Os dados divulgados no final da semana passada sobre a economia dos EUA mostram uma desaceleração do ritmo de contração do PIB dos EUA no primeiro trimestre de 2009 relativamente o ultimo trimestre de 2008. Com efeito, a economia dos EUA encolheu 5,7% no primeiro trimestre de 2009 contra 6,1% no ultimo trimestre de 2008 (em valores anualizados). As estimativas para o segundo trimestre são de um nova redução do ritmo de queda do PIB, o qual apresentaria expansão já no terceiro trimestre. Se essas estimativas se confirmarem, a economia dos EUA sairá do quadro técnico de recessão no ultimo trimestre de 2009, de tal forma que a mesma poderia voltar a apresentar um crescimento positivo no ano de 2010.

Isso não significa, no entanto, o fim da crise econômica mundial. Com efeito, a economia norte-americana deverá crescer abaixo do seu potencial (estimado em 2,5% a.a.) durante vários anos devido a insuficiência de demanda agregada. Como ressaltado por David Relly no artigo “Não conte com o consumidor americano” publicado no Valor Econômico de hoje, os consumidores americanos continuam altamente endividados, possuindo dívidas superiores a 130% de sua renda (em comparação ao padrão de 60 a 70% observados nos “gloriosos” anos 1960 e 1970). Dessa forma, os consumidores norte-americanos deverão continuar o movimento de aumento da “propensão a poupar” observado após a eclosão da crise do sub-prime. Com efeito, a taxa de poupança das famílias que era aproximadamente igual a zero, aumentou para cerca de 4% do PIB no ano passado, e precisa aumentar ainda mais, para um patamar de 10% do PIB, para que a relação dívida/renda familiar caia para um patamar mais aceitável de 100% até 2018.

Nesse contexto, uma recuperação mais rápida da economia mundial depende criticamente do surgimento de fontes alternativas de expansão da demanda agregada. O problema é que no atual cenário internacional nenhuma outra grande economia do mundo está disposta a assumir o papel que os EUA desempenharam até 2006 de motor de expansão da economia mundial. Com efeito, a Alemanha, terceira maior economia do mundo, está considerando a introdução de uma emenda constitucional que proibe os 16 governos federais de incorrer em déficits fiscais e limita o déficit estrutural do governo federal em 0,35% do PIB. Isso significa que o próximo governo federal alemão deverá executar um impiedoso ajuste fiscal, após a eleição geral em setembro de 2009; ou seja, a política fiscal alemã será fortemente contracionista logo no início de 2010, tornando ainda mais dificil a recuperação da economia da área do EURO, fortemente dependente das exportações para a Alemanha.

Quanto a China, o consumo doméstico responde apenas 33% do PIB e um aumento mais expressivo da participação do consumo depende da adoção de uma vasta rede de proteção social, ou seja, um welfare-state, na China. Com efeito, como assianala Paul Krugman, os consumidores chineses tem um forte incentivo a poupar haja vista que “precisam parar no banco antes de ir para o hospital”. O problema é que o governo “socialista” da China parece muito pouco inclinado a adotar as reformas sociais que impediram a vitória da revolução socialista na França e na Itália nas décadas de 1950 e 1960.

Isso posto, o quadro que se desenha para a economia mundial para os próximos 2 ou 3 anos é de insuficiência global de demanda agregada. Nesse contexto, uma recuperação mais forte da economia mundial a partir de 2010 fica descartado. Ou seja, os EUA e a economia do Euro (as quais representam quase 50% do PIB mudnail) só deverão recuperar o nível de PIB do terceiro trimestre de 2008 no final de 2011 ou no início de 2012. É provável que mesmo depois disso as maiores economias do mundo cresçam a taxas bem inferiores as observadas no início do século XXI. Isso significa que depois da grande contração de 2009 iremos observar um longo período de semi-estagnação para a economia mundial, ou seja, um padrão em L para a atual crise econômica global.

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