1)    Valor Econômico: Como você vê essas críticas? Mais especificamente, o que faltaria talvez à macroeconomia hoje “mainstream” em aparelhamento conceitual na comparação com referências que talvez lhe pareçam respeitáveis em outras correntes de pensamento econômico?

 

As críticas são procedentes. O grande problema da macroeconomia mainstream é o apego exagerado a técnica de modelagem ao invés da substância da argumentação econômica. Dou um exemplo. A macroeconomia mainstream se baseia atualmente nos assim chamados “Dynamic Stochatic General Equilibrium Models” (DSGE). Veja, por exemplo, o livro de Jordi Galí (2008). Monetary Policy, Inflation and Business Cycles. Princeton University Press. Esses modelos assumem a existência de mercados contingentes completos no sentido de Arrow e Debreu de tal forma que, parafraseando Frank Hahn, existe um preço cotado hoje para um guarda-chuva a ser entregue em Cambridge no natal de 2010, se chover. No mundo dos modelos DSGE, crises financeiras como a que estamos vivendo hoje são impossíveis porque os mercados financeiros são eficientes no sentido de Eugene Fama. Apesar do manifesto irrealismo dos pressupostos teóricos desse tipo de modelagem, seus defensores dizem que tais modelos são úteis porque (sic) permitem o emprego das técnicas de otimização dinâmica que foram aperfeiçoadas pelos economistas nos últimos 20 anos. Não há nenhum questionamento sobre a relevância desse tipo de instrumental. Por que deveríamos construir modelos macroeconômicos com base na hipótese de hiper-racionalidade dos agentes econômicos, ou seja, com base na premissa de que um agente representativo é capaz de resolver um problema de otimização inter-temporal altamente complexo (algo que aliás poucos economistas conseguem resolver).  A experiência prática e o bom-senso mostram que a racionalidade dos agentes é limitada. Além do mais – como enfatiza David Colander no livro “Post Walrasian Macroeconomics: beyond the dynamic stochastic general equilibrium model”, Cambridge University Press, 2006 – para que os modelos DSGE forneçam solução única (ao invés de equilíbrios múltiplos) é necessário a adoção de hipóteses ad-hoc como, por exemplo, a lineariedade no entorno das posições de equilíbrio estacionário. As prescrições de política econômica do mainstream são baseadas em modelos DSGE com agente representativo e dinâmica linear. Dou um exemplo, o regime de metas de inflação se baseia na hipótese de que existe um único nível de produto de equilíbrio de longo-prazo da economia, o qual é independente da política monetária. Mas o que aconteceria num mundo de equilíbrios múltiplos? O Banco Central poderia então utilizar a taxa de juros para “escolher” o equilíbrio do sistema? Nesse caso a política monetária não poderia ser pautada apenas pelo objetivo de manter a estabilidade da taxa de inflação. Os modelos do mainstream precisam incorporar a heterogenidade de agentes, a racionalidade limitada e a não-linearidade das relações econômicas. Quando isso acontecer (se acontecer), então o mainstream estará bem mais próximo do que hoje se chama de “heterodoxia”.  

 

(2) Valor Econômico: Os críticos também dizem que o sistema agora em colapso (ou considerado em colapso) foi talhado nos moldes “mainstream” do ensino de economia, e isso significaria que os professores de economia, os livros-texto que usam e os cursos ministrados encerram equívocos fundamentais a respeito do modo como as economias, e seus mercados especialmente, funcionam. Independentemente de concordar ou não com essa avaliação, você vê vê nexo direto entre o ensino de economia e a crise em que o mundo foi jogado após o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos?

            O nexo existe. A maior parte dos manuais introdutórios de economia apresentam o sistema econômico como algo que é regulado pelo sistema de preços. As falhas de mercado existem, mas são tratadas quase como “curiosidades teóricas”. Um outro problema que eu acho fundamental nos manuais de economia é a idéia de que existe apenas uma forma de se fazer “ciência econômica”. Não há nenhuma preocupação em mostrar ao aluno o caráter historicamente datado do conhecimento que ele está recebendo. Passa-se ao aluno a idéia errônea que a única maneira de se pensar em termos econômicos é por intermédio do cálculo marginal. O método de análise da assim chamada “economia política” é totalmente ignorado. Acredito que boa parte dos estudantes de economia nos Estados Unidos não faz a menor idéia da existência de diferentes escolas ou paradigmas de pensamento econômico. O curioso, no entanto, é que o paradigma neoclássico hoje dominante era a heterodoxia na década de 1870 quando Jevons, Menger e Walras “descobriram” simultaneamente a “lei” da utilidade marginal decrescente. Com respeito a esse ponto, conta-se que uma vez pediram ao professor Athanasios Asimakopulos, eminente pós-keynesiano, aluno de Joan Robinson, para participar com um capítulo num compêndio de economia heterodoxa. Ele negou enfaticamente, afirmando não ser heterodoxo, pois pertencia a velha ortodoxia do pensamento econômico que tem suas raízes em Smith, Ricardo, Marx e Keynes. Segundo ele, os neoclássicos é que eram heterodoxos. 

              Acredito que o nexo entre o ensino de economia e a crise existe porque a cabeça da maior parte dos economistas (e da classe política) foi moldada nos últimos 30 anos pelas idéias de que i) os mercados funcionam (quase) sempre (mas as circunstâncias nas quais eles não funcionam não são relevantes) e ii) existe uma única forma de se pensar o sistema econômico. Como nos modelos padrão do mainstream não há lugar para crises financeiras em larga escala e como se acredita que a liberalização dos mercados financeiros é algo intrinsicamente bom; segue-se que os policy-makers acabaram tomando medidas de política econômica (por exemplo, a desregulação dos mercados financeiros) que estão na origem da atual crise econômica mundial.    

