A crise e seus impactos sobre o Brasil José Luis Oreiro, Flavio Basilio , Jornal do Brasil RIO –

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A grande crise financeira de 2008 é diferente das crises financeiras anteriores em diversos aspectos. Primeiro porque ela teve suas origens em uma série de desregulamentações financeiras iniciada com o fim das leis McFadden de 1927 e Glass Steagal de 1933, além da criação de um novo instrumento financeiro chamado securitização, que acabou por conferir liquidez a um ativo antes então ilíquido, os empréstimos bancários. Por outro lado, os bancos passaram a ser regulados pelos preceitos de Basileia, que buscavam conferir maior solidez bancária, maiores controles dos riscos de crédito, de mercado e operacional, bem como demandavam dos bancos maiores volumes de capital próprio para fazerem frente a esses riscos. O resultado final foi que os instrumentos que buscavam harmonizar a concorrência bancária internacional e tinham como objetivo aumentar a segurança do sistema bancário acabaram por induzir as chamadas operações fora do balanço, estimulando assim o desenvolvimento do sistema bancário fantasma (shadow banking system), aumentando significativamente a liquidez internacional e, em virtude dos instrumentos colaterais de crédito, culminaram com o aumento da fragilidade do sistema, mesmo que os bancos, do ponto de vista individual, estivessem com boas qualificações de risco. Essa crise também é diferente das crises clássicas de países emergentes. No Brasil, o canal de entrada da crise não ocorreu em função de problemas de balanço de pagamentos. A crise ocorreu mesmo com a quantia de US$ 206 bilhões a disposição do Banco Central.

A crise atingiu o Brasil pelo lado da oferta em função da forte contração do crédito bancário derivado do aumento da preferência pela liquidez – desejo pela posse de ativos facilmente conversíveis em meios de pagamento – dos bancos em virtude das incertezas presentes na economia e dos inúmeros erros de gestão creditados ao Banco Central. O primeiro erro decorre do uso excessivo dos chamados swaps cambiais reversos para conter de forma artificial a apreciação da moeda americana. Esse expediente, juntamente com a utilização do instrumento cambial para combater a inflação, ou seja, um comportamento leniente em relação a queda do dólar, acabou por induzir as empresas exportadoras como Sadia e Aracruz a utilizarem instrumentos de derivativos de câmbio para se protegerem das perdas operacionais decorrentes da taxa de câmbio. O segundo erro do Banco Central emergiu da sua incapacidade de lidar com os efeitos macroeconômicos do aumento da preferência pela liquidez dos bancos. Ao invés de aumentar a liquidez do sistema, para com isso amenizar os efeitos da contração do crédito, o BCB apenas reduziu o compulsório relacionado às operações bancárias, o que não produz nenhum efeito sobre a liquidez do sistema bancário como um todo, mas apenas aumenta a capacidade de alavancagem dos bancos – situação essa que não era desejada pelo sistema bancário. O resultado final foi a contração em R$ 12,86 bilhões das reservas bancárias totais (voluntárias + compulsórias) entre setembro e outubro de 2008.

Do ponto de vista do governo federal, as seguintes medidas foram adotadas: (i) edição da MP 442, que modificou as operações de redesconto efetuados pelo Banco Central, conferindo à autarquia poderes especiais para compra de ativos das instituições financeiras; (ii) edição da MP 443, que facultou à Caixa Econômica Federal e ao Banco do Brasil adquirirem instituições financeiras sem o procedimento de licitação; (iii) redução do IPI para automóveis, motocicletas e materiais de construção (iv) aporte de R$ 100 bilhões ao BNDES para fortalecer as linhas de investimento do banco e evitar elevação dos juros para ampliação da capacidade produtiva; (v) utilização dos bancos públicos como indutores de mercado forçando a queda das taxas de juros praticadas nas operações de crédito ao consumo; (vi) elevação das despesas públicas, em especial aquelas relacionadas ao funcionalismo e aos programas sociais.

Agora, em setembro de 2009, os números relacionados ao crescimento da economia dão sinais de que o país começa a se recuperar, a produção industrial começa a reagir, após queda por três trimestres consecutivos, assim como o emprego e a renda do trabalhador. Todavia, a inadimplência continua se elevando, os investimentos privados ainda não reagiram e o setor externo volta a sentir os reflexos da queda do dólar. Desse razoado, duas perguntas parecem relevantes. Será que o governo empreendeu todos os esforços possíveis para amenizar os efeitos da crise? Estaremos preparados para o novo modelo de concorrência e crescimento que surgirá com o fim da crise? Todas as medidas adotadas para combater a crise pelo governo não são novas e estão presentes em maior ou menor grau na história econômica do Brasil. Por isso, defendemos que o governo perdeu uma janela de oportunidades de efetuar as reformas macroeconômicas que serão essenciais para a promoção do crescimento de longo-prazo da economia brasileira. O governo não acabou com a instituição das LFTs que provoca a contaminação perversa da política monetária pela dívida pública; anunciou, mas não alterou as regras da caderneta de poupança, responsáveis pelo financiamento habitacional, não desindexou a economia, permanecendo o elo indevido do câmbio com os IGPs, dentre outras. Do ponto de vista microeconômico, não efetuou as reformas tributárias e da previdência social e não encontrou soluções para o problema da informalidade do mercado de trabalho. Todas essas medidas são essenciais para o novo paradigma que surge. O modelo de crescimento Estados Unidos–China não é mais sustentável, de modo que a economia mundial não tem uma nova locomotiva para repetir os gloriosos anos 1990 e 2000. Portanto, se o Brasil deseja crescer, terá que ganhar espaço no mercado internacional. Para tanto, terá que enfrentar a concorrência capitalista da China e Índia; infelizmente, sem essas reformas, o sucesso não está garantido. * Economistas

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