Será que podemos conversar? Por Cyro Andrade, de São Paulo 26/06/2009 Indique | Imprimir | Digg | del.icio.us Tamanho da Fonte: a- A+

De cima para baixo, fotos de Davilym Dourado, Fabiano Cerchiari, Bloomberg, Silvia Costanti, De cima para baixo, Deirdre McCloskey, Simão Silber, Paul Anthony Samuelson, José Luis Oreiro Junho de 2000. Um grupo de estudantes franceses publica um manifesto na internet protestando contra o que consideram falta de realismo no ensino de economia, o “uso indiscriminado” da economia e o tratamento da matemática como “um fim em si mesmo”, com o resultado de que a economia se tornara uma “ciência autista”, perdida em “mundos imaginários”. O contexto determinante dessas distorções, afirmavam, seria a dominação da teoria neoclássica e abordagens dela derivadas, inscritas no currículo universitário de economia, que por isso acabou ganhando um estilo dogmático, vedando espaço para a crítica e o pensamento reflexivo. Os estudantes logo teriam o apoio de professores sensibilizados pela proposta contida no manifesto, de envolvimento do ensino com “as realidades econômicas empíricas e concretas”. Junho de 2009. Abre-se uma página no “Facebook” para discussão de um novo manifesto (ver texto na pág. 20), com o mesmo espírito de contestação dos modos neoclássicos de pensar e ensinar economia. O objetivo declarado é encorajar universidades a usar livros-texto de economia “não tóxicos”, que expressem um comprometimento “honesto” com o “mundo real”. Edward Fullbrook, professor na University of the West of England, é o mediador da página, na qual, até terça-feira, mais de 1.300 pessoas – na maioria estudantes, aparentemente – haviam apresentado suas opiniões. Fullbrook foi dos primeiros a aderir ao movimento auto-denominado “pós-autista”, nascido nos desdobramentos da publicação do primeiro manifesto. Ele é autor de um ensaio, “Toxic Textbooks” (acessível em < http://www.toxictextbooks.com/ToxicTextbooksFullbrook.htm > ), em que critica com extrema acidez o conteúdo de livros-texto inspirados na economia tradicional, “mainstream”. É a sua contribuição para o conteúdo de um manual, “The Handbook of Pluralist Economics Education”, no qual também escreveu a introdução (“Relevante of Pluralist Economics for the 21st Century”). A finalidade do livro é oferecer orientação para professores e cursos em que se pretenda dar sentido pluralista ao ensino da economia, sem direcionamento único para as formulações ditas neoclássicas. Editado por John E. Reardon, professor na Hamline University, de Minnesota e editor do “International Journal of Pluralism and Economics Education”, o manual será publicado em meados de julho. Em agosto, sai pela mesma editora (Routledge) o livro “Economic Pluralism”, coletânea de ensaios organizada pelos professores Robert F. Garnett Jr., da Texas Christian University, Erik K. Olsen, da University of Missouri, e Martha Starr, da American University. A publicação do novo manifesto e dos dois livros não é simples coincidência. É a crise que explica essa sincronia de iniciativas “pós-autistas-pluralistas”. Quem pensa nessa linha diz que a economia tradicional, e o ensino dela, tapam olhos e ouvidos de estudantes para a realidade e só lhes passam falácias embutidas nos cânones neoclássicos, ilustrados pelo comportamento dito racional e individualista de pessoas em trânsito por mercados que, também sozinhos, sempre reencontram o “equilíbrio” após eventuais desestabilizações. A crise seria consequência da permanência dessas referências curriculares na cabeça de formuladores de políticas e de economistas em geral, que fizeram a estrutura da economia global agora em colapso, não perceberam a aproximação do desastre e hoje não sabem exatamente como tirar o mundo do buraco. Diz o manifesto no “Facebook”: “O atual colapso econômico não é o resultado de causas naturais ou de uma conspiração de pessoas, mas se explica pelo fato de a sociedade, em todos os níveis, ter sido infectada por falsas crenças a respeito da natureza da realidade econômica. E as fontes primárias dessa infecção são os livros-texto ‘neoclássicos’ ou ‘mainstream’, há longo tempo usados em cursos de introdução à economia em universidades de todo o mundo”. De cima para baixo, Leonardo Rodrigues, Bloomberg, Ana Paula Paiva De cima para baixo, Ricardo Abramovay, Nicholas Gregory Mankiw e Maria Alejandra Madi: em discussão, o pensamento econômico convencional e a validade de opções para a construção de uma nova pedagogia José Luis Oreiro, professor na Universidade de Brasília, concorda: “Acredito