É o crescimento econômico que aumenta a poupança das nações

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Para quem defende a formação de poupança como condição prévia para gerar crescimento econômico sustentável no longo prazo, o economista José Luiz Oreiro, da UnB, argumenta que o próprio crescimento gera poupança:

“Provar isso rendeu o Prêmio Nobel de Economia a Franco Modigliani, um judeu italiano que fugiu da Itália de Mussolini, foi para os Estados Unidos e acabou sendo um dos maiores economistas da segunda metade do século XX. O trabalho dele foi sobre a hipótese do ciclo da vida da poupança. Mostrou que crescimento gera poupança”, recorda Oreiro, em entrevista exclusiva ao MM. (maiores detalhes em: http://nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1985/press.html)

O economista da UnB acrescenta que boa parte da elevada taxa de poupança da China resulta do próprio crescimento econômico: “Os chineses conseguiram evitar o populismo cambial”

MM: O senhor fez recentemente uma crítica construtiva ao artigo publicado por dois economistas ortodoxos, para os quais existe uma relação de causalidade positiva entre a taxa de poupança doméstica e a taxa real de câmbio. É necessária a formação prévia de poupança para sustentar o desenvolvimento no longo prazo?

Há dois erros no artigo. Primeiro, eles dizem que a poupança elevada é que causa uma taxa de câmbio competitiva. No entanto, mais da metade da poupança chinesa é gerada pelas empresas e essa poupança corporativa, por sua vez, resulta do câmbio competitivo. Moeda desvalorizada distribui renda das famílias para as empresas.

O segundo erro da dupla é desconsiderar o fato de que, se a política cambial não for ativa, uma elevada taxa de poupança faz com que, no longo prazo, o câmbio se aprecie. Se tenho um elevado superávit em conta corrente, como é o caso da China, gerando entrada forte de moeda estrangeira, se o banco central não administrar o câmbio, a pressão será pela valorização da moeda nacional no longo prazo, eliminando a vantagem da taxa de poupança elevada.

O efeito de longo prazo de uma poupança elevada sobre a taxa de câmbio é a sobrevalorização, a não ser que seja esterilizada por uma política de compra de reservas.

Outro aspecto: o próprio crescimento gera poupança. Provar isso rendeu o Prêmio Nobel a Franco Modigliani, um judeu italiano que fugiu da Itália de Mussolini e foi para os Estados Unidos e acabou sendo um dos maiores economistas da segunda metade do século XX. O trabalho dele foi sobre a hipótese do ciclo da vida da poupança. Mostrou que crescimento gera poupança. Boa parte da elevada taxa de poupança da China vem do crescimento.

MM: É justo transferir renda das famílias para as empresas?

A questão aí é o longo prazo. Se olharmos para o desenvolvimento chinês nos últimos 20 ou 30 anos, veremos que foi bem-sucedida essa política até para tirar milhões de famílias da miséria. Na medida em que o câmbio competitivo foi mantido, a China se industrializou e cresceu mais rapidamente, o que repercutiu no emprego e, consequentemente, nos salários.

O país conseguiu evitar o populismo cambial, que é manter o câmbio valorizado, gerando um bem-estar de curto prazo, ganho de poder de compra, mas que não se sustenta no longo prazo. Isso é uma praga que assola o Brasil e foi a causa de muitas crises na América Latina. Esse é o populismo mais perverso na região.

MM: Os conservadores argumentam que é uma ilusão desvalorizar o câmbio para dar competitividade às exportações…

Essa política está funcionando há décadas. Parece a previsão de que “um dia o capitalismo acaba”. Pode até ser, mas está durando bastante. Tirando a questão ambiental, a dinâmica da política chinesa talvez tenha como limite apenas o próprio sucesso, pois o crescimento puxado por exportações não dá mais para uma economia que se tornou enorme.

Em algum momento o mercado interno terá de ganhar peso. Mas foi justamente o sucesso das exportações que levou a isso. Um país pobre, de economia insignificante, é hoje a segunda maior economia do mundo. Mas os chineses terão de mudar o modelo em função do próprio sucesso.

MM: Por que os ortodoxos insistem na tese da formação da poupança para depois investir?

A ortodoxia tem dois vícios: a ênfase em posições de equilíbrio de longo prazo e os raciocínios baseados em petição de princípio. O longo prazo é definido em economia como um intervalo de tempo longo o suficiente para que todos os ajustamentos se completem.

Via de regra, trata-se de resultados assintóticos, em geral irrelevantes para a formulação de política econômica, pois o horizonte temporal da mesma se estende, no máximo, por algumas décadas.

Foi por isso que Keynes cunhou a sua famosa frase “A longo prazo estaremos todos mortos”, indicando com isso a irrelevância do conceito de equilíbrio de longo prazo, definido dessa forma, para a formulação de políticas econômicas.

A petição de princípio ocorre quando as condições para a validade de um determinado resultado não é demonstrads de forma adequada, apelando-se para apriorismos como “O sistema de preços resolve o desequilíbrio”; “No longo prazo a economia converge para o pleno emprego” etc. Muitos dos resultados ortodoxos, principalmente os que dizem respeito à questão do câmbio, se baseiam direta ou indiretamente nesses “princípios”.

MM: Como deve ser tratada a relação câmbio-poupança?

Na minha visão de mundo, compartilhada pelos novo desenvolvimentistas, o câmbio é variável exógena (determinada pela política macroeconômica) e a poupança, uma variável endógena. A mudança na relação de causalidade não implica uma mudança no sinal da relação, uma vez que uma taxa de câmbio mais depreciada (em função de uma política deliberada de desvalorização da moeda por operações de compra de reservas internacionais como faz a China) gera, pelo mecanismo da distribuição funcional da renda, um aumento da taxa de poupança doméstica, produzindo, assim, o fenômeno da “substituição de poupança externa” por poupança doméstica, enfatizado por Bresser-Pereira em seus escritos.

Esqueçam, então, esse papo furado de aumentar a frugalidade das famílias, via reformas como a da Previdência, ou completar o ajuste fiscal. A política certa para o longo prazo é estimular as pessoas a consumir mais e os governos a gastar mais. Nesse contexto, parafraseando o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, “Hugo Chávez é o cara”. A Revolução Bolivariana é o caminho para se obter uma taxa de câmbio depreciada e competitiva no longo prazo.

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