Medo do Tesouro faz dólar contrariar viés

Luiz Sérgio Guimarães

 Tamanho do Texto

O mercado de câmbio doméstico contrariou ontem a tendência internacional de queda do dólar. Enquanto lá fora a moeda americana perdeu valor frente a várias divisas, principalmente o euro e a libra, aqui o dólar fechou em alta de 0,34%, cotado a R$ 1,7360. Além da insólita valorização, outra peculiaridade marcou o início da semana: a pesada retração dos players. Mesmo para um início de ano, o giro de negócios vinha sendo muito bom, frequentemente acima de US$ 2 bilhões, mas ontem o volume recuou a US$ 600 milhões. Os motivos não devem ser buscados no receio de que as crises internas que grassam na Argentina e na Venezuela ultrapassem as fronteiras com o Brasil. O investidor estrangeiro já compreendeu que precisa tratar desigualmente os desiguais. As razões foram domésticas mesmo: os planos do governo de utilizar o Fundo Soberano do Brasil (FSB) para estabilizar o câmbio e o déficit de US$ 375 milhões registrado pela balança comercial na primeira semana do ano.

Desde que foi baixado, no dia 29 de dezembro, o decreto presidencial que regulamentou o FSB o mercado não conseguiu afastar o temor de que parte das captações serão buscadas diretamente no mercado à vista. O Tesouro competiria com o Banco Central pelo excedente do fluxo cambial. O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustín, confirmou a intenção de utilizar o FSB como mecanismo de política cambial. Isso tem vastas implicações, não só em matéria de câmbio. Afeta diretamente também as políticas monetária e fiscal, ou seja, a forma como o governo combate a inflação e estimula o crescimento.

No entender do professor da UnB, José Luis Oreiro, o governo vai ter de aumentar a dose da austeridade fiscal se o Tesouro utilizar o Fundo Soberano como instrumento para conter a volatilidade do câmbio. De acordo com o secretário do Tesouro, Arno Augustín, as operações do fundo não estarão limitadas ao valor corrente de seu patrimônio, de US$ 16,3 bilhões, podendo ser ampliadas com a emissão de títulos públicos para a compra de moeda estrangeira. Na visão de Oreiro, a atuação do Tesouro como “market-maker” cambial é essencial para se garantir a manutenção da autonomia da política monetária – a capacidade do BC fixar a taxa de juros para o atendimento de objetivos domésticos – com a “fixação” da taxa de câmbio num patamar competitivo a médio e longo prazo. Mas o Tesouro faria um tipo de intervenção esterilizada no câmbio, similar a do BC, por meio da colocação de títulos públicos, que irá exigir uma aumento do superávit fiscal.

O uso do fundo para estabilizar a taxa de câmbio requer, no entender de Oreiro, um aumento considerável da dívida bruta do setor público brasileiro, em função da emissão de títulos para a compra da moeda americana. Isso ocorre devido a existência de um diferencial considerável entre a rentabilidade dos ativos a serem adquiridos pelo FSB e dos títulos públicos utilizados para o “funding”. Para a ala mais ortodoxa do mercado, as atuações do Tesouro seriam ineficazes para conter a taxa de câmbio uma vez que há “perfeita substituibilidade” entre o real e o dólar. Os heterodoxos discordam. No caso brasileiro, parece prevalecer a “substituibilidade imperfeita” entre as moedas: como há controles de capitais remanescentes na economia brasileira, as intervenções esterelizadas, assim como a compra de dólares pelo Tesouro, seriam capazes de afetar a taxa nominal de câmbio – contribuindo, na opinião de Oreiro, “para o objetivo de obter uma taxa de câmbio mais competitiva a médio e longo prazo”.

Os corretores supõem que o comportamento arredio demonstrado ontem pelo dólar tenha interrompido o ilógico movimento de redução das posições compradas em derivativos cambiais carregadas por investidores estrangeiros na BM&F. Afinal, se a tendência é de o dólar valorizar-se pelo surgimento de um grande comprador no mercado – o Tesouro -, não seria lógico diminuir as posições compradas. Mas era isso o que vinham fazendo. No último pregão do ano passado, os hedge funds estavam comprados em US$ 7,25 bilhões. As posições foram cedendo dia a dia até alcançar US$ 5,68 bilhões na sexta-feira.

No mercado futuro de juros da BM&F, os players promoveram pequenos ajustes de alta nos contratos. A justificativa não foi das mais relevantes: a revisão para cima na previsão de Selic para o fim do ano, de 10,75% para 11%, do Boletim Focus divulgado ontem. E o CDI para o mesmo período avançou de 10,32% para 10,34%. O pretexto era tímido porque a curva já embute taxa superior a 13%. O movimento que poderia dar consistência a um novo patamar de CDI viria das expectativas de IPCA para 2010. Mas permanecem no centro da meta de inflação (4,5%) há quatro semanas.

Luiz Sérgio Guimarães é repórter de finanças

E-mail: luiz.guimaraes@valor.com.br

Anúncios