Crise econômica: como o mundo pretende se recuperar?

 

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Para economista, neoliberalismo é responsável e medidas regulatórias são a solução
Reportagem Phillipe Trindade
Edição Luciane Belin
Phillipe Trindade

Segundo Oreiro, economia deve demorar para se reaquecer, mas capitalismo vai se preservar

Segundo Oreiro, economia deve demorar para se reaquecer, mas capitalismo vai se preservar

Desde 2008, quando os primeiros ‘sintomas’ da crise começaram a ser sentidos, medidas de combate a ela como a diminuição da taxa de juros, a compra de ações de bancos e empresas e a fomentação do comércio estão sendo aplicadas por quase todos os governos, inclusive o do Brasil.

Para o economista José Luiz Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico as atitudes dos governos no sentido de salvar as economias estão sendo confundidas com um novo sistema de governo, o Socialismo Moderno. “O que está acontecendo agora é uma maior intervenção do Estado que não visa destruir o capitalismo, mas preservá-lo”, explica.

O especialista falou ao Comunicação para explicar de que forma o Neoliberalismo teve papel crucial na causa da depressão econômica e como os comandantes dos países tentam se recuperar.

 

Jornal Comunicação: Estamos vivenciando o ‘socialismo moderno’?

José Luiz Oreiro: Veja, é um pouco forçado dizer que a crise está produzindo uma espécie de socialismo. O que nós temos hoje é uma repetição do que ocorreu nos anos trinta, quando houve a crise de 1929, que teve um impacto muito forte sobre as economias capitalistas – principalmente Estados Unidos (EUA), Alemanha e Inglaterra. Nos EUA, por exemplo, a taxa de desemprego chegou a 25% da força de trabalho. As medidas que foram tomadas naquele momento pra tirar essas economias da crise são muito similares às que estão sendo tomadas agora. Há um aumento dos gastos públicos, intervenção no sistema bancário e, eventualmente, estatização de uma ou outra empresa. Mas, em nenhum momento, se questiona a essência do sistema capitalista. O capitalismo não pode ser compreendido apenas como o domínio do mercado em todas as esferas. Estado e mercado são complementares no processo produtivo, de tal maneira que é muito forte dizer que a crise está produzindo uma espécie de socialismo: ela não está. Desde a Segunda Guerra Mundial, a participação do Estado na economia nos principais países desenvolvidos – e também nos em desenvolvimento – é bastante elevada. Houve uma redução dessa participação com o Neoliberalismo dos anos oitenta e noventa, mas, em nenhum momento, passou a ser Estado mínimo. O que está acontecendo agora é uma maior intervenção do Estado na economia que não visa destruir o capitalismo, mas preservá-lo. Então é por isso que eu fico receoso com o termo ‘Socialismo moderno’, que seria uma espécie de meio-termo entre capitalismo e o comunismo. Na verdade o que nós temos nos países desenvolvidos, especialmente nos países da Europa Continental, são economias mistas: em que a participação do Estado é bastante importante, assim como a do mercado.

Comunicação: De que forma o Liberalismo ou o Neoliberalismo está atrelado a esta crise?

Oreiro: O Neoliberalismo está atrelado no sentido de que, nos anos oitenta e noventa, houve uma desregulamentação do sistema financeiro que está no cerne desta crise. Como resposta à crise de 1929, surgiu, nos EUA e depois nos demais países desenvolvidos, uma grande regulamentação dos sistemas financeiros que durou mais ou menos até o final da década de 1970. Depois disso, houve uma desregulamentação crescente dos mercados financeiros que permitiu o acontecimento da atual crise. Então, o Neoliberalismo é, sim, responsável, pois a aplicação dessa ideologia retirou as travas que existiam para impedir que os bancos e as instituições financeiras assumissem riscos demasiados.

Comunicação: Por que houve essa liberalização econômica nas décadas de 1980 e 1990?

Oreiro: A regulamentação feita após 1929 foi extremamente bem sucedida. Por causa desse sucesso, a memória foi se apagando e as pessoas começaram a achar que aquela estabilidade era resultado do mercado, quando, na verdade, era da regulamentação. Então, no final da década de setenta, começa a ser desmontado o sistema de regulamentação e vai havendo, já em meados de noventa, uma série de crises. Houve, em 1992, o ataque especulativo contra a Libra Esterlina; em 1994, a Crise do México; em 1997, a Crise do Sudeste Asiático; em 1998, a Crise da Rússia; em 1999, a desvalorização do Brasil; em 2001, o estouro da bolha especulativa da Nasdaq; em 2002, a Crise da Argentina; ou seja, em um espaço de pouco mais de dez anos, houve uma série de crises que tiveram um relativo grau de seriedade. Mas nenhuma como a gente viveu agora. Na verdade aquelas recessões estavam nos mostrando que sistemas financeiros não regulados são propensos à crise, mas os alertas foram ignorados e aí veio esta grande.

