Segundo dados do IBGE divulgados pela pesquisa industrial mensal relativa ao mês de dezembro, o conjunto da indústria brasileira sofreu uma queda de 0,3% da produção entre novembro e dezembro de 2009. É o segundo mês de queda consecutiva da produção industrial, haja vista a queda de 0,2% em novembro frente a outubro de 2009(verhttps://jlcoreiro.wordpress.com/2010/01/06/ibge-producao-industrial-cai-em-novembro-apos-10-meses-de-alta/). A queda da produção industrial em dezembro foi largamente influenciada pela forte queda da produção de bens de consumo duráveis (quase 5%), repetindo assim a forte queda observada em novembro.

Esses dados nos permitem fazer duas reflexões. A primeira diz respeito a velocidade de crescimento da economia brasileira em 2010. Dada a forte correlação entre crescimento do PIB e crescimento da produção industrial, a desaceleração do ritmo de expansão da produção industrial entre o terceiro e o quarto trimestre de 2009 –  quando houve uma redução do crescimento da produção da indústria de 4,7% para 3,6% –  faz com que seja pouco provável que o crescimento do PIB em 2010 apresente o resultado exuberante (crescimento entre 5,5 e 6%) que é esperado por alguns economistas e analistas do mercado financeiro. As projeções do Fundo Monetário Internacional para a economia brasileira em 2010, apresentadas no World Economic Oulook de novembro do ano passado, apontam para um crescimento bem menor do que o esperado pelos analistas brasileiros, de apenas 3,5%. As projeções do Banco Central do Brasil apontam para um crescimento maior do que o esperado pelo FMI, mas ainda assim inferior a 5%. Sendo assim, o cenário de fortes pressões inflacionárias traçado “pelos falcões da inflação”, os quais parecem enxergar em tudo motivo para a elevação da taxa selic, nos parece bastante exagerado. Com efeito, o grau de utilização da capacidade produtiva da indústria deverá levar ainda muito tempo para atingir os níveis observados no primeiro semestre de 2008, o que posterga a decisão de elevação da taxa básica de juros pelo Copom para, pelo menos, meados de 2010.

A segunda reflexão diz respeito a relação entre crescimento da demanda e crescimento da produção. É consenso entre os economistas de que a demanda doméstica apresenta, desde o último trimestre de 2009, uma forte expansão. Tudo o mais mantido constante, a forte expansão da demanda doméstica deveria estar se traduzindo num crescimento acelerado da produção de bens de consumo duráveis, o que não está acontecendo. A explicação óbvia, embora não necessariamente a única, para esse fenômeno é que parte da expansão da demanda doméstica está “vasando” para o exterior na forma de crescimento acelerado das importações, notadamente bens duráveis, consequência da forte valorização da taxa de câmbio verificada no final de 2009. Sendo assim, a valorização do câmbio está “roubando” o crescimento da produção industrial o que, por um lado, evita o surgimento de pressões inflacionárias mais fortes pelo lado da ocupação rápida da capacidade produtiva; mas, por outro lado, reduz as perspectivas de crescimento da economia brasileira em 2010.

Essa análise nos leva a conclusão de que o governo deveria atuar em duas frentes ao longo do ano. A primeira frente refere-se a adoção de políticas que visem conter o ritmo de crescimento da demanda doméstica. Nesse contexto, sugeri recentemente, em entrevista ao Valor Econômico (ver https://jlcoreiro.wordpress.com/2010/01/25/aperto-fiscal-e-contencao-de-credito-podem-segurar-alta-mais-forte-do-juro-valor-economico-25012010/), não só a retirada dos estímulos tributários adotados pelo governo em 2009, como ainda a imposição de um requerimento compulsório de reservas sobre o saldo das operações de crédito destinadas ao financiamento dos gastos de consumo. Esse requerimento de depósitos teria o efeito de aumentar o custo de concessão dessa modalidade de crédito para os bancos comerciais, levando os mesmos a reduzir a oferta desse tipo de empréstimos e a aumentar as taxas de juros desse tipo de crédito. A elevação do custo do crédito ao consumo irá atuar de forma similar ao aumento da Selic sobre a demanda agregada, mas não terá os “efeitos colaterais” indesejados que decorreriam de um aumento da taxa básica de juros, a saber: elevação do custo do capital e aumento da pressão para a valorização da taxa nominal de câmbio.

A segunda frente refere-se a política cambial propriamente dita. Embora nas últimas semanas o movimento de apreciação do Real tenha sido parcialmente revertido, é fato que subsiste uma sobre-valorização significativa da moeda brasileira. Estudos do Ministério da Fazenda apontam que a taxa de câmbio de equilíbrio para a economia brasileira nas condições atuais seria de R$ 2,15 por dólar. Dessa forma, o governo deve o quanto antes por em operação o Fundo Soberano Brasileiro como comprador de moeda estrangeira no mercado à vista para forçar uma elevação da taxa de câmbio, evitando assim um agravamento do déficit em conta-corrente e induzindo um crescimento mais robusto da produção industrial.

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