que o nexo entre o ensino de economia e a crise existe por que a cabeça da maior parte dos economistas (e da classe política) foi moldada nos últimos 30 anos pelas ideias de que os mercados funcionam (quase) sempre (mas as circunstâncias nas quais eles não funcionam não são relevantes) e existe uma única forma de se pensar o sistema econômico. Como nos modelos-padrão do ‘mainstream’ não há lugar para crises financeiras em larga escala e como se acredita que a liberalização dos mercados financeiros é algo intrinsecamente bom, segue-se que os ‘policymakers’ acabaram tomando medidas de política econômica (por exemplo, a desregulação dos mercados financeiros) que estão na origem da atual crise econômica mundial.” Ricardo Abramovay, professor do departamento de economia da FEA/USP e coordenador de seu Núcleo de Economia SocioAmbiental, concorda em termos: “É imenso o risco de comportar-se como engenheiro de obra pronta quando se comenta a atual crise, como se os críticos ao ‘mainstream’ possuíssem e dominassem segredos intelectuais inacessíveis ao horizonte em que se movem as correntes dominantes. Mesmo assim, acho que se pode dizer o seguinte. O capitalismo contemporâneo organiza-se, desde o início dos anos 1980, com base no padrão de que a satisfação do acionista é o parâmetro fundamental para medir a saúde das empresas. Essa visão não é um produto automático, espontâneo, da evolução dos mercados e sim uma verdadeira produção social que foi ensinada e apreendida em MBAs, nos cursos de economia e a partir da qual são selecionados os executivos e os técnicos. A pedra de toque desse padrão está em formular modelos de comportamento capazes de tornar os mercados mais e mais transparentes, justamente para reduzir os riscos do investidor e com a intervenção mínima de qualquer organização estatal. A ideia central é que o mercado seria capaz de revelar a seus participantes o risco que correm ao participar de suas operações. Esta é uma verdadeira produção cultural, resultado de indivíduos e grupos sociais que aprenderam a trabalhar assim, a valorizar certo padrão de comportamento que hoje está francamente sob contestação.” Davilym Dourado / Valor Deirdre McCloskey: “A economia samuelsoniana reduz toda a economia às aventuras de um homem mau chamado Max U, um verdadeiro idiota que só pensa em si” Acrescenta Abramovay: “Alguns sociólogos contemporâneos chamam de performatividade essa capacidade que uma determinada teoria tem de produzir, ou ao menos corroborar, comportamentos econômicos. O que está em processo de elaboração, agora, é a tentativa de se compatibilizar a permanência da capacidade de fazer inovações financeiras com o controle estatal, que é, de certa forma, o seu contrário. O que desaba é o mito de que o processo de construção de inovações financeiras seria capaz de expor aos agentes econômicos sinais suficientemente sólidos para que pudessem guiar suas decisões num ambiente cada vez mais transparente. Mas, com isso, é o modelo do capitalismo que domina o mundo nos últimos 30 anos, segundo o qual é pelo valor de mercado de suas ações que se julga uma empresa, que se encontra fortemente questionado. E ainda não dá para saber o que será colocado no lugar.” Em seu artigo, Fullbrook centra baterias nos livros-texto de Nicholas Gregory Mankiw, professor em Harvard, que há vários anos são “bestsellers” internacionais quase absolutos entre estudantes dos cursos de introdução à economia e também de macroeconomia. Mankiw tornou-se uma espécie de Paul Anthony Samuelson de nova geração. O “Economics” de Samuelson, primeiro economista americano a ganhar o Nobel, em 1970, foi o manual de formação dos estudantes da segunda metade do século XX, com milhões de exemplares vendidos. Fullbrook acusa Mankiw e Samuelson de cientismo, apologistas de enquadramento da economia em preceitos científicos de abrangência indiscriminada, entre outros pecados de mácula neoclássica. Cita, a propósito, o fato de que, na fala de agradecimento por sua “coroação” em Estocolmo, Samuelson se referiu quatro vezes a Einstein, duas vezes ao físico dinamarquês Niels Henrik David Bohr e a outros oito ganhadores do Nobel de física, além de Newton “e alguns outros nomes, como se fossem parte de sua família”. Fabiano Cerchiari/Valor Simão Silber: “Esse papo de diálogo é conversa mole pra boi dormir, Isso não é ciência. Você pode colocar como ideologia, como práxis política, mas não é ciência” O Valor dirigiu algumas perguntas a Mankiw, por e-mail, pedindo que comentasse as críticas de Fulbrook, mas ele se disse