Comunicação: Que medidas estão sendo adotadas pelos governos mais prejudicados?

Oreiro: As medidas são do campo fiscal, monetário e de regulação bancária. Em termos de política fiscal, são pacotes de obras públicas combinados com redução de impostos. Há um aumento significativo do déficit público para estimular a demanda agregada e, com isso, a economia. No campo monetário, pode-se observar que, por parte dos quatro principais Bancos Centrais (BCs) do Mundo (o Federal Reserve, dos EUA, o Banco Central Europeu, o Bank of England, da Inglaterra e o Bank of Japan, do Japão) houve uma redução significativa das taxas de juros. Hoje a taxa de juros dos EUA é de 0%. Quando se alcança esse nível, precisa-se realizar uma expansão dos balanços dos BCs. O Federal Reserve não está apenas reduzindo ao máximo a taxa de juros, mas também comprando títulos de curto-prazo emitidos por firmas americanas (os commercial papers). Assim, o BC americano está injetando dinheiro diretamente na economia e está assumindo o que costumava ser uma medida típica de bancos comerciais. A terceira medida é o saneamento do sistema bancário. Uma série deles quebraram e os BCs estão assumindo-os. Não houve estatização de bancos, o que houve foi uma compra daqueles que estavam quebrando. O sistema financeiro é hoje muito exposto a risco, por diversos motivos, e o presidente Barack Obama propôs há duas semanas medidas para regulamentação do sistema financeiro para torná-lo mais sólido e menos propenso a risco.

Comunicação: Não se pode considerar Socialista alguma dessas medidas?

Oreiro: Não. Não há uma socialização dos meios de produção. Há, sim, uma intervenção pontual do governo cujo objetivo é fazer com que o sistema funcione melhor. A finalidade da intervenção é a preservação do Capitalismo e, por isso, não pode ser consideradas de caráter Socialista.

Comunicação: E pode-se dizer que a crise está acabando, que o mercado está se reaquecendo?

Oreiro: Talvez, e apenas talvez, a gente já tenha chegado ao fundo do poço. Mas, daí dizer que a recuperação vai ser rápida, é outra história. Ou seja: paramos de cair. A conjectura que faço é que a recuperação vai ser extremamente lenta. Este ano os países desenvolvidos vão enfrentar retração em maior ou menor grau, em torno de 15%. Os países em desenvolvimento, fora China e Índia, também sofrerão queda de Produto Interno Bruto (PIB), porém um pouco menor – inclusive o Brasil. Devemos ter uma queda de entre 0,5 e 1% do PIB em 2009. Em todos esses países, a percentagem será negativa. Em 2010, haverá uma recuperação pequena. É possível que o aumento do PIB dos países desenvolvidos fique próximo de zero, junto da taxa de desenvolvimento. Recuperação de fato só em 2011 ou 2012.

 

”A taxa de juros influencia tanto a demanda quanto a oferta na economia. Por exemplo, se eu for comprar um automóvel financiado, vou ter que pagar o juro do financiamento. Quanto mais baixo, menor a prestação e, portanto, menor o comprometimento da minha renda e maior a minha disposição para trocar de carro. Isso vale para qualquer tipo de bem durável. Então os juros afetam o custo de financiamento desses bens, afetando a demanda. Ele também afeta o custo de um investimento. Quando uma empresa precisa construir uma nova fábrica, se a taxa de juros for alta, a rentabilidade do investimento vai ser baixa. Então, provavelmente ela não vai realizar esse projeto de investimento e isso também é uma forma como a taxa de juros afeta a demanda. Como no Brasil ela está relativamente alta, isso produz um fluxo de entrada de capitais no país, os especuladores que querem se aproveitar do juro alto. Esse fluxo, então, produz uma apreciação da taxa de câmbio, ou seja, o Real fica mais forte frente ao Dólar e, com isso, há uma redução das exportações. São essas as três formas como a taxa de juros pode afetar a demanda agregada. Já as empresas precisam de capital de giro para financiar as operações normais. Quanto mais alta a taxa de juros, maior é o custo do capital de giro. Então, uma redução da taxa de juros estimula não apenas a demanda, mas também a oferta” 

José Luiz Oreiro, economista e professor da UnB

 

 

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