O meu artigo em conjunto com o Luiz Fernando de Paula publicado no Valor Econômico na semana passada está produzindo “sentimentos primitivos” entre alguns membros da “ortodoxia brasileira”.  Ao invés de tentarem rebater os argumentos apresentados naquele artigo de maneira elegante e científica – o que seria de se esperar entre cavalheiros com pós-graduação em economia – somos mais uma vez brindados com a velha estratégia de desqualificar o oponente, tentando ridicularizar a sua argumentação na vã esperança de que os leitores – pelo menos os menos inteligentes ou com menos senso crítico – se atenham aos detalhes dos adjetivos ao invés de focar a sua atenção na substância do que está sendo dito. É uma pena.

Não irei aqui me rebaixar ao nível dessas pessoas, algumas dais quais  já deveriam ter voluntariamente se retirado do debate econômico nacional após constatarem que suas recomendações de política monetária, formuladas no auge da crise econômica sobre o Brasil, teriam produzido uma hecatombe digna de Hiroshima caso o Banco Central do Brasil as tivesse posto em prática. Espero nas linhas a seguir, manter o nível de cavaleirismo necessário a um debate sério entre economistas profissionais.

Observa-se na resposta da pseudo-ortodoxia uma evidente falta de honestidade intelectual. Inicialmente os pseudo-ortodoxos argumentam que o fundo de estabilização cambial só poderia ter impacto sobre o câmbio se fosse precedido por um forte ajuste fiscal. Apresenta-se esse argumento como se os defensores da implantação do fundo de estabilização não estivessem perfeitamente cientes da necessidade de um forte ajuste fiscal para permitir a implantação do fundo em consideração !!!! Ora esse argumento foi apresentado ad-nauseam no artigo, o qual termina com a máxima de que para ajustar a taxa de câmbio é necessário combinar “desenvolvimentismo” com “fiscalismo”.

No entanto, na segunda parte da argumentação, os pseudo-ortodoxos  reconhecem que os “novo-desenvolvimentistas” de fato preconizam o ajuste fiscal como condição necessária para uma desvalorização permanente da taxa real de câmbio. Então como é possível afirmar que os “novo-desenvolvimentistas” necessitam de “ajuda psiquiátrica” dado que os mesmos tem a mesma opinião dos “pseudo-ortodoxos” sobre a necessidade do ajuste fiscal? Será que os “pseudo-ortodoxos” também precisariam de ajuda médica? Para sair dessa saia justa produzida pela sua própria arrogância e desonestidade intelectual, os pseudo-ortodoxos afirmam então que o ajuste fiscal é, não apenas condição necessária, mas suficiente para a desvalorização da taxa real de câmbio.

Será mesmo? Não há dúvida que a taxa real de câmbio de equilíbrio depende da política fiscal, algo totalmente considerado no meu artigo de 2008 sobre desalinhamento cambial, e que foi apresentado no V Forum de Economia da Escola de Economia de São Paulo. No entanto, a literatura teórica e a evidência empírica mostram que a taxa real de câmbio efetiva pode se desviar por longos períodos da taxa real de câmbio de equilíbrio, e que esses desvios tem efeito negativo sobre o crescimento de longo-prazo. 

Nesse contexto, cabe a seguinte pergunta : o que aconteceria com a taxa real de câmbio no Brasil se o Tesouro aumentasse a meta de superávit primário em 1 p.p (%PIB), por exemplo, mas nada fosse feito com respeito a taxa nominal de câmbio, ou seja, se mantivessemos a mesma política cambial? Com certeza, haveria uma depreciação da taxa real de câmbio de equilíbrio, mas o que aconteceria com a taxa real de câmbio efetiva? Uma conjectura plausível é que as avaliações de risco por parte dos investidores internacionais se reduziriam bastante – afinal o único risco para a economia brasileira teria sido afastado – e o fluxo de capitais externos aumentaria drasticamente. Nesse caso, a taxa nominal de câmbio se apreciaria fortemente –  e devido a inércia inflacionária – levaria algum tempo para a taxa de inflação doméstica convergir para os patamares internacionais. Dessa forma, a taxa real de câmbio se apreciaria fortemente, distanciando-se ainda mais da taxa real de câmbio de equilíbrio, aumentando assim a sobrevalorização cambial, com efeitos nefastos sobre o equilíbrio inter-temporal do balanço de pagamentos e sobre a participação da indústria no PIB.

Em suma, o ajuste fiscal é parte necessária do ajuste requerido da taxa real de câmbio, mas não é a única coisa a ser feita. Talvez os “pseudo-ortodoxos” devam estudar mais um pouco a diferença entre “condição necessária” e “condição suficiente” para a obtenção de um determinado resultado. Ou talvez o problema não seja a ignorância dessas sutilezas lógicas. Talvez o problema seja o desespero que eles se encontram hoje ao perceberem que aqueles que eles julgam “sub-humanos” estão conseguindo convencer a opinião pública  e os formuladores de política econômica a respeito da necessidade de mudar a política econômica. Se for isso, lamento informar que, ganhando Serra ou Dilma, o desespero deles só irá aumentar.

 

 

A contra-

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