impossibilitado de fazê-lo: “Sorry, but I cannot help you out today”. Insistimos, já que haveria tempo até o fechamento desta edição. Não houve resposta. Fullbrook afirma que nada é mais importante em economia do que ensinar, “por que, como [John Kenneth] Galbraith observou certa vez, a economia é basicamente uma profissão de ensino”. Isso torna a pedagogia econômica “um ponto de partida natural para uma análise de como a economia funcionou de modo tão horrivelmente errado” [levando à crise global, como entendem Fullbrook e outros ‘pós-autistas’], assim como serviria para sugerir “de que maneiras seria possível torná-la menos facilitadora de desastres humanos no futuro”. Sobre Mankiw e seu “Principles of Economics”, com cinco versões consagradas internacionalmente, livro-texto dominante há mais de uma década, afirma: “Como presidente do Conselho Econômico do presidente Bush de 2003 a 2005, esteve diretamente envolvido na maquinação do desastre. Então, os livros-texto de Mankiw podem ser um lugar ideal para se procurar pistas e compreender como a profissão de economia e o público educado por ela se tornaram tão ignorantes, desinformados e nada atentos ao funcionamento da economia no mundo real.” Bloomberg Paul Anthony Samuelson: criticado por exercício de cientismo com Nicholas Gregory Mankiw, uma espécie de seu herdeiro também na capacidade de vender milhões de livros “O pluralismo reconhece como legítima a existência de ideologias, arcabouços e referências alternativas”, disse Reardon ao Valor . “O pluralismo ensina que outros pontos de vista têm o direito de existir por seus próprios méritos. Pode-se concordar ou discordar de visões alternativas, mas aceitar seu direito de existir é a essência do pluralismo. O monismo, antítese do pluralismo, implica que somente ideias compatíveis com uma visão de mundo aceita são admissíveis, enquanto todas as outras devem ser desacreditadas, por falta de mérito. A pedagogia monista, ao excluir a discussão de alternativas e desligitimizando sua existência, é o mesmo que proselitismo, não é educação. Ou seja, o pluralismo educa; o monismo faz proselitismo.” Reardon refere-se ao monismo em qualquer de suas formas. “Como escrevo na introdução ao meu livro, a heterodoxia [na qual o pós-autismo se abriga] pode ser tão culpada de monismo quanto a economia neoclássica. Não é meu objetivo debater qual é mais aberta, e alguns têm dito que a economia neoclássica de fato tornou-se mais aberta. Em vez disso, ofereço um plano de trabalho para quem se interesse por implementar o pluralismo, independentemente de ideologia.” Reardon, aliás, não aprecia as etiquetas e suposta antinomia entre “ortodoxia” e “heterodoxia”, por que a primeira sugere uma espécie de correção vitoriosa e a outra, uma tentativa quixotesca de usurpação. Melhor, ele acha, é falar em economia “tradicional” e economia política. E deixando sempre claro que “nosso objetivo é encorajar o salutar debate de ideias, que, a meu ver, é a verdadeira missão da educação universitária”. Ana Paula Paiva / Valor Maria Alejandra Madi: presença no manual pluralista, com artigo em que a financeirização é mostrada nas suas implicações para a inclusão social Deirdre McCloskey, “distinguished professor” de economia, história, inglês e comunicação na University of Illinois em Chicago, movimenta-se nesse mesmo espaço intelectual pluralista. Com Arjo Klamer, da Erasmus University, e Stephen Ziliak, da Roosevelt University, McCloskey criou e mantém um livro-texto alternativo na internet, com o nome de ‘Economic Conversation’. Os três pertencem a diferentes gerações de economistas (ela é a mais velha), o que também reflete o espírito pluralista da iniciativa. É um livro em constante produção, de acesso livre, em que os autores-professores conversam com quatro personagens imaginários – os alunos – e um convidado ocasional, em diálogos platônicos, nos quais discutem instrumentos e princípios da economia neoclássica. “A maioria dos professores quer que os estudantes deixem um curso de economia com capacidade de argumentação, não com a definição de elasticidade-preço da demanda ou detalhes de curvas de indiferença”, escreveu McCloskey em artigo assinado com Klamer e Ziliak para a “Post-autistic Economics Review”. “Queremos, portanto, que os diálogos sejam conduzidos com rigor igual ao das fontes convencionais de texto [mas] o aprendizado que assim se faz é diferente daquele monológico, do tipo samuelsoniano.” Ao Valor, McCloskey disse que a razão pela qual se recomenda o pluralismo em economia “é que a ciência [econômica] deve estar aberta a todas as evidências e raciocínios, e não fechada e absolutamente convicta de que é superior”. Em sua opinião, “o que falta [à macroeconomia dominante, na academia e nas escolas] é um sentido do todo humano”, por que “a economia ‘samuelsoniana’, termo melhor do que ‘neoclássica’, reduz toda a economia às aventuras de um homem mau chamado Max U” (que maximiza a utilidade). “Esse sujeito é um completo idiota! Só pensa em si mesmo. Uma economia pluralista fala de pessoas reais.” Simão Davi Silber, professor na Faculdade de Economia e Administração da USP, diz que a crítica não lhe parece adequada “por que, muitas vezes, o interesse individual pode não ser o dominante, mas aí você pode ir para o John Nash e a teoria dos jogos, para ver que, sob certas condições uma cooperação é muito melhor que uma boa briga. Isso está na teoria econômica convencional, a gente usa isso, como usa também assimetria de informação, tudo que está colocado na crítica.” De toda forma, naquela parte mais essencial da economia, onde moram seus princípios mais básicos, diz Sibel, “neoclássicos, neokeynesianos, neoautistas, pode botar o neo que quiser”, sempre se depararão com um dilema elementar, que é também o de toda sociedade, com suas vontades ilimitadas e recursos limitados: “Vou rasgar dinheiro ou vou gastar da melhor forma possível? Isso é uma decisão individual, na grande maioria das vezes, de consumidores, poupadores, produtores, o que você imaginar, que são tomadas em mercados, com sinalização feita por preços.” Silber é taxativo: “Não há substituto para o mercado e o que rege a tomada de decisão econômica é uma restrição orçamentária, é um objetivo que cada um tem, de sobrevivência em primeiro lugar. Esse é o grande problema.” Quanto ao diálogo, à conversação entre diferentes escolas de pensamento, dentro ou fora de livros-texto, Silber também não tem meias palavras: “A ciência tem formas de se comunicar. Esse formato não é o convencional. O formato da ciência tem um profundo formalismo. No blá-blá-blá pode-se errar. Mas se você tiver um modelo matemático, não tem erro. O único erro é você estar com o modelo errado. Mas aí você vai para o mundo real, para a prática, e vê se tem uma boa teoria. Esse papo de diálogo é conversa mole pra boi dormir. Isso não é ciência. Você pode colocar como ideologia, como praxis política, não é ciência. Ciência é: me traga um modelo. Se você tem um modelo melhor que o convencional, que explica tudo que está acontecendo no mundo, ótimo. A ciência faz isso. Fez isso com Ptolomeu, com Newton, na medida em que você tem uma teoria superior. Isso é ciência. Não se trata de diálogo.” Mas fica difícil para um economista externo ao pensamento “mainstream” entrar no circuito das publicações acadêmicas, terreno importante para a apresentação de ideias que possam ser consideradas inovadoras. É o que explica McCloskey: “O problema é que, para ter um artigo aceito num jornal samuelsoniano, você deve usar um modelo Max U e deve expressar seus resultados em ‘teoremas de existência’ – que não têm nenhuma importância como ciência, pois ciência trata de grandezas, não de teoremas de existência. Além disso, você precisa usar ‘significância estatística’, o que é um procedimento também desimportante. Se você está apenas raciocinando sobre economia, usando argumentos coerentes e mantendo-se atento às possíveis magnitudes relevantes, então você está fazendo verdadeira ciência econômica. Mas não vai ser publicado.” Então, escrevem-se livros, inclusive manuais pedagógicos como o que vai se publicar agora. Nele, a economista Maria Alejandra Madi, professora na Universidade Estadual de Campinas, contribui com um capítulo sobre economia internacional, escrito em colaboração com José Ricardo Barbosa Gonçalves. Os autores fazem uma abordagem histórica da economia internacional, desde o século XIX até o período de financeirização mais recente, após o princípio dos anos 1970, com ênfase nas relações entre a dinâmica da acumulação, a organização das trocas e dos fluxos financeiros e a organização social – ou seja, os efeitos disso sobre de renda e emprego, entre outras indicações de distribuição de oportunidades de inclusão social. O enfoque pluralista, disse Maria Alejandra ao Valor, permite uma abertura para diferentes paradigmas, em termos de teoria econômica e do ponto de vista da própria interpretação da realidade, ao mesmo tempo que avança para a procura de nexos entre a economia e outras ciências sociais.

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