Projeções indicam retomada plena da atividade econômica

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O ano de 2009 foi marcado por fortes oscilações na economia brasileira e mundial, podendo ser dividido em duas fases muito claras: um primeiro semestre muito ruim, com queda de 1,5% no PIB, queda nas bolsas, dólar mais caro e pacotes governamentais de estímulo ao crédito e ao consumo, via isenções tributárias – tudo isso foi consequência da crise iniciada em setembro de 2008. No segundo semestre, aconteceu exatamente o oposto. Crescimento do PIB, o que fez a taxa acumulada do ano terminar positiva – ainda que levemente acima da estabilidade –, bolsas em alta e dólar mais barato. E, durante todo o ano, as taxas de inflação não causaram preocupação e os juros baixaram até seu mínimo histórico no Brasil, de 8,75%. O que 2010 reserva para a economia brasileira? Na opinião dos economistas, 2010 será um ótimo ano para a economia brasileira e mundial, com a recessão tendo ficado para trás. Há praticamente um consenso de que o PIB brasileiro terá um crescimento vigoroso, que a inflação irá permanecer sob controle, que o dólar continuará fraco no confronto com o real e que as eleições de 2010 não serão um fator de impacto considerável na economia nacional, ou seja, tudo parece indicar um ano de bons resultados para todos.

Fábio Kanczuk, professor de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), acredita que o Brasil irá crescer mais de 6% em 2010, principalmente devido ao mercado interno, após um período de crescimento vigoroso no segundo semestre do ano passado. “Enquanto vimos o comércio sustentando a economia em 2009, com a crise pegando forte os setores industriais e reduzindo os investimentos, veremos em 2010 uma retomada do crescimento da indústria”, comenta o professor. O ex-ministro Maílson da Nóbrega, atualmente consultor da Tendências Consultoria Integrada, é um pouco mais moderado na sua perspectiva de crescimento. Para ele, o PIB no País deverá crescer 4,8% em 2010, principalmente devido ao mercado interno.

Antônio Luis Licha, professor adjunto do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ) e membro do Grupo de Conjuntura dessa instituição, aposta que o crescimento do PIB será entre 5,6% e 5,7%. “Teremos uma situação de desemprego caindo, massa salarial crescendo, uma recuperação da atividade industrial e a retomada dos investimentos, fatores que permitirão ao PIB crescer nesses níveis”, comenta Licha, que, no entanto, ressalta que o crescimento ao longo de 2010 não será tão vigoroso como foi no fim de 2009. Mas há quem não seja tão otimista assim. Paulo Adani, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, SP, diz que o PIB crescerá entre 2% e 3%, mesmo com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): “O governo não tem como ampliar seus investimentos, pois aumentou seus gastos fixos e possui uma dívida interna da ordem de R$1,3 trilhão baseada na taxa Selic, ou seja, o que economiza é para pagar juros”. Outro fator que chama atenção apontado por Adani é que muitas empresas ainda estão se recuperando dos tombos sofridos durante a crise: “O sistema não está plenamente recuperado”. Além disso, o professor acredita que os investimentos que foram retomados no segundo semestre de 2009 só começarão a dar retorno no fim de 2010.

