Criador dos Brics critica exportação brasileira

Autor(es): CLAUDIA ANTUNES
Folha de S. Paulo – 03/01/2010
 

Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, “é muito difícil” que o país seja bem-sucedido apenas como vendedor de produtos primários

Chefe de pesquisa do banco, porém, elogia economia doméstica do país e diz que investimento e consumo devem ser incentivados

O Brasil não pode se conformar em ser exportador de commodities num mundo cujo crescimento é puxado pela China, afirma Jim O’Neill, chefe de pesquisa econômica do banco Goldman Sachs e inventor em 2001 da sigla Bric. “Não é uma estratégia sensata”, disse à Folha, de Londres, em entrevista na qual reafirmou seu otimismo sobre o futuro dos emergentes. Abaixo, os principais trechos.

FOLHA – O Goldman Sachs prevê que em 2050 os atuais Brics (sigla dos países emergentes Brasil, Rússia, Índia e China) estarão entre as cinco maiores economias do mundo. Ao mesmo tempo, a renda per capita dos países do atual G7 continuará aumentando. Os recursos naturais vão aguentar a pressão da demanda?
JIM O’NEILL – A evidência histórica sugere que, após um certo nível de riqueza, normalmente acima de US$ 6.000 per capita, os países começam a se tornar mais eficientes no uso da energia. Isso indica que, em algum momento daqui a dez anos, quando a China e a Índia chegarem a esse estágio, sua demanda por energia e outros recursos começará a diminuir. Outro fator importante é que a China acaba de anunciar um compromisso muito grande com a eficiência energética.

FOLHA – Os EUA relutam em se comprometer com metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. Eles deveriam temer perder competitividade se passarem a uma economia de baixo carbono?
O’NEILL – Claro que não, seria bom para eles. Esse argumento é uma estratégia da direita política, que é hostil a essas ideias [de aquecimento climático] e usa isso como desculpa. Acho que a América pode, olhe para o Japão, para o Brasil. Desde os anos 80, no mundo desenvolvido, o Japão vem demonstrando como aumentar a eficiência energética. Não há muitas coisas que podemos aprender com o Japão, mas essa é uma delas. No mundo emergente, o Brasil está bem à frente de outros países.

FOLHA – Se a demanda chinesa e indiana por recursos naturais tende a diminuir, isso corrobora os que no Brasil alertam para o risco de o país se tornar um exportador basicamente de commodities. Como o senhor vê esse problema?
O’NEILL – Não acho que seja uma boa coisa para o Brasil ser. Acho que é muito difícil ser permanentemente bem-sucedido apenas como exportador de produtos primários. Não é uma estratégia de longo prazo sensata.

FOLHA – Mas o que o Brasil pode fazer agora para evitar isso?
O’NEILL – Eu admiro bastante os esforços para tentar conter a valorização do real. Acho que é bom desencorajar a doença holandesa [excesso de ingresso de capitais]. Não sou especialista em Brasil, mas acho que a chave é, como em outros países que se desenvolveram, encorajar mais pesquisa e desenvolvimento, para entrar em áreas de valor agregado nas quais seja difícil para outros competirem.

FOLHA – Em 2030, a Ásia deverá ser responsável por mais da metade da economia mundial. O que isso significa em termos de transformação do sistema econômico global e de desafio para as outras regiões em desenvolvimento?
O’NEILL – Há três consequências. Primeiro, significa que a estrutura de governança da economia mundial tem que mudar dramaticamente. É muito importante que isso seja modificado, de modo que o papel do G20 passe a um grupo menor, uma nova forma de G7. Em dez anos, provavelmente precisaremos dos seguintes países no G7: EUA, China, Índia, Japão, Brasil e a União Europeia, com um só representante. Nada de Canadá, Reino Unido, Alemanha, França ou Itália. Em 20 anos, poderemos ter um sistema de câmbio diferente do que temos hoje [em que o dólar é a moeda de referência]. Em segundo lugar, na próxima década muitos países da África e da América Latina se beneficiarão do crescimento da Ásia, pelo fato de serem fortes produtores de commodities. Sua estratégia de longo prazo dependerá das características de cada um deles. Um país como o Brasil, que tem uma população grande e uma demografia favorável, é perfeitamente capaz de cuidar de si. A grande história para o Brasil é a sua economia doméstica, não o resto do mundo.

FOLHA – Desenvolver o mercado interno, o senhor diz?
O’NEILL – Sim, a chave para a política brasileira é não se preocupar com essas coisas de comércio global. O Brasil deve se concentrar em manter a inflação estável e fazer coisas para apoiar o desenvolvimento do consumo doméstico e do investimento interno.

FOLHA – E a terceira consequência?
O’NEILL – Está ligada ao comércio internacional. Você tem que focar em desenvolver uma vantagem, setores competitivos com maior valor agregado, o que envolve pesquisa e desenvolvimento. A Alemanha é o melhor exemplo disso. De alguma forma, ela parece capaz de lidar com uma moeda valorizada [o euro].

FOLHA – Qual o impacto econômico dos sistemas políticos nos Brics?
O’NEILL – No caso da China, acho que, à medida que a renda dos chineses aumente, a atual forma da ditadura chinesa terá que mudar. Provavelmente continuará sendo, nos próximos 20 anos, um Estado de partido único, mas terá que permitir maior liberdade. A grande coisa que está acontecendo na China agora é o aumento dos gastos governamentais na área social. Nas últimas duas semanas, concordaram em dar aos trabalhadores migrantes os mesmos direitos dos urbanos, incluindo acesso a tratamento de saúde. A China já está começando a mudar.

FOLHA – O fato de o Brasil ser uma democracia é fator de pressão sobre os gastos do Estado. O senhor considera o gasto público brasileiro um problema?
O’NEILL – Falando no longo prazo, o Brasil precisa reduzir o desperdício nos gastos governamentais.

“Um país como o Brasil, que tem uma população grande e uma demografia favorável, é perfeitamente capaz de cuidar de si. A grande história para o Brasil é a sua economia doméstica, não o resto do mundo”

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