A Copa do Mundo mudou o padrão de consumo das famílias e ajudou a conter a inflação em junho. O mês no qual teve início a competição registrou um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estável, a menor taxa em quatro anos – em junho de 2006, mês da Copa do Mundo da Alemanha, houve deflação (queda de preços) de 0,21%. A série histórica do IBGE mostra que, desde o início do Plano Real, em anos de Mundial de futebol a inflação cai nos meses do evento.

“Durante o mundial os brasileiros, que são muito apaixonados por futebol, deslocam o consumo para produtos que têm relação com a Copa, como camisas temáticas e vuvuzelas”, diz Eulina Nunes dos Santos, coordenadora do IBGE. “Parte do orçamento e das atenções se voltam para esses produtos, reduzindo a demanda por outros itens, como alimentos e automóveis, o que leva a promoções no comércio e à queda de preços.” Segundo o IBGE, em 12 meses o IPCA acumula alta de 4,84% e, no ano, de 3,09%.

Ajuste

Para o professor de macroeconomia da Universidade de Brasília (UnB) José Luís Oreiro, os números de junho mostram que não há no país um descontrole inflacionário, e que o ajuste está sendo feito pela produção em alta. “Já víamos que o investimento estava crescendo três vezes mais rápido que o PIB, o que mostra um controle pela oferta”, diz. “O aumento da taxa de juros com a justificativa de conter a inflação foi um terrorismo, uma reação exagerada do governo”, critica o professor.

Fábio Romão, da consultoria LCA, vê uma desaceleração natural dos preços dos alimentos, que dispararam no começo do ano por conta do clima e agora retornam à normalidade. “Daqui para o fim do ano, a evolução seguirá o esperado sazonalmente.”

Além dos alimentos, que recuaram 0,90%, a queda dos preços da gasolina (-0,76%) e do álcool (-5,41%) motivou a deflação de 0,21% do grupo de transportes, e também contribuiu para o IPCA medido no mês passado.

O cenário dos preços em Curitiba é parecido – na capital paranaense, o índice geral apurou queda de 0,15% em junho. O cenário favorável, porém, não tende a se repetir este mês, quando há reajuste de energia elétrica no Paraná, tarifa com peso forte na cesta do IPCA.

O IPCA zerado em junho, na opinião do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, deve gerar um debate no mercado sobre se este foi o ponto mais baixo da inflação medida pelo indicador no ano – configurando o que economistas classificam de “barriga” – ou se representa uma tendência de convergência para a meta. “Acredito que é mais uma barriga do que uma tendência.” O economista diz que a Copa foi “a cereja do bolo para a inflação”, mas não foi o fator determinante, e acredita que dificilmente haverá um IPCA zerado novamente nos próximos meses do ano. Souza Leal acredita que, apesar dos números do IPCA, o Copom deve manter o ritmo de aperto monetário em 0,75 ponto porcentual na reunião deste mês e também em setembro.

Para o professor de Economia Demian Castro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no entanto, a questão dos preços abre espaço para uma queda na taxa básica de juros. Ele diz que o foco da preocupação do governo hoje está no consumo exagerado, que pode não ser compensado por um aumento da capacidade produtiva brasileira. “O problema é que este controle beneficia o sistema financeiro, que tem lucros estrondosos, e provoca uma migração dos investimentos do setor produtivo para o financeiro”, diz Castro.

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