Apesar de cenário melhor, Copom deve manter taxa Selic em 8,75%

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    Luiz Sérgio Guimarães, de São Paulo
    28/08/2009
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Gustavo Lourenção / Valor
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Sérgio Vale, da MB Associados: Demanda pode trazer problemas só em 2011

Da última reunião do Copom, em julho, para cá as expectativas inflacionárias e os índices de inflação corrente caíram a ponto de sustentar a continuidade da série de cortes da Selic. A projeção do Focus para o IPCA deste ano recuou no período de 4,53% para 4,32%. E, para 2010, de 4,41% para 4,30%. A taxa de câmbio cedeu de R$ 1,90 para R$ 1,85. E o risco-país caiu de 275 para 265 pontos-base. Mas como voltar a reduzir a Selic agora, na reunião do Copom marcada para quarta-feira que vem, se a ata da reunião de julho foi enfática e definitiva ao encerrar o ciclo de flexibilização da taxa básica, iniciado em janeiro, quando estava em 13,75%? Esse é o dilema dos oito membros do Comitê.

A maioria dos analistas consultados pelo Valor acredita que o Banco Central não vai voltar atrás e, coerente com a ata, irá manter a taxa em 8,75%. E repetir a unanimidade alcançada no encontro precedente. Dos 15 economistas pesquisados apenas três consideram ainda possível, após os cinco cortes já feitos no ano, mais uma baixa de 0,50 ponto.

 
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Como o BC foi muito veemente em fechar o ciclo de baixa da Selic, se não sustentá-la agora em 8,75% poderá autorizar ao mercado, ou a uma parte dele, o entendimento de que a disposição de Henrique Meirelles em concorrer a cargo eletivo já terá influenciado politicamente a decisão do Comitê. O BC não poderia se queixar de raciocínios como este, pois o fato é que na última ata dinamitou a ponte atrás de si. Não dá para voltar atrás. Espalhou por ela múltiplos sinais de manutenção, como a afirmação de que o corte de julho foi apenas “estímulo monetário residual”. E a confissão de que alguns diretores queriam encerrar o ciclo com Selic a 9,25%. Há um trecho que não permite dúvidas quanto à intenção de deixar a taxa em 8,75% por um tempo bem longo. É o seguinte: “O Copom avalia que a preservação de perspectivas inflacionárias benignas irá requerer que o comportamento do sistema financeiro e da economia sob um novo patamar de taxas de juros seja cuidadosamente monitorado ao longo do tempo”

Vários economistas entrevistados pelo Valor consideram haver espaço para mais uma diminuição da taxa. Mas a possibilidade de o BC vir a ocupá-lo é praticamente inexistente. Um deles é o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Para ele, há condições para um corte, nem que seja de 0,25 ponto, pois a inflação deverá ficar baixa por período longo. “Não podemos esquecer a ajuda que haverá dos preços administrados no ano que vem e não creio que a demanda será um fator inflacionário rapidamente. Demanda forte pode começar a trazer problema lá para 2011, mas não antes”, diz o economista.

Há espaço para o BC manter a Selic baixa durante 2010 inteiro, sem precisar aumentá-la. Isso é claro na hipótese de não ocorrer nenhum risco político ou internacional que tire a economia do trilho. Mas Vale avisa que não se deve esquecer que em algum momento o BC terá que aumentar os juros. “Isso faz parte do ciclo de política monetária, mas acho que dessa vez há espaço para um período mais longo no piso que estamos agora”, diz o economista.

Outro economista que vê uma abertura à nova baixa é o economista Luiz Fernando de Paula, professor da FCE/UERJ. “No contexto econômico atual – uma espécie de “allegro ma non tropo” em que a economia mostra sinais de recuperação mas sem grandes expectativas de um crescimento mais robusto – seria possível ainda uma redução na Selic”, acredita de Paulo. O problema, no seu entender, é que o mercado já “precifica” na taxa de juros futura que o BC irá elevar a Selic por conta da recuperação econômica no próximo semestre e ao longo do próximo ano. “Isto se deve pelo fato de que a definição da taxa Selic é pautada por uma convenção pró-conservadorismo, elevando a taxa de juros por ocasião de uma aceleração econômica (e aumento no hiato do produto) e reduzindo pouco os juros quanto diminui o hiato do produto”, explica o professor. A crise abriu uma oportunidade para o país e o BC romperem com esta convenção.

João Basilio Pereima, vice-chefe do Departamento de Economia da UFPR, aponta duas razões muito fortes para o BC manter a Selic em 8,75%. A primeira é a inexistência de fatos novos significativos que justifiquem uma correção de rumos. A segunda é a estratégia, acertada, do BC em preservar a conquista do juro baixo evitando aumentos no futuro. Pelo raciocínio do economista, o ganho de uma redução adicional de 0,25 ponto não compensa o risco de reduzir agora e ter que subir amanhã por algum motivo, embora não haja no horizonte imediato razões para um aumento de juros em 2010.

Por precaução, o BC poderá manter a taxa básica no momento e esperar um pouco mais para reduzi-la se for o caso. Ao fazer isto, elimina um risco de adicionar volatilidade num momento de estabilidade. “Se baixar, mesmo que 0,25 ponto, irá contradizer a última ata e arranhar sua reputação, sem ganhos evidentes”, diz Basílio. Preservar o patamar de juros é mais importante do que assumir riscos ao intensificar-se a redução. “A curva altamente ascendente da estrutura a termo é artificial, não reflete os fundamentos. A queda de braço entre Meireles e o mercado é clara neste sentido, quando o presidente desdiz a curva de juros altista feita pelo mercado”, diz Basílio

O economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, cujo cenário básico contempla taxa Selic estável em 8,75% até pelo menos meados de 2010, considera que o atual nível do juro é adequado para manter a inflação na trajetória de metas até o ano que vem. “É claro que a inflação de 2010 não está, de forma alguma, dada. Mas as perspectivas são, por ora, favoráveis. Trabalhamos com taxa entre 4% e 4,5%”, prevê Teles.

Luiz Rogé Ferreira, economista da consultoria InvestCerto lembra que a estabilidade da Selic não significa o fim dos estímulos monetários ao crescimento. E esse é o argumento mais eficaz do BC em favor da manutenção. “Como há atraso razoável até que os efeitos das quedas sucessivas dos juros tenham seu impacto totalmente verificado na economia é plausível pensar que ainda haja alguma inércia decorrente desse movimento de queda, favorecendo a retomada do crescimento”, diz. No seu entender, para as condições atuais, o juro real não está fora do lugar.

“Com a inflação de 2009 e 2010 permanecendo comportada ao redor da meta anual fixada em 4,5%, permite-se antever uma taxa de juros real da ordem de 4%, bastante razoável para as condições de nossa economia, em processo de recomposição de estoques e ligeiro aumento no nível de emprego”, diz Ferreira.

O modelo VAR de previsões econômicas desenvolvido pelos economistas José Luis Oreiro (da Unb) e Luciano D’Agostini (UFPR) aponta para uma queda de 0,50 ponto na Selic. “Mas algumas das especificações do modelo apontam para a retomada do ciclo de elevação já em dezembro”, observa Oreiro. O problema é o comportamento da taxa de câmbio. O modelo prevê câmbio estável até dezembro. “Como no Brasil o comportamento da inflação está muito atrelado ao câmbio (muito mais do que à Selic), segue-se que a estabilidade do câmbio num cenário de retomada do crescimento pode levar o Copom a aumentar os juros já em dezembro”, diz Oreiro.

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