Herança Maldita

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S. Paulo, 25.01.2010

Lula se beneficiou de uma taxa de câmbio muito depreciada no início de 2003, mas não soube ser desenvolvimentista

A manchete do caderno Dinheiro desta Folha no último dia 18 é significativa: “Déficit externo é herança maldita”. O Brasil está de volta ao déficit em conta-corrente, que neste ano deverá ser de cerca de US$ 50 bilhões, e volta, portanto, a aumentar uma dívida externa que já causou tantos problemas. Desta maneira, assinala o jornal, o governo Lula deixa para seu sucessor uma “herança maldita” semelhante à deixada por FHC.

Será mesmo “maldita” essa herança? Na matéria, um competente economista, Reinaldo Gonçalves, não tem dúvida quanto a isso. Já dois economistas convencionais supõem que, endividando-se, o Brasil aumenta sua capacidade de investimento. Ledo engano de uma ortodoxia local que aceita os conselhos dos nossos concorrentes ricos para tentarmos crescer através de déficits em conta-corrente. Em vez de aumentar o investimento, o que a poupança externa faz quase sempre é apreciar a moeda local, aumentar o consumo e substituir a poupança interna pela externa. Na política econômica, tanto o novo desenvolvimentismo como a ortodoxia convencional são contra o populismo econômico -gastar mais do que se arrecada- e são contra os déficits públicos crônicos, ou seja, criticam o populismo fiscal. Qual a diferença? Está no populismo cambial, que o novo desenvolvimentismo rejeita e os ortodoxos alegremente esposam ao defenderem déficits em conta-corrente, ou seja, tentar crescer com poupança externa. “Porque assim financiamos o investimento”, diz o populista cambial ortodoxo. Na verdade, quando o país incorre em déficit em conta geralmente sua taxa de investimento não aumenta ou pouco aumenta, porque a inevitável apreciação do câmbio provoca o aumento artificial dos salários e do consumo e a substituição da poupança interna pela externa.

Entre 1994 e 1999, por exemplo, o déficit em conta-corrente aumentou de 0,4% para 4,7% do PIB, mas a taxa de investimento, que era de 21,3% em 1994, em vez de subir para 25,6% (mais 4,3% do PIB), como prevê a ortodoxia convencional, baixou para 19,2%. A taxa de substituição da poupança interna pela externa foi de 132%! Em 2006, o Brasil apresentou um superávit corrente de 2,9% do PIB. A diferença entre +2,9 e -4,7%, ou seja, 7,6% do PIB, deveria ser quanto teria diminuído o investimento do país em relação aos 19,2% de 1999.

De fato baixou, mas não para 11,6% do PIB, e sim para 16,5%. Desta vez, enquanto o Brasil crescia com despoupança externa, ocorria o processo inverso de substituição da poupança externa pela interna (a taxa foi de 68%), quando houve uma diminuição relativa de salários e, principalmente, um ajuste fiscal maior.

A manchete, portanto, tem razão. Lula está deixando uma herança maldita para seu sucessor. Ele se beneficiou de uma taxa de câmbio muito depreciada no início de 2003 e de um grande aumento no preço das commodities exportadas pelo Brasil, o que permitiu ter superávits em conta-corrente e taxa de crescimento mais elevadas.

Mas não soube ser desenvolvimentista como os países asiáticos dinâmicos, e voltou ao vício do populismo cambial que tanto interessa aos países ricos porque nos torna menos competitivos internacionalmente, mais frágeis financeiramente, mais obrigados ao “confidence building”, mais sujeitos a crises de balanços de pagamentos. Para o político local, o populismo cambial ajuda sua reeleição. Não entendo, porém, para que esse populismo serve ao economista ortodoxo brasileiro.

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