Estive em São Paulo no início da semana partipando do Workshop sobre “Novo-Desenvolvimentismo” realizado pelo Centro de Estudos Macroeconômicos da Escola de Economia de São Paulo em conjunto com a Fundação Ford. Participaram do evento vários economistas do Brasil e do exterior. Entre os brasileiros estavam Antônio Barros de Castro (UFRJ), Daniela Prates (Unicamp),  Davi Kupfer (UFRJ), Fernando Cardim de Carvalho (UFRJ), Franklin Serrano (UFRJ), José Luis Oreiro (UnB), Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV/SP), Luiz Fernando de Paula (UERJ), Miguel Bruno (IPEA), Nelson Marconi (FGV/SP), Paulo Gala (FGV/SP), Ricardo Bielschowsky (Cepal), Ricardo Carneiro (Unicamp) e Yoshiaki Nakano (FGV/SP).  Entre os estrangeiros estavam Amit Bhaduri, Roberto Frenkel, José Antonio Ocampo, Gabriel Palma, Jan Kregel, Thomas Palley, Robert Boyer, Oswaldo Sunkel e Heiner Flassbeck.

Durante os dois dias do encontro foram discutidos os fundamentos teóricos e empíricos do novo-desenvolvimentismo e as repercussões da crise econômica mundial, notadamente da crise dos PIIGS, sobre os países emergentes. Duas questões mereceram atenção especial pelos participantes do encontro. A primeira refere-se ao “regime de acumulação” que prevalece no capitalismo no pós-crise. Uma parte dos economistas ali presentes defendeu a tese de que o crescimento de longo-prazo e a expansão demanda agregada no pós-crise dependem criticamente do crescimento dos salários reais (pelo menos a uma taxa igual a expansão da produtividade do trabalho). A política cambial é importante apenas enquanto expediente para evitar o desequilíbrio externo (déficit em conta corrente). Um outro grupo defendeu a tese de que o crescimento dos países emergentes deve ser impulsionado pelas exportações e que, portanto, a política cambial deve ser agressiva, voltada para a geração de uma taxa de câmbio sub-valorizada e superávits em conta-corrente expressivos. Embora essa política seja inviável do ponto de vista da economia mundial como um todo (falácia da composição: não é possível que todos os países do mundo tenham superávit em conta-corrente simultaneamente), trata-se da “estratégia dominante” para os países emergentes.

Uma segunda questão levantada no workshop foi a doença holandesa e a sua neutralização. Aqui também ocorram divergências interessantes entre os participantes do encontro. Para uma parte dos economistas ali presentes, os países em desenvolvimento, notadamente na América Latina, possuem uma tendência estrutural a sobre-valorização da taxa de câmbio, tendência essa que resulta das “rendas ricardianas” oriundas da abundância de recursos naturais escassos. Trata-se do fenômeno conhecido como “doença holandesa”. A neutralização dessa tendência exige a taxação das exportações de produtos intensivos em recursos naturais. Para uma outra parte dos economistas, a sobre-valorização da taxa de câmbio é um fenômeno cíclico, relacionado com os ciclos de liquidez da economia mundial. Dessa forma, nos períodos em que as taxas de juros estão baixas nos Estados Unidos e na Europa ocorre um aumento dos fluxos de capitais para os países emergentes, o que tem o efeito de produzir uma forte apreciação da taxa de câmbio e aumento dos déficits em conta-corrente. Essa dinâmica aumenta a fragilidade externa das economias emergentes, criando as condições para a ocorrência de uma crise de balanço de pagamentos no momento em que as condições de liquidez prevalecentes nos países desenvolvidos são revertidas. Dessa forma, os ciclos econômicos nos países em desenvolvimento são o resultado dos ciclos de liquidez dos países desenvolvidos. Nesse contexto, a política anti-cíclica nos países em desenvolvimento passa necessariamente pela adoção de controles a entrada de capitais, de forma a estabilizar a taxa de câmbio, impedindo assim o surgimento de desequilíbrios externos.

Anúncios