Em matéria publicada no Valor Econômico de hoje, o Secretário de Política Econômica, Nelson Barbosa, afirma que a valorização do câmbio é (sic)consequência natural do aumento da renda per-capita e que a única coisa que o governo pode fazer a respeito é tentar reduzir a volatilidade da taxa de câmbio por intermédio da compra de reservas internacionais.

Acho lamentável que a equipe econômica do Governo Lula tenha se rendido aos argumentos ortodoxos que o comportamento da taxa de câmbio é o resultado inevitável das forças de mercado. A experiência internacional mostra que é possível sim administrar o câmbio. A China que o diga. Mas para isso é necessário não só reduzir drasticamente a abertura da conta de capitais no Brasil; como ainda reduzir de forma significativa o déficit público para viabilizar a constituição de um “fundo de estabilização cambial” com recursos do Tesouro Nacional. Ou seja, a estabilização do câmbio pressupõe controles de capitais e aumento da poupança do setor público. Se isso não for feito a médio prazo (2-5 anos); então a combinação entre “investment grade” e o início da exploração dos recursos do pré-sal vai produzir grandes superávits tanto na conta de capitais como na conta de transações correntes do balanço de pagamentos levando a uma fortissima apreciação da taxa de câmbio e a inexorável desindustrialização da economia brasileira. Se isso acontecer, teremos jogado fora 50 anos (1930-1980) de desenvolvimento por intermédio do processo de industrialização.

Na matéria do Valor o secretário pergunta se o Brasil quer ser uma China ou uma Alemanha. A pergunta se origina do fato de que enquanto a China tem câmbio depreciado e é grande exportadora de manufaturados; a Alemanha tem câmbio apreciado e é maior exportador mundial de manufaturas. Se entendi bem a colocação do Secretário ele quis dizer com o exemplo da Alemanha que o Brasil pode também ser um grande exportador de manufaturados , mesmo que o câmbio se aprecie. Se for isso, o secretário está totalmente equivocado. Em primeiro lugar, a participação de manufaturados na pauta de exportação brasileira vem se reduzindo ao longo dos anos. Segundo dados do economista Guilherme Delgado do IE/UFU apresentados no artigo “O Papel do Setor Primário no Ajuste do Balanço de Pagamentos”, a participação dos manufaturados nas exportações brasileiras se reduziu de 56,0% no período 1995/1999 para 42,9% em 2008. Isso significa que a participação dos manufaturados na pauta de exportação se reduziu cerca de 13 p.p em pouco mais de 10 anos. Nesse contexto, observa-se que  a tendência de apreciação do câmbio nos últimos 15 anos (excetuando o breve período 2001-2004) cobrou o seu preço em termos de “primarização” da pauta de exportações do Brasil. Em segundo lugar, a Alemanha pode se dar ao luxo de ter um câmbio apreciado (ao contrário da China) porque o conteúdo tecnológico das exportações alemãs é elevadissimo. De fato, uma desvantagem competitiva de “preço” pode ser compensada por uma vantagem competitiva de “qualidade” . Num trabalho publicado recentemente na Revista de Conjuntura do Corecon/DF apresento dados a respeito da elasticidade renda das exportações e da taxa real de câmbio numa série de países selecionados. Com base nesses dados, observa-se a existência de uma curva em formato de U para a relação elasticidade-renda das exportações-câmbio real. Os países para os quais a relação elasticidade-câmbio é positiva são precisamente aqueles que estão mais distantes da fronteira tecnológica, ou seja, aqueles que precisam compensar a sua desvantagem tecnológica com uma vantagem preço.  Para os países desenvolvidos, como a Alemanha, mais próximos da fronteira tecnológica observa-se que a relação elasticidade-câmbio é negativa. A Alemanha é um país que é líder tecnológico em vários setores, principalmente na produção de bens de capital. Para esses bens, o preço não é tão importante na definição da “vantagem competitiva”, mas sim o “conteúdo tecnológico”. Para que o Brasil possa usar o exemplo alemão seria necessário que tivessemos o nível tecnológico da Alemanha, mas se isso fosse verdade então o Brasil seria um país desenvolvido …

Espero que a passividade do governo face a apreciação cambial não reflita uma rendição aos interesses do sistema financeiro brasileiro que é contrário tanto a adoção de controles de capitais como de qualquer tentativa de estabilizar a taxa de câmbio em patamares competitivos. Para o sistema financeiro a combinação câmbio apreciado-liberdade de capitais é interessante pois permite a “internacionalização da riqueza rentista”, mesmo que as custas da geração de emprego e renda no Brasil.

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