Outra visão alerta para a necessidade de se prestar atenção ao que acontecerá nos Estados Unidos. “No fim de 2009, já havia sinais preocupantes, como a queda na venda de casas novas e a existência de bancos com risco de quebra”, previne José Luis Oreiro, professor adjunto de economia da Universidade de Brasília (UnB) e diretor de relações institucionais da Associação Keynesiana Brasileira. Na avaliação do professor, se esses sinais se confirmarem, o ano de 2010 apresentará um crescimento, mas não tão expressivo. Se não vierem más notícias da economia americana, Oreiro estima que o PIB brasileiro poderá crescer 5% sem problemas. Dólar e commodities Um dos aspectos da economia que não deve mudar para melhor é o real forte na comparação com o dólar. Na opinião dos economistas, o real deverá continuar apreciado. Kanczuk estima que o dólar possa chegar a até R$1,50 no fim de 2010. Além disso, o professor acredita que os preços das commodities estarão baixos neste ano. “Por isso, quem depende muito do comércio exterior passará por maus momentos”, comenta. Adani, por outro lado, acha que o dólar não baixará de R$1,70, “até porque o governo já sinalizou, com a introdução do IOF de 2% em outubro, que ele não quer uma taxa mais baixa”. Oreiro afirma que um dólar abaixo de R$1,70 pode até destruir a indústria brasileira devido à substituição por produtos manufaturados estrangeiros. “No entanto, há mecanismos a curto prazo que podem ser acionados para impedir que isso aconteça, e tenho certeza de que, se for necessário, o governo o fará”, comenta. Por isso, o professor acredita que o dólar deva ficar entre R$1,70 e R$1,80 neste ano. Licha afirma que o problema do real forte irá permanecer em 2010 e que isso é difícil solucionar. “Não há um consenso sobre o que pode ser feito para resolver o problema”, diz. Mas o professor acredita que o câmbio não afetará todos os setores exportadores: “A China continuará comprando commodities, logo os preços em dólar serão bons”. Para Licha, as empresas que exportam produtos manufaturados e commodities não consumidas na China, como suco de laranja e café, passarão dificuldades. “A Europa e os Estados Unidos ainda não terão se recuperado plenamente”, comenta. A taxa de câmbio favorável ao real, por outro lado, ajudará a conter a inflação. “Se não fosse o câmbio, a expansão do crédito e os aumentos dos gastos fixos do governo com salários gerariam inflação”, comenta Kanczuk. No entanto, com o câmbio apreciado, esse risco diminui. Taxa de juros E, com o risco diminuído, a taxa de juros também não deve subir tanto quanto o mercado espera. “Ela subirá um pouco, mas não como se projeta atualmente”, comenta Kanczuk. Maílson da Nóbrega também cita que as indústrias só devem retornar ao seu nível de produção pré-crise no fim de 2010, o que permite aumentar a produção atual para dar conta do aumento da demanda, aproveitando a capacidade ociosa e sem gerar pressões inflacionárias. Licha acredita que a taxa de juros permanecerá em 8,75% ao ano durante o primeiro semestre e que, só no segundo, haverá um incremento para 9,25% ao ano. “Mas isso só depois que a inflação ficar vários meses acima da meta”, explica. Para ele, isso acontecerá principalmente devido às pressões na demanda de serviços. Segundo Adani, a taxa de juros não deve baixar, mas também nem subir tanto, pois não há grandes questões na agenda que justifiquem esse aumento maior. Oreiro não vê no horizonte pressões inflacionárias que justifiquem um aumento na taxa de juros. Para ele, há uma grande ociosidade na indústria, que ainda está se recuperando. Além disso, o professor afirma que o governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva não gostaria de ter de aumentar a taxa de juros em ano de eleição para não dar um discurso ao candidato da oposição. A ata da penúltima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) também traz um cenário de redução das perspectivas de alta da taxa de juros devido à inflação sob controle e à ociosidade presente nas indústrias nacionais. No entanto, os membros do Copom alertaram sobre a possibilidade de existirem novas bolhas nos mercados, como aconteceu em 2008. Eles afirmam apenas que irão monitorar a situação para intervir rapidamente, caso necessário, pois não têm uma ideia clara de como será o futuro. Eleições Nem mesmo as eleições chegam a atrapalhar o cenário. “Normalmente, em anos eleitorais, o governo gasta mais, porém em 2009, devido à crise, esses gastos foram antecipados”, explica o professor da FEA-USP. E Maílson da Nóbrega afirma que os governantes já perceberam que os custos do populismo são maiores que os benefícios a longo prazo. “Ainda que haja pressões políticas por medidas inconsequentes e exista a ressurreição de visões estatizantes sobre a economia, elas não vingarão”, acredita o ex-ministro. Adani não descarta todo o risco de um choque político. “Se as composições políticas para a eleição não forem benfeitas ou se houver um discurso forte de esquerda, o capital poderia se assustar, como aconteceu em 2002. Mas não acho que hoje haja espaço para posições radicais em economia”, comenta. Licha diz que pode existir alguma instabilidade no mercado financeiro se algum candidato com uma crítica mais radical à política econômica tiver chances de ganhar, mas ele acha difícil isso acontecer. Para Oreiro, os dois prováveis principais candidatos, Dilma Roussef e José Serra, possuem um discurso desenvolvimentista muito próximo um do outro.

