Interessante a matéria publicada no Jornal “O Estado de São Paulo” na última sexta-feira. Tal como eu já havia antecipado várias vezes neste blog, inclusive em entrevista recente para a Revista InvestMais (https://jlcoreiro.wordpress.com/2010/02/22/crescimento-certo-em-2010-revista-investmais-04012010/) as eleições de 2010 serão uma disputa entre sub-correntes do desenvolvimentismo.  Só quem tem memória curta ou age por ignorância (ou má fé) pode acreditar na tese vinculada recentemente pelo Gustavo Franco de que num futuro governo José Serra os heterodoxos não darão as cartas na política econômica. A oposição do atual governador de São Paulo a política econômica adotada durante o governo Fernando Henrique Cardoso é publica e notória, basta uma breve consulta aos jornais da época. Sua crítica ferrenha ao binômio câmbio valorizado-juro alto também não é de hoje e se manteve de forma consistente ao longo dos dois mandatos do presidente Lula. Certamente que Serra sabe que parte da solução para esse problema passa por um aprofundamento do ajuste fiscal, na mesma linha que foi defendida recentemente pelo professor e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira num artigo em co-autoria comigo (https://jlcoreiro.wordpress.com/2010/02/05/keynesianismo-vulgar-e-o-novo-desenvolvimentismo-valor-economico-05022010/) . Mas o Governador Serra também sabe que é necessário tirar o comando da política monetária das mãos do sistema financeiro, o qual, por uma série de mecanismos, acaba ditando as decisões do Conselho de Política Monetária. Mais especificamente,  José Serra sabe que é necessário mudar a estrutura de governança da política monetária no Brasil. Os economistas que estão trabalhando mais diretamente com o governador tem plena consciencia de que a atual política cambial está levando o Brasil para a desindustrialização e que a mesma precisa ser mudada sob pena de se jogar fora 50 anos de desenvolvimento puxado pela industrialização.

Para quem ainda não se convenceu do caráter desenvolvimentista do pensamento econômico de José Serra sugiro a seguinte leitura:

Serra, J. (1974). Desarollo Latino Americano: ensayos críticos. Fondo de Cultura Económica: Cidade do México.

Ou ainda o seu discurso XVIII Congresso Brasileiro de Economia, realizado em São Paulo em setembro de 2009, no endereço:

http://64.233.163.132/search?q=cache:1iyGcvnVYD0J:www.cofecon.org.br/index.php%3Foption%3Dcom_content%26task%3Dview%26id%3D1881%26Itemid%3D51+%22Jos%C3%A9+Serra%22%2B%22cofecon%22&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

ou ainda a oposição que economistas do mercado financeiro ensaiaram, sem sucesso, contra a política fiscal de São Paulo, numa tentativa vã de fazer tábula rasa das diferenças existentes entre a gestão Federal e a gestão do Estado de São Paulo no que se refere a participação do investimento público no gasto total.  

http://www.jusbrasil.com.br/noticias/2098186/santander-reconhece-erros-em-relatorio-sobre-politica-fiscal-de-sao-paulo

Segue abaixo a matéria do Estadão.

Abraços

Oreiro

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Grupo alinhado a escolas de pensamentos desenvolvimentistas conquista espaço no partido

13 de março de 2010 | 16h 23 Leia a notícia Comentarios 29EmailImprimirTwitterFacebookDeliciousDiggNewsvineLinkedInLiveRedditTexto – +

Com a consolidação do nome do governador paulista, José Serra (PSDB), como candidato da oposição à Presidência, ganhou força nas hostes tucanas um grupo de economistas que flerta com ideias mais heterodoxas. Alinhado a escolas de pensamentos desenvolvimentistas, esse núcleo galgou espaço no debate econômico interno e seus integrantes aparecem hoje como principais formuladores de políticas econômicas no partido, lugar anteriormente dominado por personagens com visões mais liberais. Aumentou a influência de economistas próximos do governador Serra que, assim como ele, têm passagem por escolas que pregam uma visão keynesiana, com Estado mais atuante, como, por exemplo, a Unicamp. Ficam com participação mais discreta nomes que reinaram durante a era Fernando Henrique Cardoso, como os ligados à PUC-Rio, que defendem participação menor do Estado na economia. Analistas do mercado costumam dizer que, caso eleito, Serra será ministro da Fazenda e presidente do Banco Central dele mesmo. A afirmação traz implícito um perfil atuante, sobretudo na política monetária – o tucano é um ferrenho crítico dos juros. “O Serra vai ter uma política econômica desenvolvimentista, sem dúvida nenhuma, uma orientação para o investimento e para o crescimento”, afirmou Julio César Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do governo Lula. A equipe de Serra é composta por economistas que dividem essa visão. O secretário de Planejamento, Francisco Luna, da USP, dono de reconhecido trabalho sobre o período escravista, é um dos principais nomes, como Geraldo Biasoto, da Unicamp, que trabalhou na Saúde com Serra. Diretor-presidente da Fundap, produz estatísticas que municiam o governo. Economista ligado ao PSDB, José Roberto Afonso é outro importante colaborador. Em recente seminário, citou “intricadas relações entre fisco, moeda, câmbio e crédito (que) exigem rever e melhorar a coordenação macroeconômica”, visão compartilhada internamente. Também influenciam o debate o deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas, e os secretários da Cultura, João Sayad, e da Fazenda, Mauro Ricardo, este com um perfil mais técnico, elogiado pela “criação de receita”. A gestão FHC foi marcada pelo debate entre desenvolvimentistas e monetaristas. Serra deu peso ao primeiro grupo. No segundo, estava a turma da PUC- Rio, com uma visão ortodoxa da economia. Essa ala era formada por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, e Gustavo Franco, ex-BC. Hoje, parte do grupo, ainda vinculado ao PSDB, atua na Casa das Garças, instituto de pesquisas econômicas liberais, no Rio.

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