A moeda comum européia, o Euro, foi implantanda em 1999 como mais uma etapa no que se entendia como um processo que deveria conduzir o Velho Continente a tão sonhada unificação política, a qual, por sua vez, era vista por muitos europeus como como condição necessária para a Europa reassumir sua liderança histórica no mundo, suplantando os Estados Unidos. Passados mais de 10 anos da introdução do Euro surgem dúvidas cada vez maiores sobre a sustentabilidade da moeda comum a médio-prazo.

Os países que compõe a área do Euro são bastante heterogêneos no que se refere tanto a sua competitividade externa como a sua situação fiscal. Essas diferenças impõe limites bastante estreitos para a condução de políticas anti-cíclicas “autonomas” por parte dos países a área do Euro.

Nesse contexto, podemos identificar dois grupos de países. No primeiro grupo, composto basicamente pela Alemanha, o crescimento do PIB é liderado pelas exportações, a taxa real de câmbio permanece em patamares razoavelmente competitivos e a situação fiscal (medida pela relação dívida/PIB e déficit público/PIB) permite o uso moderado da política fiscal por vários anos como instrumento de política anti-cíclica. Num contexto de forte apreciação do Euro frente ao dólar e outras moedas, a competitividade externa da economia Alemã foi mantida nos últimos 15 anos graças a uma política de “moderação salarial” adotada pelos sindicatos alemães, os quais, em troca da manutenção dos empregos industriais na Alemanha, aceitaram reduções de salário real que chegaram, em certos casos, a quase 20%. Em outras palavras, o salário real foi usado como instrumento de “politica cambial” para manter a competitividade da economia alemã e a importância da indústria e das exportações como motor do crescimento de longo-prazo da maior economia da Europa.

O segundo grupo de países é contituído pelos PIIGS: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Em que pesem a existência de algumas diferenças entre os mesmos, podemos destacar a presença de alguns traços comuns a esse grupo de países. Com efeito, esses países sofrem de um problema crônico de competitividade externa, o qual se reflete em grandes déficits em conta-corrente (no caso da Espanha quase 10% do PIB em 2008) somado com desequilíbrios fiscais que variam de moderado (no caso da Espanha) à gravissimo (o caso da Grécia). O regime de crescimento desses países nos últimos anos foi, em larga medida, finance-led, ou seja, liderado pelo aumento do consumo (e do investimento imobiliário) financiado com endividamento privado e aumento dos preços dos ativos.  A combinação entre desequilíbrios nos balanços do setor privado e desequilíbrios nas contas públicas não só torna muito estreito o espaço para a utilização da política fiscal de forma anti-cíclica, como ainda inviabiliza as chances de uma recuperação do nível de atividade por intermédio de um aumento da demanda doméstica privada. Dessa forma,  a única saída que esses países tem para a atual crise consiste num aumento forte e sustentável das exportações, o qual, no entanto, fica no aguardo da recuperação da economia mundial, uma vez que : (i) a adesão ao Euro eliminou a possibilidade de se usar a desvalorização do câmbio como instrumento de política econômica; e (ii) os sindicatos desses países não tem a mesma “visão estratégica” dos sindicatos alemães e aparentemente não estão dispostos a trocar redução de salário real por garantia de manutenção de emprego no presente e no futuro. Sendo assim, os países desse grupo não tem como promover um ajuste rápido de sua competitividade externa, o que deverá mante-los por um período longo de tempo numa situação de estagnação econômica.

A crise recente da Grécia expos as fragilidades da área do Euro. Em função das desconfianças crescentes dos mercados financeiros a respeito da solvência do setor público na Grécia, as taxas de juros dos títulos da dívida pública desse país aumentaram consideravelmente nos últimos meses o que terminou por agravar a situação fiscal desse país, criando um ciclo  vicioso: piora das expectativas do mercado financeiro levando a um aumento das taxas de juros que, por sua vez, gera um agravamento da situação fiscal, conduzindo a um nova piora das expectativas do mercado financeiro. Como no contexto do arranjo monetário prevalecente hoje na Área do Euro, o governo da Grécia não pode contar com o apoio financeiro do Banco Central Europeu para monetizar, ao menos uma parte, do seu enorme déficit fiscal; segue-se que a eliminação desse ciclo vicioso exige um ajuste fiscal draconiano por parte do governo grego, justamente no momento em que a política adequada, por conta do quadro recessivo que vive o país, e da ausência de outros instrumentos de política econômica, é a manutenção dos déficits fiscais. A Grécia encontra-se, portanto, entre a Cruz e a Espada: se não fizer um ajuste fiscal forte e crível, os mercados financeiros internacionais irão exigir taxas de juros cada vez mais altas para o financiamento do seu déficit fiscal, o que irá conduzir o país inexoravelmente ao default; se fizer o ajuste fiscal requerido pelos mercados, poderá obter um alívio nas condições de financiamento do seu déficit público às custas de um aumento significativo do desemprego e queda do nível de atividade econômica. Nessas condições, a sociedade e os políticos da Grécia podem, em algum momento, perceber que os custos de manutenção do país na área do Euro superam os seus benefícios, o que levará o país a abandonar  a moeda comum. Se isso acontecer, a pressão sobre os demais PIIGS, principalmente a Espanha, pode se tornar insuportável, levando a um efeito cascata de saída de países da área do Euro.

Uma alternativa a esse quadro sombrio seria a realização de uma política fiscal coordenada entre os países da Área do Euro em conjunto com uma harmonização das regras de fixação dos salários nominais em todos os países da Área do Euro. Com efeito, uma parte significativa dos problemas enfrentados atualmente pelos PIIGS advém do fato de que a Alemanha conseguiu viabilizar uma “desvalorização cambial” por intermédio de uma redução dos salários na Alemanha relativamente aos prevalecentes no resto da Europa do Euro. Sendo assim, uma harmonização das regras de fixação de salário pode ajudar a reverter parte da mudança da estrutura de salários relativos no interior da Área do Euro, o que atuaria favoravelmente no sentido de aumentar a competitividade dos PIIGS. Essa reordenação da estrutura de salários relativos pode e deve ser adotada em simultâneo com uma coordenação entre as políticas fiscais dos países membros, coordenação essa que imponha uma forte expansão fiscal na Alemanha e na França, as duas maiores economias do Euro, e uma contração fiscal nos PIIGS. Dessa forma, evita-se uma queda generalizada da demanda agregada na área do Euro, o que seria extremamente prejudicial para a recuperação das economias européias, ao mesmo tempo que permite a substituição de demanda doméstica (do setor público) por demanda externa (da Alemanha e da França) nas economias dos PIIGS, reduzindo assim o impacto recessivo do ajuste fiscal nesses países.

Para que essa proposta seja viabilizada, no entanto, é necessário que os países da Área do Euro abdiquem da soberania que ainda possuem na formulação de suas políticas econômicas. A política fiscal e as políticas salariais passariam a ser um assunto supra-nacional, a cargo de alguma comissão especial  criada para esse fim pelos países membros. Na prática isso significaria que, em termos de política econômica, os países da Área do Euro deixariam de ser “Estados Nacionais”, tornando-se membros de uma “Federação” de países. Esse seria o primeiro passo mais direto para a construção dos “Estados Unidos da Europa” … o maior pesadelo e a “soma de todos os medos” dos Estados Unidos da América.

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