Juros e Produtividade

Carlos Artur Krüger Passos*

 Em excelente artigo de capa a Revista Exame nº. 944 de 03/06/09 relata a saga das empresas Perdigão e Sadia e a recente negociação da sua fusão estabelecendo a Brazil Foods. Mas está de parabéns a Revista por incluir, além disso, um notável e arguto artigo do Prof. Oscar Malvessi, da FGV-Eaesp, intitulado “Onde a Sadia perdeu o jogo”, subintitulado “Ou por que a Perdigão comprou a Sadia – e não o contrário”. Ali se mostra não ter sido da noite para o dia que a Sadia aventurou-se no mundo dos derivativos tóxicos, dando origem a perdas tão substantivas que culminaram com a sua absorção pela Perdigão. Parece que a derrocada não se deveu aos infortúnios momentâneos de um departamento financeiro atrapalhado, mas sim a uma deliberada e duradoura estratégia da cúpula da empresa. Entre 1996 e 2007, os lucros operacionais, obtidos com a produção e vendas, representaram 57% e os resultados de transações financeiras 43% do lucro total da Sadia, enquanto na média das empresas de capital aberto os resultados financeiros representavam 18% do lucro total. Devido a sua propensão a adotar estratégias de elevada alavancagem financeira a Sadia foi inclusive alertada pelo Prof. Malvessi sobre os perigos da sua grande dependência do jogo financeiro. Enquanto isso, sua maior concorrente, a Perdigão, concentrava-se no aumento da produtividade, obtendo crescimento das vendas 73% a mais que a Sadia, entre 2000 e 2008. Já à época o autor ressaltava que o lucro financeiro destruía valor em vez de criá-lo, conduzindo a Sadia para uma armadilha, fazendo-a abandonar uma estratégia inovadora para suas atividades operacionais, e concentrar-se nos lucros ilusórios do lucro financeiro. A lição a retirar, nos termos do próprio Prof. Malvessi, é simples: “lucros trimestrais vêm e vão. O que cria valor para o acionista, porém, é a dedicação ferrenha, dia e noite, ao aumento de produtividade da operação, o crescimento 2 das vendas e a remuneração variável vinculada não ao lucro de um mero trimestre, mas sim à geração de valor de longo prazo. A punição para quem não o faz pode demorar, mas aparece – quem se deixa levar por soluções fáceis é invariavelmente engolido por quem fez a coisa certa”, conclui. Certamente os empresários do mundo da produção deverão refletir e absorver os ensinamentos deste episódio, amplificando seus esforços na adoção de métodos de gestão capazes de estabelecer verdadeiros “ambientes inovativos”® nas empresas para elevar de forma permanente a produtividade. Se o comportamento de priorizar os lucros financeiros é deletério para empresas individualmente, é ainda mais prejudicial se difundido pelo tecido econômico. Uma das funções principais da moeda é prestar-se como meio de troca entre o que alguns produzem e outros desejam consumir. Por essa razão, à medida que os lucros passam a ser gerados apenas pela valorização de ativos financeiros, há um deslocamento entre o que está disponível para ser consumido e o poder de compra de determinados grupos sociais. Isso significa que o montante de lucros obtidos pela especulação financeira nos anos recentes gera poder de compra potencial que, ao ser utilizado tende a gerar imediatamente um descontrole nos preços. Esse é o resultado de longo prazo de economias pautadas na ciranda financeira. Os investimentos produtivos deixam de ser realizados, a capacidade instalada para produção torna-se cada vez menos capaz de responder a variações na demanda e o poder aquisitivo gerado pelo incremento na riqueza meramente contábil passa a manifestar-se cada vez mais como inflação potencial. No caso brasileiro, o banco central, tido como fortemente avesso à inflação, só enxerga na taxa de juros elevada a principal solução para manter a inflação sob controle. Com isso, estimula o sobreinvestimento em ativos financeiros, como títulos do governo. O desestímulo aos investimentos produtivos, ao longo do tempo, de “remédio” passa a ser a principal causa do problema e restringe cada vez mais a capacidade da autoridade monetária reduzir os juros. 3 Candidamente o Banco Central afirma combater a inflação quando de fato cria as condições para que ela surja a todo momento, ao mesmo tempo em que agrilhoa e destrói o impulso empreendedor de todo um povo. No plano macro, esta lição empresarial também nos leva a melhor entender como a política do “bezerro de ouro financeiro” adotada pelo Banco Central do Brasil vai transformando em “operadores rentistas” os empresários que mais deveriam estar voltados para o aumento da produtividade, da competitividade mundial de suas empresas, e por consequência, de nosso país. Também ajuda-nos a compreender o porquê dentre as grandes lideranças e representantes empresariais do mundo da produção, poucas terem elevado suas vozes contra a desastrosa política de juros, exterminadora do empreendedorismo dos brasileiros. Claro, estão satisfeitos com os elevados e estáveis lucros financeiros. Os nossos juros básicos não são apenas elevados, são anômalos. Anômalos por manterem-se durante anos acima da taxa média de lucro operacional dos principais setores produtivos, que em seu conjunto definem a dinâmica da economia brasileira. Isto conduz para o rentismo e para a obtenção dos lucros financeiros especulativos, parte importante das energias produtivas brasileiras. Esta é a maior anomalia econômica, sociológica e política que precisamos desmontar democraticamente. Como não perceber que parte fundamental dos impostos que todos pagamos é reservada prioritariamente, através das metas do “superávit primário”, ao pagamento dos juros que o próprio Estado nacional define em níveis anômalos através de “seu” Banco Central? Como não reconhecer que o país navega sem rumo desde 1995 em regime de subinvestimento, de apagão em apagão, ora da energia, ora do transporte aéreo, ora do escoamento de safra, ora da dengue? São os apagões epidêmicos. Temos imensa dificuldade em reconhecer que vivemos um enorme apagão educacional, o apagão da desindustrialização, e estamos acelerando o apagão ambiental. Estes são apagões endêmicos. 4 Embora pareçam uma pessimista lista de horrores, se examinamos bem, a superação destes “apagões” já constitui um esboço de projeto de nação, contendo insuspeitas oportunidades econômicas. Poderíamos ter uma expansão produtiva comandada pelos investimentos. Estes, pela capacidade de oferta que significam, constituem-se no verdadeiro e maior antídoto contra pressões inflacionarias. E por que não acabamos com esta anomalia nos juros? O texto do Prof. Malvessi aponta-nos uma pista importante. A média das empresas de capital aberto obtém 18% de seu lucro total através de operações financeiras. Estamos paralisando a dinâmica econômica e a geração de empregos para que uma boa parte das empresas produtivas, e todo o setor financeiro possam obter de modo estável cerca de um quinto de seus lucros a partir da especulação financeira. Esta absurda política de juros do Banco Central do Brasil nos anos de auge expansivo da economia mundial “conseguiu conter” a expansão do nosso sistema produtivo, salvo nos setores de “commodities”, que apesar de tudo cresceram respondendo a uma explosão de demanda tanto em quantidades como em preços. Agora, após a crise irresponsavelmente gerada pelos crentes na automática estabilidade autoregulada dos mercados financeiros, o país entrou em recessão técnica graças à manutenção desta política de juros, ainda que ultimamente atenuados a contragosto. Preferimos manter os lucros ilusórios e efêmeros. Aqui, enquanto mantivermos esta política monetária, não perderemos as nossas ilusões. Viveremos iludidos.

 

*Carlos Artur Krüger Passos Economista, Mestre e Doutor em Teoria Econômica Diretor Presidente do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade – IBQP

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