Segundo dados do IBGE, reproduzidos em matéria publicada no Jornal O Globo de hoje, a formação bruta de capital fixo recuou 14% no primeiro trimestre de 2009 relativamente ao ultimo trimestre de 2008. A manutenção do grau de utilização da capacidade produtiva da indústria abaixo de 80% (contra um nível pré-crise entre 83 a 86% a.a.) faz com que seja impossível uma recuperação dos investimentos em 2009. Julio Gomes de Almeida do IEDI projeta uma queda de 10% do investimento em 2009 relativamente a 2008. Se esse cenário se concretizar, a taxa de investimento deverá fechar o ano de 2009 em torno de 16% do PIB, o que sinaliza para um crescimento do produto potencial de apenas 1,5% a.a (supondo uma relação capital-produto de 3,2 e uma taxa de depreciação do estoque de capital de 3,5% a.a.).

Nesse contexto, as projeções de crescimento para 2010 parecem se mostrar excessivamente otimistas. Os departamentos de pesquisa econômica dos bancos e algumas consultorias projetam um crescimento entre 4,3% a 4,9% do PIB para 2010. Está claro que a existência de uma capacidade ociosa significativa permite que a economia possa crescer durante um certo tempo a uma taxa superior a potencial. Mas esse crescimento terá um fôlego muito curto se não ocorrer uma recuperação consistente da taxa de investimento.

Um exercício numérico simples pode nos ajudar a entender esse ponto. Consideremos que o grau de utilização da capacidade produtiva seja igual a 80% em julho de 2009 e que o produto potencial e o produto efetivo crescam, respectivamente, 1,5% e 4,5% a.a. Mantidas inalteradas essas condições, o grau de utilização da capacidade produtiva aumentaria para 82,3% em julho de 2010, alcançando 84,8% em julho de 2011. Isso significa que em algum momento ao longo do segundo semestre de 2010 o BCB terá que promover um forte ajuste da taxa de juros para impedir a aceleração da inflação devido ao aumento do grau de utilização da capacidade produtiva, abortando assim o ciclo de “recuperação” da economia brasileira.

Além da restrição de “capacidade” a recuperação da economia brasileira temos que considerar ainda duas questões. Em primeiro lugar, um crescimento do produto efetivo em torno de 4,5% a.a. – muito acima da projeção de 2,5% para o crescimento da economia mundial em 2010 feita pelo FMI- certamente produziria um aumento do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, ainda mais num contexto de câmbio real apreciado. Supondo um déficit em conta corrente de 25 bilhões de dólares em 2009, o Brasil deverá fechar o ano em curso com um déficit em conta corrente equivalente a 1,3% do PIB. Se o Brasil crescer 2 p.p acima da média mundial torna-se bastante provável o cenário desenhado pelo departamento econômico do Itaú-Unibanco de déficit em conta-corrente de 55 bilhões de dólares para 2010, o que elevaria o déficit em conta-corrente para cerca de 3% do PIB. Nessas condições, com base no histórico das economias latino-americanas, O Brasil  já estaria na área de instabilidade do ponto de vista das contas externas, tornando-se alvo de possíveis movimentos de fuga de capitais de curto-prazo em função da deterioração dos “fundamentos externos”.

Uma ultima questão a ser considerada diz respeito a fonte que alimentaria um crescimento da economia brasileira em torno de 4,5% a.a. em 2010. É praticamente consensual entre os economistas (exceto o pessoal do Real Business Cycles) que as variações anuais da taxa de crescimento do PIB são resultado de flutuações da demanda agregada. Assim uma aceleração do crescimento entre 2009 e 2010 deve ser o resultado de uma expansão da demanda agregada. Nesse contexto, a pergunta a ser feita é: de onde virá a expansão da demanda agregada capaz de puxar uma aceleração do crescimento de -0,5% a.a (média das previsões para 2009) para 4,5% a.a. para 2010? Certamente que essa expansão da demanda agregada não virá nem dos investimentos e nem das exportações. Dessa forma, a unica alternativa possível seria ou uma forte expansão do consumo ou um forte aumento dos gastos de investimento.

É pouco provável que os gastos de consumo possam apresentar um crescimento expressivo em 2010. Em primeiro lugar, a taxa de desemprego deverá continuar aumentando em 2009 e no início de 2010 devido aos efeitos retardados que a desaceleração do crescimento tem sobre o nível de emprego. Em segundo lugar, devido a situação do mercado de trabalho, os salários reais também devem apresentar uma tendência a estabilidade a curto e médio prazo. Dessa forma, parece pouco provável que o consumidor brasileiro, tradicionalmente restrito por liquidez, seja estimulado a aumentar de forma significativa seus gastos de consumo.

Isso deixa apenas uma possibilidade: a expansão fiscal. Os gastos do governo em todos os níveis (federal, estadual e municipal) representam 35% do PIB. Se os gastos públicos apresentarem um crescimento de 6% em termos reais (compatíveis com a média histórica) então o setor público contribuirá com 2,1 p.p para o crescimento em 2010. Os restantes 2,4 p.p devem ser originados das decisões de gasto do setor privado. Aqui fechamos nosso argumento: não existem condições objetivas na economia brasileira que permitam uma expansão dessa magnitude nas decisões de gasto do setor privado. Daqui se segue que para a economia brasileira crescer 4,5% a.a em 2010, o ritmo de expansão dos gastos públicos terá que ser consideravelmente superior a sua média histórica, pondo assim em risco a solvência do setor público a médio prazo.

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