Caros Luiz e José Luis,

 

 

 

 

Desculpem-me a demora em ler o paper intitulado Novo-Desenvolvimentismo e a Agenda de Reformas Macroeconômicas para o Crescimento Sustentado com Estabilidade de Preços e Equidade Social.

 

 

 

 

Gostei do artigo e, de um modo geral, concordo com o diagnóstico e as proposições de política. Tenho apenas algumas observações, feitas a seguir.

 

 

 

 

1- No item 1.2, página 5, é dito que o desenvolvimento da economia requer um “núcleo endógeno” de industrialização – constituído de um empresariado nacional forte e competitivo. Note a semelhança do termo com o de “núcleo endógeno de dinamização do progresso tecnológico” do Fernando Fajnzylber. No livro deste autor, La Industrializacion Trunca de América Latina. México, Nueva Imagem, 1983, como também na literatura Evolucionária, fica claro que a presença de um empresariado forte é condição necessária, mas não é suficiente para a consolidação de um “núcleo endógeno de progresso tecnológico”. Assim, o argumento em análise pode ser melhor qualificado fazendo-se uso da literatura Evolucionária.

 

 

 

 

            Ainda nesta página 5, vocês comentam no parágrafo iniciado com “A estratégia desenvolvimentista, que implementou a industrialização pesada no Brasil, …” sobre o êxito do Brasil na sua estratégia de desenvolvimento entre 1950 e 1980. Porém, foi comentado anteriormente que as economias em desenvolvimento, inclusive a brasileira, têm mercados de capitais deficientes, em especial a ausência de financiamento privado de longo prazo. Assim, como esta vitoriosa estratégia brasileira foi financiada? Esta lacuna do texto pode ser preenchida citando-se a tese de doutorado do Studart, que virou livro (Investment finance in economic development. London, Routledge, 1995) e/ou com minha tese de doutorado, ou um artigo meu na Economia e Sociedade (Resende, M.F.C (2005) O padrão dos ciclos de crescimento da economia brasileira: 1947-2003. Economia e Sociedade, Campinas, V.14, n.1(24), p. 25-55, Janeiro/Junho).

 

 

 

 

2- na página 6 há uma passagem que diz “o desenvolvimento de mecanismos nacionais de financiamento do investimento com poupança doméstica, políticas …”. Veja que arranjos financeiros são pré-condição para o financiamento do investimento, mas nunca a poupança, já que a relação de causalidade é do investimento para a poupança. Uma coisa são os mecanismos de financiamento, outra coisa é a tese liberal de insuficiência de poupança nacional.

 

 

 

 

3- Na página 7, é dito que “No caso de economias semi-maduras, que não tenham desenvolvido mecanismos de financiamento privado de longo prazo, é necessário um papel mais ativo dos bancos públicos. Novamente, sugiro a leitura de Resende, M.F.C (2005) O padrão dos ciclos de crescimento da economia brasileira: 1947-2003. Economia e Sociedade, Campinas, V.14, n.1(24), p. 25-55, Janeiro/Junho, onde estão explicitados os arranjos financeiros alternativos aos mecanismos tradicionais de finance/funding adotados na economia brasileira desde 1956 até 2003.

 

 

 

 

4- No último parágrafo do item 1.3, comenta-se sobre a volatilidade da taxa de câmbio em países em desenvolvimento. Nesta área também tenho uma contribuição, que, é claro, não necessariamente deve ser incorporada ao texto de vocês. Estou trabalhando com a relação entre sistema nacional de inovações e vulnerabilidade externa (e por extensão volatilidade cambial) das economias em desenvolvimento. Trata-se da tentativa de unir elementos da escola Evolucionária com elementos da Escola Pós Keynesiana para explicar a vulnerabilidade externa das economias em desenvolvimento. Ver, por exemplo, meu artigo na Anpec-2008 (National Innovation System, Trade Elasticities And Economic Growth).

 

 

 

 

5- na nota de rodapé 12, sugiro reafirmar que “há vários outros argumentos na literatura sobre câmbio e crescimento que mostram os efeitos deletérios da taxa de câmbio apreciada sobre o crescimento”.

 

 

 

 

6- Na seção 3, não sou favorável ao regime de metas de inflação (RMI). Vejam meu artigo com Luis Pelccioni na REP de julho-setembro de 2009, com argumento teórico e exercício empírico sobre os efeitos negativos do RMI sobre o investimento. Note que o Brasil adota o RMI desde 1999, período suficiente para a Autoridade Monetária (AM) ganhar credibilidade. Contudo, mesmo com a AM tendo credibilidade, isto é, mesmo com os agentes crendo que a AM fará o que for necessário para alcançar a meta de inflação, tal meta só foi alcançada na economia brasileira com o aumento da taxa de juros a níveis muito altos, ao invés de ser alcançada sem a necessidade de tal aumento de juros no contexto de credibilidade da AM. Isto mostra o equívoco do substrato teórico do RMI. Sobre este ponto o André Modenesi vem dando importante contribuição. Ademais, o governo pode estar comprometido com a estabilidade de preços sem ter que, necessariamente, adotar o RMI. De todo modo, pode ser uma boa estratégia não abandonar o RMI, mas flexibilizá-lo de modo bastante inteligente ao se propor um regime de metas também para o superávit do governo, e, assim, obter uma aceitação mais fácil do público de mudar essa política monetária absurda que vem sendo praticada nos últimos tempos.

 

 

 

 

7- na página 24 vocês falam em taxa de câmbio de equilíbrio, mas qual é o critério para se definir a taxa de câmbio de equilíbrio?

 

 

 

 

8- Acho que faltou dar ênfase ao investimento em Saúde e Educação, fundamental para o crescimento de longo prazo e para a constituição de um núcleo endógeno de progresso tecnológico, isto é, fundamental para o êxito de longo prazo da política industrial citada no texto, como também para o êxito do empresariado nacional forte.

 

 

 

 

Acho que o texto está muito bom e a incorporação de todas as considerações que fiz não é, de maneira alguma, imprescindível. Espero que os comentários acima sejam úteis e parabenizo a inicitiva de vocês,

 

 

 

 

 

 

 

Grande abraço,

 

 

 

 

                        Marco Flávio da Cunha Resende

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios