Sergio Lamucci e João Villaverde, de São Paulo
    31/08/2010
Texto: A- A+

Share/Save/Bookmark

Num evento marcado por críticas à valorização do câmbio, ao aumento do déficit em transações correntes e ao baixo nível de investimento, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o secretário de Política Econômica (SPE), Nelson Barbosa, defenderam a ideia de que o atual ciclo de crescimento é sustentável e que as contas externas estão sólidas, dados os patamares confortáveis de reservas internacionais e de endividamento externo. Os dois participaram ontem do 7º Fórum de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), no qual economistas e empresários como Geraldo Biasoto, Yoshiaki Nakano, José Luis Oreiro e Benjamin Steinbruch apontaram as fragilidades acima, que, segundo eles, podem impedir uma expansão consistente da economia.

Mantega disse apostar num crescimento de 7% neste ano, com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,2%. Segundo ele, fatores como a criação expressiva de empregos, a expansão acelerada da classe média e a recuperação do investimento tornam o ciclo em curso sustentável. Mantega estimou para o segundo trimestre uma alta do PIB de 0,5% a 1% em relação ao primeiro, feito o ajuste sazonal, número a ser divulgado na sexta-feira pelo IBGE. No primeiro trimestre, o crescimento foi de 2,7%.

Mantega tratou o aumento do déficit em conta corrente como um fenômeno passageiro. Segundo previsões da Fazenda, o rombo da transações de bens, serviços e rendas do país com o exterior deve alcançar US$ 46 bilhões neste ano, ou 2,3% do PIB, um salto em relação aos US$ 24 bilhões de 2009, ou 1,5% do PIB. Para ele, o déficit se deve “fundamentalmente” à crise mundial. O menor crescimento global teve um impacto sobre as exportações, e as remessas de lucros e dividendos das multinacionais saltaram. Também houve forte alta dos gastos de brasileiros no exterior. “Ainda teremos essa situação por mais dois anos, para, em seguida, retomar uma moeda mais desvalorizada, com mais exportações de manufaturados”, disse Mantega. “O câmbio vai permanecer valorizado no próximo governo, mas é natural que, em dois anos, ele se desvalorize, conforme a situação externa melhore.”

Presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Steinbruch disse que o governo não pode ficar esperando para agir. “Se deixar passar dois anos, não haverá mais o que ser feito com a indústria. A hora de efetuar mudanças que reduzam as importações e ampliem nossas exportações é agora.” Steinbruch criticou o nível do câmbio, destacando o déficit comercial na balança de manufaturados, “mascarado”, segundo ele, pelas vendas de “combustíveis, grãos e minérios”.

Diretor-executivo da Fundação para o Desenvolvimento Administrativo (Fundap) , Geraldo Biasoto mostrou preocupação com o câmbio valorizado. Além de afetar a competitividade das exportações, o dólar barato tem levado a uma alta forte das importações não apenas de componentes, mas também de bens finais, afirmou. “Há um desadensamento da cadeia industrial”. Próximo do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, Biasoto atacou o que considera o uso dos juros como “instrumento exclusivo de política econômica”.

Em sua apresentação, Barbosa fez uma defesa do regime de câmbio flutuante, “desde que complementado pela manutenção de um alto estoque de reservas internacionais.” Segundo ele, o impacto da valorização do câmbio sobre o crescimento no longo prazo depende do nível inicial em que se encontra a moeda. A apreciação do real ocorrida a partir de 2003, por exemplo, teria causado um efeito positivo sobre a expansão da economia, por partir de um patamar desvalorizado. Além do aumento dos salários reais, a apreciação do câmbio leva a um barateamento relativo dos investimentos, ao reduzir os preços dos bens de capital, o que tende a predominar sobre a redução na margem de lucro das empresas que produzem bens comercializáveis.

Para Barbosa, porém, uma valorização adicional do câmbio tenderia hoje a ser prejudicial. “É por causa disso que o governo toma medidas para evitar uma apreciação maior, sem definir necessariamente um piso informal ou uma meta para a taxa”, afirmou ele, que destacou os níveis confortáveis das reservas e da dívida externa como proporção do PIB como sinais de que o país resistiria bem a uma piora externa – como ocorreu no fim de 2008 e no começo de 2009.

Diretor da Escola de Economia da FGV-SP, Nakano criticou, além do nível do câmbio e dos juros, o baixo nível de investimento. O país tem que investir o equivalente a 25% do PIB para conseguir crescer sustentadamente na casa de 5% ao ano, disse ele. Neste ano, a taxa deve ficar por volta de 19% do PIB.

Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB), traçou o quadro mais pessimista, embora tenha apontado pontos positivos nos últimos anos, como a aceleração do crescimento, a manutenção da estabilidade e a redução moderada da dívida pública como proporção do PIB. Para ele, “se o Brasil tiver sorte”, haverá uma crise no balanço de pagamentos em 2012, que poderá resultar na mudança na orientação econômica. Oreiro diz que o atual modelo tem levado à desindustrialização e à reprimarização da pauta de exportações. Mudar esse quadro passa por uma política cambial mais ativa, um regime de metas de inflação mais flexível, uma alteração no regime fiscal e uma reforma do sistema financeiro e de gestão da dívida pública.

Anúncios