Por Cyro Andrade, de São Paulo
    27/07/2010
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“The Recent Financial Crisis, Financial Regulation and Global Impact”

Silvia Costanti/Valor
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José Luis Oreiro: “A crise não ocorre apenas por falha de regulamentação, mas também por um problema estrutural que é típico do capitalismo”

Edição de Philip Arestis, Rogério Sobreira e José Luis Oreiro. Palgrave. 2 volumes, 512 págs. A publicar.

O fim dos cortes de impostos estabelecidos no governo de George W. Bush deve esquentar a campanha eleitoral deste ano nos Estados Unidos. Não é pouco: o que Barack Obama e o Congresso decidirem pôr no lugar das regras vigentes terá profundas implicações fiscais nos próximos anos. Mais que isso, os debates sobre a questão tributária devem antecipar os contornos da agenda política em aspectos especialmente sensíveis, como o tamanho do governo e os modos de se conduzir a recuperação da economia, ainda mal refeita dos efeitos da crise.

Convém acompanhar esse encadeamento de temas, debates e decisões de governo, para avaliar até que ponto fincou raízes no centro do mundo capitalista, a partir da generalizada opção por políticas fiscais ativas, a renovação dos modos de se compreender o que devam ser as relações entre governos e mercados, quando se trata de administrar crises e procurar o caminho da estabilização econômica. Não se está falando, é claro, da salvação de bancos com injeções ciclópicas de dinheiro público – artifício de ocasião cuja inevitabilidade nasceu da leniência com que se via a criatividade operacional dos mercados.

 
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Ideias e propostas para discussão já preenchem inumeráveis páginas de “papers” e livros, como este “The Recent Financial Crisis, Financial Regulation and Global Impact”. E mais ainda se continuará a produzir, por certo. Não faltam razões: (1) a crise não terminou, e deverá ter efeitos duradouros, principalmente na Europa e Estados Unidos; (2) ainda não se consolidou a compreensão a respeito das origens e possíveis desdobramentos da crise; (3) apenas se ensaia a busca de entendimento sobre o que deva ser uma regulamentação do sistema financeiro global.

De quebra, há o fato de que o pensamento teórico não ortodoxo encontrou, com a crise e as reações a la Keynes de vários governos, o clima de que precisava para ampliar sua presença na argumentação anti-“mainstream” – conquista de que seus porta-vozes não vão querer abrir mão. É um espaço, esse do mercado de ideias (e influências políticas), em que o confronto de posições teóricas e opiniões sempre será salutar. Para quem pretende formar juízo próprio, a hora é particularmente boa, com possibilidades de comparação antes abafadas pela ortodoxia tida como de validade incontestável. O mundo ficou mais plural.

“The Recent Financial Crisis…” traz novas contribuições para o debate que se originam em áreas intelectuais externas ao pensamento e às teorizações convencionais. A oportunidade, diz José Luis Oreiro, um dos editores do livro, é dada pela necessidade de se repor a questão da reforma do sistema financeiro em seu lugar de importância original. “O foco do problema passou a ser a questão fiscal. Claro, é preciso fazer um ajuste na Grécia, na Espanha etc., mas as pessoas estão esquecendo que todo esse ‘imbroglio’ foi gestado pela desregulação dos mercados, sim, mas conjugada a um padrão de capitalismo que depende de bolhas para o crescimento.”

Oreiro recorre o que disse em artigo, a respeito desse padrão, o economista Thomas Palley (que em agosto estará em São Paulo para participar da III Conferência Internacional da Associação Keynesiana Brasileira): “A participação dos salários está em queda, ou seja, a distribuição de renda piora, no mundo, ao mesmo tempo que os países do Sudeste Asiático acumulam superávits em conta corrente e reservas em dólar. Com isso, não há saída para a economia americana que não seja crescer com base em consumo puxado por endividamento e inflação de ativos. A crise não ocorre apenas por falha de regulamentação, mas também por um problema estrutural.”

Da última vez em que o mundo se viu em apuros dessa dimensão foi necessário chegar a uma guerra para o sistema financeiro internacional ser, enfim, reorganizado, lembra Oreiro. Hoje, o caminho possível passa pela recuperação da economia mundial em primeiro lugar, o que dará as condições políticas para, na sequência, se discutir e fazer a reforma. “E para isso serão necessários anos, não alguns meses.” Oreiro observa que não se trata apenas de criar um novo sistema financeiro, mas também de instituir uma nova divisão internacional do trabalho, que funcionaria como uma espécie de cunha modificadora do tal padrão de geração de demanda agregada. “Não é mais possível”, diz Oreiro, “que os Estados Unidos continuem a ser a única economia compradora de última instância. A China tem que caminhar para elevar seu consumo. A própria Alemanha, por exemplo, tem que repensar seu papel dentro da União Europeia.”

Oreiro acha que os governos “estão se deixando levar pelo terrorismo do mercado”, que pressiona por uma saída rápida da situação de largueza fiscal que os programas de salvamento e ativação econômica criaram em vários países, a começar pelos Estados Unidos. Não é o caso, diz Oreiro. “Nos países desenvolvidos como um todo, o setor privado fez seu ajuste, e agora é superavitário. Essa poupança não tem como ser canalizada para as economias emergentes, também superavitárias. Só lhe restam os títulos que financiam os déficits do setor público.” Não haveria, portanto, motivo para pressa no acerto fiscal.

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