E, para o investidor na bolsa, em que setores apostar? Para o investidor na bolsa de valores, além de prestar atenção à macroeconomia, é necessário se atentar às especificidades de cada setor da economia e de como as empresas do setor listadas na bolsa se comportarão. De acordo com André Mello, economista-chefe da TOV Investimentos, a grande incógnita será ver como os mercados se comportarão após o segundo semestre, que é quando está previsto o início da retirada dos incentivos que o governo norte-americano está dando à economia. “Será um ano de provação para a economia com a perda dos benefícios para ver se haverá crescimento mesmo assim ou não”, comenta. Mello acredita que a Bovespa, em 2010, terá um cenário positivo, mas não tanto quanto em 2009, podendo chegar a 78 mil pontos. Na opinião do economista, as ações ligadas ao petróleo – Petrobras e empresas fornecedoras – irão bem em virtude da recuperação dos preços do petróleo. Outros setores que podem ter bom desempenho são os de logística, celulose e embalagens, todos em razão do aquecimento da economia. Rossano Oltramari, economista-chefe da XP Investimentos, acredita que o mercado interno será o destaque de 2010 devido à recuperação da renda das famílias. Por isso, ele aposta que os setores ligados ao consumo, como varejo, construção civil e transporte, devem ser os principais ganhadores do ano. Além disso, Oltramari acredita que as commodities também deverão ter altas a longo prazo, favorecendo setores como agropecuária e de mineradoras. No entanto, ele alerta que será necessário ver o que acontecerá no cenário externo para verificar se o crescimento se dará de forma generalizada ou localizada. “Os últimos dados das economias da Europa e dos Estados Unidos são baseados em muitos incentivos e ninguém sabe o que acontecerá quando eles forem retirados, então não dá para fazer uma projeção”, comenta. Marianna Costa, economista-chefe da Link Investimentos, acha que o PIB brasileiro está inflado em bases que não se sustentam ao longo do tempo. “Ele crescerá em 2010 porque os salários foram aumentados, mas não houve investimentos em infraestrutura que garantissem um crescimento maior a longo prazo”, explica. Por isso, ela acha que os setores ligados à economia doméstica – como varejo, incluídos nele lojas de departamento, supermercados e lojas de roupas, e o setor financeiro, que, segundo ela, sempre sabe crescer – serão os de maior destaque. Marianna também acredita no bom desempenho da área de construção civil. Para ela, convém não esperar muito de setores mais expostos à exportação devido à recuperação mais lenta da economia mundial. A Lafis Consultoria elabora estudos periódicos sobre a saúde da economia brasileira e mundial, com revisões constantes para a atualização de dados. De acordo com os analistas da consultoria, alguns setores terão crescimento no faturamento acima de 15% em 2010 na comparação com o ano anterior. Na agricultura, em geral, para a qual a consultoria projeta um bom desempenho, os destaques serão para o algodão, impulsionados pela demanda interna e recuperação da economia, e para o grupo de soja e derivados, que terá aumento na demanda externa. No segmento varejo, que deve apresentar crescimento acompanhando a alta do PIB, o destaque da consultoria é para empresas que têm operações de atacado. Outro segmento destacado é o de internet, que é impulsionado pelo crescimento da renda nacional, que, por sua vez, faz aumentar a venda de computadores, o número de pessoas que acessam a internet e fazem compras on-line, etc. Ainda segundo a Lafis Consultoria, com o aumento da renda e do aquecimento da economia, as empresas que atuam com cartões de crédito deverão ter um ótimo desempenho em 2010. Outro setor de destaque é o de alumínio, com a recuperação das cotações do metal no mercado internacional. A indústria de química e petroquímica deverá experimentar o aumento na taxa de crescimento das vendas internas por meio da expectativa de recuperação econômica e pela base fraca que o ano anterior representou para a atividade industrial. A indústria naval também terá um bom momento, principalmente devido ao pré-sal. Vale lembrar que esses são os setores da economia que apresentarão crescimento no faturamento expressivo, sendo que a maior parte da economia nacional deverá experimentar o crescimento no faturamento entre 5% e 15%, na avaliação da consultoria, com poucos setores com estabilidade ou queda no volume de faturamento. Autor(a): Adriano Koehler

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