Boa hora para discutir o que fazer com a moeda e os rumos do PIB

Por Luiz Sérgio Guimarães, de São Paulo 06/08/2009

 

Silvia Costanti / Valor
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José Luis Oreiro, um dos organizadores: visão keynesiana num livro aberto à participação de economistas de diferentes tendências de pensamento

Texto: A- A+ Compartilhar|Imprimir “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação” – José Luís Oreiro, Luiz Fernando de Paula e Rogério Sobreira (org.) Silvia Costanti /

Valor José Luis Oreiro, um dos organizadores: visão keynesiana num livro aberto à participação de economistas de diferentes tendências de pensamento FGV. 392 páginas, R$ 52,00 Os agentes do mercado financeiro, no Brasil, comportam-se como se tudo, nos planos mais elevados da política econômica, já estivesse resolvido. A vida financeira, solidamente fincada no tripé do superávit primário que reduz dívida pública, no câmbio flutuante e no sistema de metas de inflação, não admitiria, nos seus fundamentos, qualquer tentativa de revisão. Reformas? Só as perfunctórias, destinadas a deixar tudo como está. A crise global de 2008 vai se resolver por si mesma lá fora, e aqui, no nosso recanto paradisíaco, não será preciso mudar nada, exceto talvez algumas extravagâncias relativas aos gastos públicos. Nem se aceita a sugestão de que foi o excesso de desregulação dos mercados que desencadeou as sucessivas crises de liquidez, de crédito, de confiança e a atual, deflacionista-recessiva. O modelo novo-clássico estava e está correto, o problema é da ganância. Os que propõem mudanças efetivas pregam no deserto irreal dos que nada decidem. Nesse sentido, as eleições presidenciais do ano que vem só atrapalham. Principalmente, por que os dois candidatos que se destacam – o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra Dilma Rousseff – já se dispõem a promover alterações na política econômica. Por isso, é de vital importância que se comece a discutir os pilares e os mitos do modelo vigente. Não poderia ser mais oportuna, portanto, um ano antes de o debate eleitoral pegar fogo e incendiar paixões e pregões, a publicação de um livro destinado a discutir serenamente um dos dogmas do modelo, o sistema de metas de inflação e a política monetária mais capacitada a cumpri-las. “Política Monetária, Bancos Centrais e Metas de Inflação – Teoria e Experiência Brasileira”, organizado pelos professores José Luís Oreiro, Luiz Fernando de Paula e Rogério Sobreira, não é obra sectária, de mão única. Apesar de os organizadores possuírem uma visão keynesiana da realidade econômica, os mais de 20 economistas de primeiro time que escrevem sobre o tema transitam por outras áreas do pensamento econômico. Eclético e plural, o livro não pode ser acusado, como tantas vezes já se fez com o objetivo de desqualificar estudos relevantes, de “ideológico”, de “desenvolvimentista”, de “pós-keynesiano”. Ou de, na outra ponta, “monetarista” ou “neoliberal”. Não pode ser rotulado, pois acolhe contribuições de várias escolas de pensamento. O livro não apenas serve como documento histórico, pelo fato de avaliar o desempenho das várias políticas de metas de inflação aplicadas desde que a primeira surgiu, no final da década de 1980, na Nova Zelândia, como analisa seus canais de transmissão, levanta os problemas de natureza teórica e, no caso brasileiro, como destaca o diretor da Escola de Economia da FGV-SP, o professor Yoshiaki Nakano, “discute como a seleção de instrumento único e metas estritas limitam o crescimento potencial da economia brasileira”. E, pura heresia ao consenso absoluto, a obra propõe “alternativas” à política de metas inflacionárias. Sim, elas existem. O mito da infalibilidade do sistema de metas, cuja vigência no Brasil completa dez anos em 2009, decorre do fato de que funcionou a contento num período, a década de 1990, em que havia fortes forças desinflacionárias na economia mundial. Nesse contexto, tal política funcionava sem problemas por que era uma política de sintonia fina. Dava certo mesmo ignorando-se o comportamento dos agregados monetários e de crédito. Os autores não tratam somente de questões teóricas e empíricas relativas ao sistema de metas de inflação. Se tratasse somente disso já seria um mérito. Embora tenha dez anos no Brasil, o regime ainda é muito mal compreendido, principalmente por quem refuta, liminarmente, qualquer tentativa de aperfeiçoá-lo. A obra vai além: analisa a condução e a execução prática do instrumento único utilizado para alcançar as metas, a toda-poderosa política monetária de um frequentemente divinizado Copom do Banco Central. A política monetária de um país é de vital importância, não só para assegurar a estabilidade de preços como para preservar as condições básicas necessárias ao crescimento econômico. Não pode, por isso, estar viciada por preconceitos ideológicos. Essencialmente, deve predominar uma visão pragmática, acima de interesses e alianças. Com ênfase na realidade brasileira dos últimos anos, os ensaios satisfazem quem busca conhecimento de ponta sobre os canais de transmissão da política monetária, a questão da inércia da taxa de juros e a forma de atuação dos bancos centrais. Há capítulos específicos sobre canais vitais, como o do efeito-riqueza e do crédito. O livro, além dos artigos mais técnicos destinados a discutir a eficácia ou a inadequação das decisões monetárias , avalia algumas alternativas de política econômica, incluindo proposições de uma nova governança da política monetária, uma coordenação mais articulada entre as políticas fiscal e monetária e a flexibilização do regime de metas de inflação. Discute-se também a sempre crucial questão da autonomia do Banco Central. E o papel da política fiscal no cumprimento das metas. O livro pode ser um bom ponto de partida organizador do debate que tomará conta da sociedade brasileira à medida que se aproximem as eleições, na direção do país que todos querem, aquele em que seja possível conciliar definitivamente atributos hoje ainda antagônicos: a estabilidade de preços e o aumento sustentável de investimento, produção e emprego.

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