A retomada do crescimento da economia não se baseia na expansão do consumo

Algumas reflexões sobre os dados do PIB trimestral

José Luis Oreiro 18/12/2009 Texto: A- A+

Exportações em queda são um indício forte de que a apreciação da taxa real de câmbio está cobrando o seu preço

Os dados divulgados pelo IBGE na semana passada a respeito da evolução do PIB trimestral foram desalentadores. Ao invés da expansão esperada de 2% com respeito ao trimestre anterior, observou-se uma expansão de apenas 1,3%. Dessa forma, as previsões a respeito do comportamento do PIB para o ano de 2009 da maioria das consultorias e bancos foram revistas para um intervalo entre -0,5 e -1% (Valor, 11/12/2009). A se confirmar esse cenário, o PIB brasileiro irá apresentar a primeira contração desde 1992, quando ocorreu uma variação negativa de 0,5%. Esses números mostram de forma inquestionável que os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira, embora não tenham sido um “tsunami”, estão longe de ser a “marolinha” preconizada pelo presidente da República. Quando analisamos mais de perto a composição do crescimento do PIB trimestral, constatamos alguns fatos interessantes, a saber: 1) O investimento cresceu a uma taxa mais de três vezes superior à taxa de crescimento do consumo das famílias (6,5% do investimento contra 2% do consumo das famílias), sinalizando uma retomada dos planos de investimento dos empresários. 2) Os gastos de consumo do governo, após uma forte aceleração no primeiro trimestre de 2009, quando cresceram a uma taxa de 4,2% contra o trimestre anterior, apresentaram uma forte desaceleração nos trimestres seguintes, tendo tido uma variação de -0,1% no segundo trimestre e 0,5% no terceiro trimestre. 3) As exportações apresentaram uma expressiva desaceleração entre o segundo e o terceiro trimestre de 2009, passando de uma expansão de 7,1% no segundo trimestre para apenas 0,5% no terceiro trimestre. A aceleração dos gastos de investimento é, sem sombra de dúvida, uma boa notícia. Ao contrário do alardeado pelos expoentes da nossa “pseudo-ortodoxia”, a retomada do crescimento da economia brasileira – após o tombo observado no último trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009 – não está baseada na expansão dos gastos de consumo (privado e do governo), mas já está se apoiando na retomada dos projetos de investimento, suspensos durante a crise econômica. Isso significa que a capacidade de produção da economia brasileira está retomando a sua trajetória de crescimento, o que sinaliza um adiamento do ajuste da política monetária. Com efeito, nas últimas semanas vários expoentes da nossa “pseudo-ortodoxia” se revezaram nos meios de comunicação a alardear a necessidade de um aumento da taxa de juros básica já no primeiro trimestre de 2010. Para os “pseudo-ortodoxos”, a economia brasileira já estaria apresentando uma taxa robusta de crescimento, superior ao permitido pela expansão do produto potencial, o que levaria a uma rápida redução do “hiato do produto”, o que forçaria a autoridade monetária a elevar a taxa de juros preventivamente, já no início de 2010, para garantir o cumprimento das metas de inflação. Os dados divulgados pelo IBGE mostram não só que a economia brasileira não está crescendo tanto quanto os “pseudo-ortodoxos” imaginavam; como ainda, e mais importante, a aceleração dos gastos de investimento sinaliza um aumento da taxa de crescimento do produto potencial. Sendo assim, o hiato do produto deverá apresentar uma redução muito menos expressiva do que o imaginado pelos nossos “pseudo-ortodoxos”, o que irá adiar a “inevitável” elevação da taxa de juros para o segundo semestre de 2010 … isso se a disputa Serra-Dilma permitir. O segundo ponto a ser ressaltado é que, ao contrário do afirmado pelos “pseudo-ortodoxos”, não está em curso uma “farra fiscal”. O primeiro trimestre de 2009 concentrou um crescimento grande dos gastos de consumo do governo pelo fato de que a maioria dos reajustes do funcionalismo público foi concedida entre janeiro e março do corrente ano. No entanto, os trimestres seguintes mostraram variações de -0,1% e 0,5% para esse gastos. Isso significa que os gastos de consumo do governo deverão fechar o ano de 2009 com uma expansão de 5% com respeito ao ano de 2008. Como o PIB deverá apresentar uma contração de -0,5%, a participação do consumo do governo no PIB deverá aumentar este ano. No entanto, uma expansão constante de 5% para os gastos de consumo do governo é compatível com a estabilidade de longo prazo da relação consumo do governo/PIB supondo um crescimento do produto potencial da ordem de 5% ao ano. Não há dúvida de que a gestão da política macroeconômica e o crescimento de longo prazo seriam beneficiados com uma redução (moderada) da relação consumo do governo/PIB; mas os números apresentados até o momento não sinalizam um descalabro fiscal. O último ponto a ser ressaltado refere-se ao comportamento das exportações. Dos componentes da demanda por bens domésticos, as exportações foram o que apresentaram a maior desaceleração. Esse fato é um indício forte de que a apreciação da taxa real de câmbio está cobrando o seu preço no que se refere à velocidade de recuperação da economia brasileira. Com efeito, se no segundo trimestre de 2009 as exportações cresceram a uma taxa quase 80 % superior as importações; no terceiro trimestre deste ano as exportações cresceram a um ritmo inferior a 30% da taxa de crescimento das importações. Se as exportações tivessem apresentado um comportamento similar ao observado no segundo trimestre de 2009, o PIB trimestral teria tido um comportamento mais próximo das previsões feitas pelo Ministério da Fazenda. O comportamento das exportações é um sinal claro de alerta a respeito da sustentabilidade do ciclo atual de retomada de crescimento da economia brasileira. De fato, o atual ciclo de crescimento só será sustentável se for acompanhado por uma retomada consistente e duradoura dos gastos de investimento. A boa notícia é que o atual ciclo de crescimento da economia brasileira tem início num contexto em que o custo do capital se encontra no seu nível mais baixo em décadas, e a capacidade ociosa ainda existente na economia brasileira sinaliza a manutenção desse cenário por um longo período. No entanto, uma parte considerável do investimento é feito pela indústria e com vistas a exportação. Nas condições atuais de câmbio sobrevalorizado, as exportações brasileiras perdem competitividade e, por conseguinte, o investimento com vistas à exportação deixa de ser rentável. Dessa forma, será de pouca serventia um baixo custo do capital se a rentabilidade dos novos projetos de investimento for afetada negativamente pelo câmbio apreciado. É chegado o momento do governo discutir seriamente uma nova política cambial para o país.

José Luis Oreiro é professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília e Diretor da Associação Keynesiana Brasileira.

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