Nível ideal para reservas é polêmico entre analistas Luiz Sérgio Guimarães e Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo 09/10/2009

Texto: A- A+ Gustavo Lourenção / Valor Para Sérgio Vale, MB Associados, manter os dólares das reservas fora do país ajudaria a reduzir o seu custo fiscal Os economistas divergem sobre qual seria o “nível ótimo” de acumulação de reservas para o Brasil e para os países emergentes. Há os que defendem que as reservas deveriam ser de, no máximo, o equivalente a um ano das importações. Para Daniel Tenengauzer, do Bank of America Merrill Lynch, os países deveriam acumular reservas não maiores do três vezes a dívida bruta externa que vence no prazo de um ano. No final do ano passado, essa dívida era de US$ 50 bilhões no caso do Brasil. Para Alexandre Lintz, do BNP Paribas, o cálculo é difícil, ainda mais considerando-se que, em momentos de crise, de uma hora para outra podem aparecer imprevistos, como os US$ 30 bilhões em posições vendidas em dólar alavancadas de empresas brasileiras. Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, concorda que não existe “um nível ótimo” de acumulação de reservas. Para manter o dólar sem flutuações violentas, o BC terá que absorver todo o fluxo extra que entrar no mercado, “uma variável que ele não controla”. Para André Modenesi, professor do Instituto de Economia da UFRJ, os benefícios decorrentes da manutenção de reservas internacionais superam os seus custos. Isso é especialmente válido para um país como o Brasil, em que a restrição externa é um problema crônico. Trata-se de um colchão de liquidez internacional que cria importante margem de manobra para a política econômica. Segundo ele, a existência de reservas prontamente disponíveis para intervenção no mercado cambial confere muita agilidade ao BC, o que pode ser crucial em momentos adversos. “Não tenho dúvidas de que esse foi um dos fatores que atenuou o impacto negativo da crise no Brasil.” Por isso, o professor discorda do uso de um “seguro” do FMI, pois ele compromete a política econômica doméstica de duas formas: reduz sua agilidade; e, principalmente, limita sua autonomia, por meio da imposição de condicionantes aos tomadores. E vale lembrar que o Fundo não está capitalizado para a mudança: os atuais US$ 750 bilhões disponíveis para empréstimos são insuficientes. Lintz lembra que uma das alternativas levantadas na própria reunião do Fundo seria ampliar os empréstimos diretos feitos pelos próprios bancos centrais, como no caso das linhas de swap oferecidas pelo Fed, banco central americano, em meio à crise. “Isso seria mais ágil do que o uso de linhas do FMI”, diz. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, acredita que “se temos uma situação fiscal cada vez de pior qualidade, manter reservas em patamar cada vez mais alto significará um custo relativo maior”. Para ele, a solução seria manter parte dos dólares das reservas fora do país, o que, no entanto, seria paliativo. Menos reservas poderiam significar câmbio mais forte, inflação menor e, portanto, juros Selic menores, com dívida interna menor. Mesmo entre os economistas autodefinidos como “desenvolvimentistas” não há consenso sobre o que fazer com a política cambial. Os professores keynesianos José Luiz Oreiro (UnB) e Luiz Fernando de Paula (UERJ) defendem a criação de um fundo de estabilização cambial, bancado com recursos do Tesouro, para intervir no mercado de câmbio. “A autoridade monetária ficaria assim livre para fixar a taxa de juros de acordo com os interesses domésticos, no caso brasileiro, a obtenção da meta de inflação”, diz Oreiro. Como medida complementar, eles defendem a introdução de controles abrangentes à entrada de capitais.

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