Para economistas ortodoxos, expansão não-inflacionária é de 4% a 4,5%; heterodoxos acham que dá para crescer a 6% Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

Por trás do debate sobre a atuação do Banco Central para controlar a inflação, existe uma discussão sobre quanto o Brasil pode crescer sem pressionar os preços. No momento, a média da projeção de crescimento do mercado para 2010 está em 5,8%, mas o número está se movendo rapidamente para o intervalo entre 6% e 7%, que já é previsto por muitos analistas. Para os economistas mais ortodoxos, a economia brasileira pode crescer entre 4% e 4,5% ao ano sem provocar pressões inflacionárias, e, na melhor das hipóteses, a 5%. Os desenvolvimentistas, porém, discordam dessa visão, e consideram que um crescimento sustentável perto de 6% é possível. Para isso, a redução do atual nível de crescimento brasileiro teria de ser muito mais suave, praticamente um ajuste fino. “A questão é desacelerar de 6% a 7% ao ano para 5,5% a 6%”, diz José Luís Oreiro, economista da Universidade de Brasília. Para Fernando Cardim, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) “é possível chegar a 6,5% esse ano sem explosão, e, para sustentar esse ritmo, depende de o crescimento ser voltado para o investimento, especialmente em infraestrutura”. Oreiro diz que o investimento cresce quando a demanda aumenta, e menciona a “lei Kaldor-Verdoorn (do nome de dois economistas)”, segundo a qual existe uma relação empírica entre o aumento da produção industrial e o da produtividade na indústria e no resto a economia. “Se a economia crescer, durante alguns períodos, acima do seu potencial, o que vai acontecer a médio prazo é que o crescimento do produto potencial sobe”, diz Oreiro. Ele alerta, porém, que não se pode forçar demais, para evitar provocar muita inflação no curto prazo – assim, a tarefa do governo agora seria a de fazer um ajuste fino, e não dar uma freada brusca. Cardim, por sua vez, diz que, em períodos de otimismo e prosperidade, as empresas utilizam mais intensamente a capacidade instalada, o que também amplia o produto potencial. Ortodoxos. A visão de economistas mais ortodoxos é muito diferente. Para José Márcio Camargo, da PUC-Rio e da gestora de recursos Opus, a economia, por causa da crise, de fato cresceu ocupando capacidade ociosa e sem causar inflação até o fim de 2009. A partir do início deste ano, porém, ele vê pressões inflacionárias vindo tanto do setor de serviços, no qual a inflação está próxima a 6% ao ano, quanto do mercado de trabalho, com uma baixa taxa de desemprego, salários crescendo acima da produtividade e o custo unitário do trabalho em alta. Camargo observa ainda que “em 2008, quando a taxa de desemprego bateu em níveis similares ao atual, as pressões inflacionárias vindas do custo unitário de trabalho começaram a aparecer fortemente”. Finalmente, ele lembra que o investimento, que aumenta quando a economia se acelera, representa no primeiro momento uma ampliação da demanda, isto é, leva a aquisições de equipamentos e materiais de construção, e à maior utilização da mão de obra. Apenas num momento subsequente o investimento aumenta a capacidade produtiva e ajuda a economia a crescer mais sem pressões inflacionárias. Há uma visão consensual entre os economistas que a inflação acumulada em 12 meses só voltará ao centro da meta, de 4,5% em 2011. Fernando Rocha, sócio da JGP Investimentos, não descarta que o BC estenda o ajuste até 2012, embora ache mais provável que ele tente completar o trabalho em 2011.

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