Recebi um comentário de um aluno do curso de economia da PUC-Campinas, Wellington Delazzari, sobre o porque do termo “pseudo-ortodoxo” nos meus posts em resposta as criticas a proposta de implantação do fundo de estabilização cambial. Esse comentário, além de me informar sobre a repercussão favorável do meu blog entre os alunos da puc-campinas, é extremamente útil para aprofundar um pouco mais a crítica a “ortodoxia” brasileira.

Eu uso o termo “pseudo-ortodoxo” por duas razões. A primeira se fundamenta na História do Pensamento Econômico. Os auto-intulados “ortodoxos” são, na verdade, economistas marginalistas ou neoclássicos, uma corrente de pensamento econômico surgida na década de 1870 após a “descoberta” da “lei da utilidade marginal decrescente” por Jevons, Menger e Walras. Ora, essa escola de pensamento econômico é uma dissidência da verdadeira ortodoxia no pensamento econômico que tem suas origens em Quesnay, Smith, Ricardo e Marx. A economia política clássico-marxista se baseia na teoria do valor com base nos custos de produção (não apenas no “valor-trabalho”), mas deixa indeterminada a questão a cerca da escala de operação do sistema (em termos keynesianos, o sistema clássico-marxista carece de uma teoria da determinação da produção e do emprego como um todo). Embora Keynes tenha sido criado na tradição marginalista ou neoclássica, o “princípio da demanda efetiva” e a “teoria da prefereência pela liquidez” podem ser facilmente compatibilizados com o pensamento clássico-marxista. A esse respeito sugiro a leitura de Rogers, C. (1989). “Money, Interest and Capital: a study on the foundations of monetary theory”. Cambridge University Press: Cambridge. Dessa forma, a “tradição reta” (é isso o que significa a palavra “ortodoxo”) no pensamento econômico não é a escola neoclássica, mas sim a economia política clássico-marxista-keynesiana. Colocando em outros termos, do ponto de vista da HPE, a economia neoclássica é o equivalente a uma heresia na tradição cristã.

Uma segunda razão pela qual eu utilizo o termo “pseudo-ortodoxos” é que os auto-intulados “ortodoxos” são, na verdade, “neoclássicos de segunda linha”. Eles não tem a consistência teórica e nem a honestidade intelectual dos verdadeiros neoclássicos. Um exemplo de neoclássico de primeira linha é o professor Afonso Celso Pastore. No artigo dele no Valor publicado na última sexta-feira ele explicitamente desmente os “pseudo-ortodoxos” sobre a suposta ineficácia das operações esterelizadas de compra de reservas em afetar a trajetória da taxa nominal de câmbio. Nas suas palavras

“Seriam necessárias piruetas teóricas invejáveis para se provar que os ativos que atualmente vém sendo comprados por estrangeiros, que não se limitam a arbitragem com cupom cambial, são substitutos perfeitos de ativos estrangeiros, que seria a única forma pela qual as intervenções esterelizadas do BC seriam ineficazes. Sendo eficazes, elas podem reduzir a velocidade da valorização cambial, e ao mesmo tempo elevar a liquidez internacional do país (…) ” (Valor Econômico, 16/10/2009, p.A15)

Os “pseudo-ortodoxos” gritam aos 4 ventos que é impossível compatibilizar a fixação da taxa de juros com vistas a obtenção das metas de inflação e uma política ativa de administração (ainda que parcial) da taxa de câmbio. Ora um dos maiores macroeconomistas neoclássicos do país diz que isso não é verdade. Se usarmos o conceito de “peso do argumento” de Keynes, acredito que o prof. Pastore tem um argumento muito mais “pesado” do que os “pseudo-ortodoxos”.

Mas se as intervenções esterelizadas tem efeito sobre a taxa de câmbio nominal, então qual a diferença com respeito a proposta de criação do “fundo de estabilização cambial”? Não seria melhor deixar o BCB atuar sozinho no mercado de câmbio, ao invés de ter duas instituições tentando regular a trajetória do câmbio nominal?

Acredito que o grande problema das intervenções esterelizadas é que as mesmas são financiadas com emissão de títulos de curto-prazo nas assim chamadas “operações compromissadas”. Esse tipo de financiamento tem a desvantagem (para o governo, não para os banqueiros é lógico) de que o custo do financiamento fica muito dependente dos humores do mercado financeiro. O ideal é usar títulos de longo-prazo para realizar as operações de compra de divisas, daí a necessidade de se constituir um fundo com recursos do Tesouro Nacional, como foi explicado recentemente pelo Ministro Guido Mantega.

Espero que tenha ajudado.

Abraços

Oreiro

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