o professor.

Para melhorar essa estrutura em países como o Brasil, Nakano acha necessário administrar a taxa de câmbio e derrubar a taxa básica de juros, a Selic, para o nível global. Isso permitira o estímulo ao aumento dos investimentos por parte do setor produtivo. “Só assim conseguiremos crescer mais e com estabilidade”, ponderou Nakano.

Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Desindustrialização –

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