Na matéria “Mais básico e mais vulnerável” publicado no jornal O Globo de hoje (http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/08/07/brasil-perde-us-27-bi-por-exportar-menos-manufaturas-917346309.asp) podemos constatar mais evidências de re-primarização da pauta de exportações brasileira. Com efeito, de janeiro a junho de 2010, os produtos manufaturados responderam por 40,52% das exportações brasileiras, ao passo que os produtos básicos responderam por 43,38% de nossas exportações. É a primeira vez desde 1978 que as exportações de básicos superam as exportações de manufaturados. Segundo estudo feito pela Associação de Comércio Exterior (AEB), a queda das exportações de manufaturados em 2010 relativamente a 2008 (em função do real valorizado, deficiências estruturais e custo Brasil) irão custar ao Brasil cerca de US$ 27 bilhões, ou seja, aproximadamente 56% do déficit em conta corrente projetado para 2010.

A sobre-valorização cambial e os problemas de infra-estrutura (estradas, portos, aeroportos) estão cobrando o seu preço, ao induzir uma mudança estrutural perversa da nossa pauta de exportações, tornando a economia brasileira mais exposta a oscilações nos preços das commodities nos mercados internacionais. A maior concentração da pauta de exportações em produtos básicos somada a tendência de aumento do déficit em conta-corrente está aumentando a fragilidade externa da economia brasileira. O fluxo de investimento externo direto atualmente é insuficiente para cobrir o déficit em conta-corrente. Isso significa que, depois de vários anos de situação externa confortável, o Brasil voltou a ser dependente de capitais especulativos para fechar as contas externas. A dependência de capitais externos soma-se, agora, a dependência dos preços das commodities. Basta uma desceleração do crescimento da China para os preços dos produtos básicos apresentarem uma redução significativa, derrubando assim o valor de nossas exportações, o que terá o efeito de ampliar ainda mais o déficit em conta-corrente.

Nesse contexto, uma crise externa em 2011 ou 2012, ao reduzir os preços das commodities, poderá desencadear uma parada súbita de entrada de capitais no Brasil devido aos temores dos investidores internacionais quanto a solvência externa da economia brasileira. Essa parada súbita no financiamento externo terá o efeito de produzir uma desvalorização violenta da taxa real de câmbio, provavelmente com um forte “overshooting” cambial. O Banco Central responderá a essa situação da forma como sempre fez, ou seja, com uma forte elevação da taxa de juros, jogando o país na recessão. Os efeitos recessivos da “parada súbita” poderão ser ampliados caso o setor privado nacional, a exemplo de 2008, tenha exposição a contratos de derivativos de câmbio. Se isso ocorrer, o aumento do risco de contra-parte do setor privado nacional poderá gerar uma nova “evaporação do crédito”, com efeitos catastróficos sobre a produção industrial, tal como se observou no último trimestre de 2008.

O tempo que resta para o Brasil fazer o ajuste requerido na taxa de câmbio está se esgotando. A equipe econômica do governo, numa surpreendente amnésia com respeito ao passado da economia brasileira, “dorme em berço esplêndido” confiante na capacidade “milagrosa” de ajuste das contas externas por intermédio do “câmbio flutuante que flutua”. É verdade que a crise externa irá produzir uma forte desvalorização cambial que, após um certo intervalo de tempo, irá estimular as exportações, reduzir as importações e desestimular as remessas de lucros e dividendos para o exterior, de tal forma a restaurar o equilíbrio da conta de transações correntes. Mas isso ocorrerá após, e somente após, uma queda significativa do nível de atividade econômica, aumento do desemprego e queda do nível de renda. Esse resultado poderá ser evitado se um ajuste da taxa de câmbio for feita, mais tardar, no início de 2011, com a posse do novo Presidente da República. Uma desvalorização cambial programada, acompanhada de um aumento da meta de superávit primário (obtida pela compressão dos gastos de consumo e de custeio do governo), redução da taxa básica de juros e imposição de controles de capitais permitiria um ajuste suave das contas externas, com pouco efeito sobre o nível de atividade e o desemprego.

Infelizmente o candidato a presidência da República mais comprometido com esse tipo de ajuste não está bem situado nas pesquisas de intenção de votos …

Anúncios