Que os mercados financeiros são extremamente voláteis e sujeitos a alterações súbitas de humor, oscilando entre a “euforia” e a “depressão”, é algo sobejamente sabido. No quarto trimestre de 2008 o clima reinante nos mercados financeiros no Brasil e no mundo era de “Armagedon”. No segundo trimestre de 2009, após a realização dos testes de stress dos bancos americanos, o clima mudou para “o pior já passou, agora inicia-se a recuperação”. Essa nova “convenção” se baseia em dois pressupostos fundamentais, os quais podem estar equivocados:

(i) Os testes de stress do sistema bancário americano realizados pelo governo são confiáveis e mostram que a situação patrimonial dos bancos americanos não é tão grave como se imaginava, de tal maneira que aportes adicionais de capital, feitos pela iniciativa privada, poderão restaurar a capacidade de concessão de crédito do  sistema. 

(ii) O nível de atividade econômica nos Estados Unidos e na Europa deverá se estabilizar em algum momento ao longo do segundo semestre, de tal forma que a recuperação econômica mundial deverá se iniciar em 2010.

Os artigos de Sin-Min Shaw e Armando Castelar no Valor de hoje mostram, em primeiro lugar, que as condições nas quais os testes de stress foram realizados são bastante questionáveis. Com efeito, até mesmo o “Wall Street Journal” desacreditou a integridade dos testes, uma vez que os resultados dos mesmos teriam sido “negociados” entre os bancos e o secretário de Estado Timonthy Geithner para que a divulgação da real situação patrimonial dos bancos americanos não causasse o fechamento imediato de muitas dessas instituições financeiras e a “socialização de fato” do sistema bancário norte-americano.

O segundo ponto é que mesmo que a atividade econômica mundial pare de cair em algum momento ao longo do segundo semestre de 2009, isso não quer dizer que a economia irá iniciar uma nova fase de expansão do produto. No entanto, o resultado mais próvável é a estagnação do nível de atividade econômica, como bem lembrado por Armando Castellar. Isso porque a economia mundial está sem um motor para a expansão da demanda agregada. Com efeito, os consumidores norte-americanos (e, em menor medida, os europeus) deverão continuar aumentando a sua propensão marginal a poupar num esforço – parcialmente self defeating a nivel agregado – para reduzir seus elevados níveis de endividamento. Os consumidores na China e no Japão (e outros países do Sudeste Aisátioco) se mostram bastante relutantes de reduzir a sua propensão marginal  a poupar, de tal forma a produzir um aumento sustentado do consumo nos seus respectivos países. Por fim, os governos dos países europeus, principalmente a Alemanha, estão receosos em aumentar demais os gastos públicos para estimular as suas economias, em função do nível já extremamente elevado do endividamento público. Dessa forma, parece não haver uma fonte estável e segura de expansão da demanda agregada a nível mundial, o que torna muito pouco provável uma recuperação do nível de atividade em 2010. O cenário mais provável é uma situação de estagnação mundial para o próximo ano.

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