O matuto e o momento mágico

Luiz Carlos Bresser-Pereira Folha de S. Paulo, 16.11.2009

Será que os brasileiros sabem dos prejuízos e dos perigos que correm em meio a tanto elogio? Será que Lula percebe? O Brasil “vive um momento mágico”, o Brasil é “um ganhador”, “chegou a hora do Brasil” -são essas as frases que hoje lemos na imprensa estrangeira, é dessa forma que nos veem os investidores estrangeiros. E o presidente Lula é visto como o grande herói dessa saga moderna -como o líder político que, sem se desvincular de seus compromissos com os pobres, dizem amavelmente os estrangeiros, revelou-se plenamente confiável para os ricos dentro e fora do país. Uma entrevista de página inteira de Lula no “Financial Times” e 14 páginas na “Economist” celebram esse clima favorável ao Brasil. Qual será a atitude do presidente diante de tudo isso? Faço essa pergunta porque Lula, dotado de notável inteligência, tem a argúcia do matuto e por isso deve ficar desconfiado com tanto elogio. Afinal, por que seria o Brasil “o melhor dos Brics”, como não se cansam de afirmar os investidores estrangeiros não obstante nossa taxa de crescimento seja menor, e nossa economia, mais instável do que a dos outros três países? É verdade que ninguém é de ferro diante de elogios. E que um clima de euforia pode ajudá-lo a eleger seu sucessor. Mas Lula deve saber muito bem como é perigoso ouvir os bajuladores. Mas serão bajuladores os países ricos, suas empresas multinacionais, seus políticos, seus jornalistas? Faz sentido pensar em tal palavra para caracterizar gente tão distinta? Provavelmente não. Talvez seja implicância minha. Entretanto, um fato é concreto: o Brasil trata os investimentos estrangeiros de uma maneira muito diferente da usada pela China, ou pela Índia, ou pela Rússia. Não exigimos reciprocidade, somos, como eles nos dizem, “os mais acolhedores”. Tão mais acolhedores que isso parece compensar para eles o fato de que nossa economia cresce muito menos do que a dos outros Brics. Essa história dos Brics foi uma invenção engenhosa de um analista da Goldman Sachs, mas serviu para “lançar” o Brasil na arena internacional. Na verdade, são os dois Brics mais frágeis -o Brasil e a Rússia- que estão se aproveitando para se valorizar no plano internacional. Foi, aliás, a Rússia que hospedou a primeira reunião dos quatro países, na cidade de Yekaterinburg, em junho deste ano. Ao se identificar com o novo “título”, a competente diplomacia brasileira logrou transferir para o Brasil uma qualidade que é dos outros três países. Assim, além de sermos um país grande em termos de território e de população e de termos uma renda média, passamos a ser vistos também como um país que cresce extraordinariamente. Tomara isso fosse verdade. Mas não é. Como os três outros Brics, já saímos da crise, mas nosso crescimento continua menor. O mais grave, porém, é que não é um crescimento com estabilidade. A atual taxa de câmbio ajuda a combater a inflação, mas, além de prejudicar o crescimento, endivida o país e o torna sujeito a novas crises. O ministro Guido Mantega sabe disso e se preocupa há cerca de um mês chegou a protestar contra tanto elogio. Percebe os riscos do ufanismo. Será que Lula também percebe? E -o que é mais importante- será que os brasileiros também estão se dando conta dos prejuízos que sofrem com acolhida tão boa aos interesses estrangeiros -inclusive por aceitarem essa taxa de câmbio? Será que sabem dos prejuízos e dos perigos que correm em meio a tanto elogio? Não estou seguro, mas penso que estão ficando cada vez mais desconfiados. Afinal, nem sempre os brasileiros se deixam enganar. São também matutos e olham com o rabo dos olhos os “momentos mágicos”.

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