(3) Valor Econômico: O pessoal pós-autista investe forte contra o economista americano Gregory Mankiw, por causa dos livros-textos dele, que seriam exemplos acabados daquilo que os pós-autistas chamam de ‘livros tóxicos”: em vez de educar, doutrinam, ensinam uma economia pseudo-científica, ideologizada. V. conhece o Mankiw? E os livros dele? Os pós-autistas também investem contra o “tóxico” mais velho, o Samuelson (quase 20 edições, milhões de exemplares vendidos). O que v. acha disso? V. usou um dia o Samuelson? Quais livros-texto costuma recomendar/adotar?

Conheço o livro do Mankiw e usei o mesmo para lecionar introdução a economia quando era professor do IBMEC-RJ. Realmente o livro do Mankiw apresenta a teoria neoclássica como se fosse a única verdade existente a respeito de como se pensar problemas econômicos. Esse tipo de visão dogmática empobrece a ciência. Isso porque as ciências sociais – como a economia – não têm a mesma capacidade das ciências “duras” de testar a validade dos seus paradigmas e teorias contra a evidência empírica. Os testes empíricos em economia são muito limitados e, em geral, não conclusivos. Dessa forma, a “concorrência” entre paradigmas “pelos corações e pelas mentes”, principalmente dos jovens, pode ser uma bom teste a respeito do vigor de cada paradigma teórico. Isso significa que o pluralismo no ensino e na pesquisa em economia deveriam ser incentivados. Como eu acredito que existem sérias falhas de mercado também no ensino e na pesquisa em economia, cabe ao governo incentivar o pluralismo por intermédio dos instrumentos que tem a sua diposição. 

(4) Valor Econômico: A seu ver, qual a importância da matemática e da econometria no ensino e na prática da economia?

            A matemática é um instrumento que é usado por paradigmas teóricos alternativos. No Brasil se construiu um falso mito de que o mainstream usa matemática ao passo que a heterodoxia faz (sic) literatura. Pós-Keynesianos, Marxistas e Schumpeterianos utilizam amplamente os modelos matemáticos tanto no ensino como na pesquisa em economia. Aliás o economista que trouxe a teoria do Caos para a economia foi um pós-keynesiano,Sir Richard Goodwin. O que diferencia os heterodoxos dos economistas do mainstream nesse quesito é o tipo de matemática utilizada. O mainstream dá uma grande ênfase aos modelos de otimização dinâmica e a teoria dos jogos. Os heterodoxos preferem trabalhar com modelos dinâmicos agregados (Pós-Keynesianos) ou setoriais (Schumpeterianos). Recentemente, os heterodoxos tem investido em modelos do tipo Agent-Based nos quais se simula por intermédio de computador a interação complexa entre agentes econômicos heterogêneos. É uma tecnologia ainda incipiente mas que tem dado resultados interessantes,principalmente na esfera dos ciclos econômicos.

            No que se refere a econometria existem divergências bastante significativas entre os economistas heterodoxos. Alguns pós-keynesianos acham que a econometria é irrelevante uma vez que a mesma se baseia no pressuposto da ergodicidade das séries de tempo, pressuposto esse que é incompatível com o conceito pós-keynesiano de incerteza. Dessa forma, esses autores afirmam que o único procedimento “empírico” aceitável é a simulação computacional de modelos teóricos. Ou seja, faz-se a calibragem de um modelo teórico tido como padrão e compara-se as séries de tempo geradas pelo mesmo com as séries de tempo observadas no mundo real. A aderência da primeira a segunda é então o padrão de referência para a aceitação ou não de um determinado modelo.  

(5) Valor Econômico: V. conhece um pós-autista brasileiro que considera importante? (mesmo que seja para citar em off, só para minha informação).

No Brasil não usamos o termo pós-autista. O termo utilizado é economista heterodoxo. Nesse caso considero que atualmente as duas maiores referências em teoria heterodoxa no Brasil são o Mário Possas e o Fernando Cardim de Carvalho, ambos da UFRJ. Eu acrescentaria também o nome do professor Eleutério Prado da FEA/USP.

(6) Valor Econômico: Você assinaria o manifesto que está no facebook?

Sim

(7) Valor Econômico: Que importância lhe parece ter, para o futuro da macroeconomia teórica e aplicada, a revisão de papéis atribuidos ao Estado no enfrentamento da crise atual, tanto nos Estados Unidos, como na Europa e no resto do mundo? Estaria em gestação um novo quadro de referências para a modelagem de políticas econômicas e, quem sabe, também para o ensino da economia, algo que talvez se deva acrescentar com destaque aos termos de definição de uma economia pluaralista?

Eu não tenho dúvida de que o Estado terá um papel muito mais importante no pós-crise do que teve durante os últimos 20 anos. Quanto ao ensino e a pesquisa de economia, a crise deve funcionar como um evento que vai incutir nos jovens a sensação de que uma nova forma de pensar a economia é necessária; pois o mainstream fracassou em prever a mesma.

(8) Valor Econômico: A economia pós-autista tem futuro?

Se você entende economia pós-autista como sinônimo de economia heterodoxa, com certeza que sim, até porque o mainstream do jeito que o entendemos hoje em dia está condenado a morte.

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